O vinho é o melhor aliado no combate aos incêndios

Procura por vinho biológico aumentou e deve ser aproveitada como oportunidade para reflorestação, defendem produtores e associações.

Sara e António sabiam que andava incêndio para os lados da Lousã, a mais de 60 quilómetros, a 15 de outubro do ano passado. Mal tiveram tempo de perceber quando chegou a Tondela e lhes consumiu 13 dos 25 hectares de vinha. Entre plantas, uvas, stock de vinhos, construções e máquinas, avaliam os prejuízos em quase um milhão de euros, dos quais só 200 mil euros poderão ser compensados pelo Estado. “Os subsídios não cobrem a totalidade, angariámos 36 mil euros através de crowdfunding e temos clientes no estrangeiro a pagar encomendas que só vão receber daqui a quatro anos. Mas nunca vamos recuperar as vinhas com 50 e 100 anos que arderam”, lamenta António Lopes Ribeiro, 47 anos, produtor e engarrafador da Casa de Mouraz.

Quando, em 2001, depois de ter estudado e começado família em Lisboa, António Lopes Ribeiro regressou à terra onde nasceu e cresceu, sabia que queria produzir vinho de forma diferente do pai. “A motivação do vinho biológico era ética desde o princípio”, revela a sócia e companheira, Sara Dionísio. Produzidos a partir de vinhas sem fertilizantes químicos, sem pesticidas, com recurso à biodiversidade de outras plantas para arejar o solo e combater pragas, os vinhos biológicos certificados custam cerca de 20% mais a produzir, mas têm também cada vez mais procura e a oferta internacional é escassa.

“O biológico ainda é um nicho, mas é um nicho muito grande”, completa o produtor, que exporta 95% das cerca de 120 mil garrafas que produz anualmente para Alemanha, Suíça, EUA, Canadá, Japão, Brasil, Austrália e Tailândia e mais uma dezena de países europeus, atingindo um volume de negócios anual de 700 mil euros que sustentam nove postos de trabalho.

De acordo com dados de mercado compilados pela consultora holandesa CBI, o mercado dos produtos orgânicos valia 21,5 mil milhões de euros em 2011 e o consumo de vinho biológico ascendia a 2,7 milhões de hectolitros, estando os maiores produtores em Espanha, França e Itália e os maiores compradores na Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Alemanha, Reino Unido, Suíça, Áustria e países do Benelux.

A procura de produtos biológicos na Europa, incluindo em Portugal, aumentou nas últimas décadas mais depressa do que a produção. A Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural contabilizava, em abril do ano passado, 490 operadores económicos ligados ao vinho biológico e mais de 2700 hectares de vinha, ambos concentrados especialmente em Trás-os-Montes e na Beira Interior. “A produção nacional de vinho biológico mais do que duplicou entre as campanhas de 2014-2015 (8302 hectolitros) e 2015--2016 (20 099 hectolitros)”, nota aquela entidade, concluindo que “é expectável que a produção de vinho biológico em Portugal continue a evoluir favoravelmente, indo ao encontro das novas solicitações dos consumidores e valorizando o potencial exportador deste segmento de mercado”.

Para António Lopes Ribeiro conseguir chegar aos 25 hectares de vinha, na última década andou a adquirir pedaços de terras e, nalguns casos, a livrar-se de eucaliptos para dar espaço às uvas. É um exemplo de que, como refere João Branco, presidente da Quercus, “os viticultores podem e devem ter um importante e ativo papel na conservação da natureza e biodiversidade e na sustentabilidade do planeta”, até porque “as explorações agrícolas que produzem vinho acabam por ter também outras culturas agrícolas, florestas, matos e pastagens”. Além disso, o material do qual são feitas as rolhas de vinho vem do sobreiro, que, como se sabe, é “fundamental por motivos ecológicos, económicos, sociais e culturais”, servindo ainda de “tampão” no caso dos incêndios florestais.

A Quercus juntou-se, por isso, à organização deste ano da iniciativa Simplesmente... Vinho, cujo objetivo é promover os pequenos e médios vitivinicultores e que vai decorrer na casa do Cais Novo, a 23 e 24 de fevereiro, em paralelo com o grande evento de promoção Essência do Vinho, no Porto.

A solidariedade dos produtores ditou o convite à Casa de Mouraz como convidada de honra na mostra onde pequenos e grandes vitivinicultores-engarradadores (vignerons) se apresentam em pé de igualdade, tal como o organizador João Roseira determinou, há seis anos. Ali, os Niepoort têm o mesmo destaque de António Lopes Ribeiro e todos têm um objetivo comum. “O vinho sofre com todos os problemas do mundo rural, desde os incêndios à desertificação do interior, por isso achámos que fazia sentido convidar a Quercus e a Casa de Mouraz e dedicar a edição deste ano às florestas”, explicou.

Além de o vinho ser o mote ideal para reflorestar o país, João Roseira destaca o seu valor económico, que “tem muito potencial no nicho dos vinhos artesanais, mais procurados pelo movimento antiglobalização que prolifera no mundo, até porque temos uma diversidade enorme de castas e de métodos de produção”.

Em 2017, de acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho, as exportações totais de vinho ascenderam a 778 milhões de euros.

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