Turismo

O teste do algodão aos alojamentos locais está a chegar a Lisboa

Inspetores do The Plum Guide analisam 150 critérios para definir o que é um alojamento de excelência
Inspetores do The Plum Guide analisam 150 critérios para definir o que é um alojamento de excelência

Chama-se The Plum Guide e quer ser para os apartamentos que recebem turistas o que o Guia Michelin é para os restaurantes. Só 1% consegue entrar

“É pequeno, não há como contornar este facto, mas é perfeitamente confortável para dois, e cheira maravilhosamente. Os hosts são atentos e disponíveis.”A review ao Freschissimo, um apartamento T1 no centro de Roma, podia ter sido escrita por qualquer utilizador satisfeito com a sua experiência de alojamento. Mas a frase tem dedo de especialistas, e resulta de uma avaliação que pode ser consultada no The Plum Guide, um guia que é para o alojamento local o que as estrelas Michelin são para a restauração – sinónimo de excelência. Como o Freschissimo existem o Forget Me not, bud, em Londres, ou o Chez Vous, em Paris. E, em breve, vão começar a surgir nomes portugueses. É que o The Plum Guide está em expansão e a 1 de julho aterra em Lisboa para encontrar o crème de la crème do alojamento local na capital portuguesa.

“Pessoalmente eu amo Portugal e tenho um fraquinho por Lisboa. Descobri a cidade há uns anos e é mágica: pessoas bonitas, cultura e arte incríveis, um interesse crescente pela gastronomia, bom tempo e tanta alma”, diz Doron Meyassed, ao Dinheiro Vivo.

Foi ele quem criou a marca que começou por levar o teste do algodão a alojamentos locais de Paris, Milão, Roma, Nova Iorque e Los Angeles. Depois de ter ajudado a fazer nascer a Promise Communities, uma agência especializada na construção de comunidades online para grandes multinacionais, este empreendedor percebeu que há muitas plataformas de divulgação, reserva e catalogação de alojamentos de curta duração, mas nenhum sistema de classificação que permita filtrar e dar a conhecer os melhores.

“A inspiração nasceu em 2014 quando reservei um Airbnb para uma viagem de última hora a Telavive. Não era a minha primeira escolha – os meus primeiros pedidos foram recusados -, por isso ia com expectativas baixas.” Tudo mudou quando conheceu o espaço. “Era qualquer coisa de outro mundo: vista de mar, janelas que iam do chão ao teto, uma enorme varanda com sofás gigantes… o host tinha pensado em tudo.”

Pouco habituado a encontrar têxteis de luxo, um frigorífico completamente abastecido ou uma PlayStation ou Netflix prontas a usar, Doron não teve dúvidas em arrancar com um negócio de avaliação das melhores casas disponíveis no mercado.

“Juntamente com quatro pessoas avançamos para um modelo completamente diferente. Entrevistámos cem pessoas sobre as suas melhores férias de sempre e trabalhámos com especialistas em hospitality, design de interiores, arquitetos, psicólogos, donos de restaurante e criámos as bases para o que viria a ser o Plum Test” que é feito por especialistas com base em inquéritos, vistorias e reservas surpresa – um pouco como fazem os inspetores do Guia Michelin mas em espaços onde os preços estão longe de acompanhar os da famosa estrela. “Para nós, excecional não tem de significar superformal, nem superluxo.”

O guia de Doron vai mergulhar neste verão em onze novas cidades, a que se junta Lisboa. “O objetivo último do Plum é reunir as mil melhores casas nas 50 cidades mais importantes do mundo e Lisboa está incluída”, adianta, lembrando que o novo salto que estão a dar tem muito que ver com o mercado do Urban Creative, cidades onde a cultura e a arte estão a sair dos museus e a inundar as casas. “As pessoas entre os 35 e os 55 anos normalmente vivem em grandes cidades como Londres, Nova Iorque ou Los Angeles, e tendem a trabalhar em indústrias criativas. Lisboa é um destino importante para este universo e apresenta um crescimento rápido.”

Não é só: há qualquer coisa na “estética e no design das casas lisboetas, e na belíssima mistura entre o antigo e o novo” que se aproxima muito do que aqui se procura, diz, lembrando que a decisão também se baseou na procura e na oferta de alojamentos deste tipo. Só em 2018, Portugal recebeu 21 milhões de turistas – o Algarve registou 19 milhões e Lisboa ficou logo atrás com 15 milhões. A capital portuguesa ocupa o segundo lugar do top 10 das cidades europeias com maior crescimento no turismo de lazer e, entre 2009 e 2017, apresentou um crescimento médio do número de turistas de 10,6%, apenas atrás de Bucareste, segundo o Global Destination Cities Index.

Além disso, Lisboa é a capital com o maior rácio de casas convertidas em alojamentos registados no Airbnb, mostra a Moody’s, que calcula 33 imóveis de alojamento local por cada mil habitantes na capital portuguesa. O RNAL, plataforma oficial de registo de alojamento local, já conta 86 703 registos em Portugal; só o distrito de Lisboa tem 23 654 casas disponíveis.

Quantidade, no entanto, está longe de significar qualidade e os números do Plum provam-no. “A nossa abordagem é obsessiva e sistemática, o que significa que podemos ter de ‘chumbar’ todos os alojamentos locais do mundo para encontrar o 1% que vale realmente a pena.”

Em três anos e meio, o teste do The Plum Guide chumbou 300 mil casas, tendo passado apenas 5000. “Alguns ficam pelo caminho nas primeiras fases, ou porque não estão localizados numa zona com vida, ou porque não têm limpeza diária. Outros falham nas fases finais, quando alguém vai testar fisicamente o espaço”, afirma o responsável.

Exemplos do que os inspetores esperam encontrar? “Temos uma equipa noite e dia a otimizar a forma como testamos uma casa”, assume o responsável, lembrando que a lista “é guardada e mantida em segredo”, mas levantando um pouco do pano. “Fatores que consideramos: a limpeza é feita de acordo com um padrão de procedimento?; há chaves para todos os clientes?; os quartos têm níveis de ruído inferiores a 40 decibéis?; há espaços para convívio?; o design permite convocar uma emoção?”

No Freschissimo, os frescos na parede, restaurados e incluídos numa decoração moderna, são um ponto alto que o The Plum Guide enaltece. “Tudo gira em torno dos frescos na parede que foram preservados e distinguem esta casa das demais.” Mas há outros destaques: o estilo art nouveau que predomina na decoração da casa de banho ou a atenção ao detalhe no tratamento dos clientes – “até lhe organizam um picnic vintage se quiser” – também tem lugar de destaque.

“O Guia Michelin foi um guia inquestionável para a procura dos melhores restaurantes. Deu aos clientes a garantia de que podiam percorrer 300 quilómetros por uma refeição, com a garantia de que esta seria excecional. Somos parecidos. Nós queremos garantir que o The Plum Guide terá as melhores casas da cidade. Garantimos que todas as experiências serão excecionais. Só temos uma visão diferente do excecional”, diz Doron Meyassed, lembrando que “a maioria das nossas casas estão num segmento de luxo atingível, por exemplo 200 euros por um apartamento de dois quartos, e que muitos têm um lado informal”.

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