Consumo

O longo caminho da sustentabilidade ainda agora começou

No Ciclo de Debates do Consumo da Deco, que decorreu na quinta-feira, concluiu-se que ainda falta muito conhecimento e ação sobre o conceito de sustentabilidade.

O conceito de economia e consumo sustentável tem pouco mais de 30 anos, mas ainda não está bem definido e muito menos está enraizado na sociedade.

“Diria que a sustentabilidade é um espaço de encontro que envolve a economia, o ambiente e uma parte social”, disse o professor universitário, Filipe Duarte dos Santos, no Ciclo de Debates do Consumo organizado pela Deco esta quinta-feira em Lisboa. E é também a “capacidade de usar os recursos de forma adequada, porque o planeta não aguenta o modelo de consumo rápido que temos hoje”, disse, por sua vez, o ambientalista Francisco Ferreira, outro dos oradores do encontro.

Ou seja, sustentabilidade não é apenas aquele produto verde e amigo do ambiente, é também a economia local ou a redução do desperdício, um dos temas mais falados neste debate.

Contudo, apesar da economia global estar a começar a entrar num novo paradigma e dos consumidores estarem cada vez mais atentos, por exemplo, na reciclagem e na procura de produtos biológicos, o modelo económico que existe atualmente – e que é baseado no consumismo – criou uma “situação de insustentabilidade” da qual só se sairá com mais conhecimento, nota Filipe Santos.

Francisco Ferreira diz que, em Portugal, as pessoas são muito pouco ativas nesta área e que há ainda uma “iliteracia” e “desconhecimento” sobre estes temas. “Consumimos 10 litros de água por minuto no banho e seis litros a cada descarga do autoclismo e hoje já existem redutores de caudal, que são baratos e facilmente instaláveis. Mas as pessoas têm de saber que ele existe e, acima de tudo, que é nesses dois casos que se está a gastar mais água”, exemplificou o ambientalista.

Para a secretária-geral do BCSD, Sofia Santos, que também foi outra das oradoras do debate, “a solução disto tudo estaria na educação”, mas “ao longo de toda a vida”, acrescentou Francisco Ferreira. Porque, reparou ainda Sofia Santos, não é só o fator preço que está a travar o consumo de produtos mais sustentáveis ou um maior investimento por parte das empresas.

“Enquanto não houver economia de escala, os produtos sustentáveis serão mais caros porque as matérias-primas e a produção é mais cara. Logo tenho menos interessados em comprar e menos produção. Mas não comprar porque é caro é uma desculpa porque depois compram as calças mais caras por causa da marca”, comentou.

De facto, diz Francisco Ferreira, é tudo “uma questão de opções, e as opções mais baratas são, normalmente, as menos sustentáveis”. E para escolher melhor é preciso conhecer.

O Estado e as empresas podem ajudar?

Além do painel de três oradores que compunham este Ciclo de Debates do Consumo promovidos pela Deco, havia ainda nomes de relevo na assistência, como a diretora-geral da Direção Geral do Consumo, Teresa Moreira.

Também para ela “a educação é importante na medida em que a atenção para este tipo de valores deve começar o mais cedo possível. Por exemplo, na reciclagem usaram-se crianças no anúncio de sensibilização”.

Contudo, é igualmente importante haver incentivos da parte do Estado, diz. Aliás, Sofia Santos concorda e até sugere que o Estado pode criar deduções fiscais, o que significaria menos receita.

Mas para Teresa Moreira o Estado também deve impor alguns comportamentos, neste caso através de legislações, como obrigar os produtos a ter alguns certificados ou as empresas a ter regras de conduta mais apertadas.

Sofia Santos nota que há empresas que já têm essa preocupação mesmo não sendo obrigatório, mas que têm-na porque já percebem que é importante e até em termos de concorrência perante as outras empresas no mercado.

“Nos últimos dez anos a resposta das empresas à sustentabilidade era o relatório de sustentabilidade que não é feito para o consumidor ler. É um documento técnico. Mas agora as empresas já começam a pensar no produto e vai ser obrigatório dar informação sobre a forma como o produto é feito e quem o fez e se o ambiente foi respeitado”, adiantou ainda.

O que os consumidores querem

Marta Almeida, coordenadora nacional do projeto europeu PACITA (Parliaments and Civil Society in Technology Assessment), que estava na assistência, recordou as conclusões de um estudo sobre consumo sustentável que surgiu de uma consulta a mais de 100 portugueses.

De acordo com Marta Almeida, uma dessas conclusões referia que muitos dos contactados considerou que “o Estado devia ter um papel em matérias de sustentabilidade e dar incentivos à economia local e que não se devia deixar o consumo sustentável para o mercado e para as empresas”.

Mas também admitiram que, apesar de saberem a importância do consumo sustentável, “que ele não é fácil e que é só para uma parte e não para todos”.

Mas para Sofia Santos e Francisco Ferreira há também muitas desculpas. “As pessoas sabem que os transportes representam 25% das emissões de carbono em Portugal, mas continuam a usar o carro e a arranjar desculpas para o usar”.

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