Web Summit 2019

O trabalho do futuro tem robôs e empregados felizes

(Filipe Amorim / Global Imagens)
(Filipe Amorim / Global Imagens)

Tecnologia já está a ajudar empresas e candidatos a adequarem-se melhor ao mundo laboral.

O trabalho do sueco Marcus Nordquist é medir a felicidade dos outros. É administrador da Happy at Work, uma startup que quer criar “o survey mais simples do mundo”. O objetivo: permitir que as empresas possam avaliar o nível de felicidade e carga de trabalho dos seus funcionários. Em dois anos de operação já conquistou “um cliente no Canadá, alguns na Hungria e na Alemanha e um cliente no Azerbaijão”. Um dia de exposição na Web Summit, também trouxe as suas conquistas: “Hoje, já conseguimos fechar negócios aqui em Portugal”, conta ao Dinheiro Vivo. Marcus está longe de ser o único a trazer a tecnologia para o mundo dos recursos humanos. Numa cimeira onde os empreendedores tentam chamar a atenção de investidores e utilizadores, há outros negócios para apontar às grandes empresas o caminho do futuro.

Sem relógio
Nascida no Canadá, com programadores na Índia e uma representação em Portugal feita por Alina Di-Bella, a Talncy é uma startup que apoia a contratação e, em si mesma um exemplo de um mercado disperso nas geografias e cada vez menos a “picar o ponto”.

É precisamente a capacidade de escolher “onde, quando e como”, diz Oisin Hanrahan, fundador e CEO da ANGI Homeservices, que está o futuro. “Eu acho que é preciso combinar a tecnologia com o local de trabalho de uma forma distributiva. Para mim, o futuro é isto – as pessoas querem flexibilidade por isso devemos encontrar uma forma de lhes oferecer flexibilidade. E, a certo ponto, garantir que mantêm os seus benefícios, como salários decentes para que isto não seja uma corrida para o fundo do poço”, disse o responsável durante a Web Summit.

Mas trabalhar “quando se quer” não tem de significar trabalhar menos, destaca. “Eu não acho que menos trabalho signifique maior felicidade e não sei o que vocês acham, mas eu entendo que o trabalho é o grande objetivo de vida de muita gente. Quando te sentes produtivo sentes-te preenchido. Não acho que trabalhar 15 horas por semana possa ser a chave para ser feliz”, acrescenta. “Os trabalhadores não querem mais ter um emprego tradicional das nove às cinco”, acrescenta Daniel Yanisse, fundador e CEO da startup Checkr. “Eu acho que esta será a grande tendência e parece-me que vamos assistir a uma enorme mudança de mentalidade. Metade da força de trabalho vai ser flexível, vão ser trabalhadores freelancer, toda a gente quer ser o seu próprio patrão e ter o seu negócio.”

O candidato certo
Voltemos à Talcny e a Alina Di-Bella, mexicana a viver em Portugal, e que foi à Web Summit para mostrar uma espécie de passo em frente em relação ao que o LinkedIn já faz. “No Canadá as empresas tendem a contratar apenas candidatos locais o que, de certa forma, dá uma ideia de discriminação. O que esta empresa faz é ajudar a que os candidatos sejam integrados pelas suas competências”, conta ao Dinheiro Vivo, e passa a explicar: “Há plataformas em que podemos pedir aos amigos que nos recomendem como tendo uma determinada skill e um recrutador que procure determinada característica, ao ver 20 pessoas a recomendarem, por exemplo, competências de línguas, acredita, mesmo que possa não ser verdade. O que a Talncy faz é, através da tecnologia de blockchain, perceber se a pessoa realmente tem aquela competência. Há uma verificação de determinadas recomendações e das próprias pessoas que fazem as recomendações. É uma tecnologia internacional que identifica quem diz a verdade, ou não, com base na experiência de outros trabalhos ou dos estudos.”

Também a JobToday, cofundada por Polina Montano, é um exemplo da tecnologia ao serviço da contratação. Esta startup é uma espécie de bolsa de freelancers que põe em contacto instantâneo candidatos e empregadores. “Uma pessoa que conheça o mercado da Saúde ou do Retalho sabe que a rapidez é um critério extremamente importante nas contratações. Na JobToday, aproveitamos a tecnologia para colocar pessoas em 24 horas nas empresas.”

Daniel Yanisse também faz parte da mudança. Em 2014 criou a Checkr, uma empresa que utiliza inteligência artificial para ajudar as empresas a contratarem de forma mais inclusiva e eficiente. A startup, cujo nome vem de check – confirmar -, utiliza algoritmos para analisar questões como passado criminal, cadastro dos condutores, passados de drogas ou até os mapas de crédito. Os processos são adaptados de acordo com as indústrias que os pedem e, admitiu o responsável, a sua empresa conta com a Uber ou Lyft como clientes.

O robô ajudante
Não é possível falar de algoritmos sem falar de robôs. E, destaca Kaighan Gabriel, não importa as formas que Hollywood criou, “o importante é o que eles fazem e não como eles se parecem”. Para o CEO da Draper, empresa tecnológica que atua em várias indústrias, o relevante é perceber que “os robôs não só vão para o mercado de trabalho como estão entre nós a darem-nos capacidades que não temos”.

Gabriel explica que “não se trata dos robôs das fábricas, que estão entre nós há décadas, mas robôs que estão no mundo real. Um bom exemplo destes robôs são os veículos autónomos ou os drones”, destacou, durante a cimeira tecnológica.

“Todos conhecemos a forma como a tecnologia mudou a indústria, mas acho que a verdadeira integração da tecnologia ainda está no início daquilo que poderá ser. Já pensaram nos canalizadores ou eletricistas e na forma como os seus trabalhos poderiam ser tão diferentes se tivessem óculos de realidade aumentada que lhes pudessem dizer exatamente onde estão os fios elétricos ou as fugas?”, sugere, por sua vez, Oisin Hanrahan. “Acho que os robôs não estão a chegar tão depressa como achamos, por isso, não estou preocupado. Sou engenheiro, estudei inteligência artificial e acho que talvez 10% a 15% do trabalho entediante possa vir a ser automatizado”, refere.

Mas há fatores que os robôs nunca serão capazes de recriar, alerta João Borges. É o fundador da DreamShaper, uma startup que atua precisamente para ajudar a identificar competências sociais. “O que nos parece é que os computadores, as máquinas e os robôs de dia para dia têm mais capacidade para replicarem todas as nossas competências técnicas, mas creio que nunca terão capacidade de replicar as nossas competências comportamentais e socioemocionais. Parece-me que hoje já se sente isso, não é uma coisa do futuro, hoje já tem mais chance de sucesso e capacidade de viver no mercado de trabalho do século XXI quem tem mais competências comportamentais, sociais e emocionais mais desenvolvidas”, assume o responsável ao Dinheiro Vivo, lembrando que “técnicos ótimos não faltam; faltam técnicos ótimos com capacidades comportamentais ótimas”.

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