O xeque que investiu no El Corte Inglés e poderá ter cargo na ONU

Hamad bin Jassim, Xeque do Qatar
Hamad bin Jassim, Xeque do Qatar

O El Corte Inglés abriu o capital a um investidor de fora de Espanha, pela primeira vez desde a sua fundação, em 1935. O xeque do Qatar, Hamad bin Jassim bin Jaber Al Thani, decidiu investir mil milhões de euros por uma posição de 10% na retalhista. Mas quem é este novo acionista da cadeia espanhola? É, por exemplo, um possível candidato a disputar com António Guterres um cargo na ONU, apontam alguns analistas, dadas as suas qualidades diplomáticas

Hamad bin Jassim, ou HBJ, como também é conhecido, nasceu em Doha (capital do Qatar) em 1959 e notabilizou-se a partir do início da década de 90 como ministro dos Negócios Estrangeiros, cargo que acumulou com o de vice-primeiro-ministro em 2003. Quatro anos depois, assumiu a chefia do governo do Qatar, sendo em simultaneo responsável pelas relações exteriores do pequeno país, com pouco mais de dois milhões de habitantes, quatro vezes a população do concelho de Lisboa. Hamad bin Jassim também ganhou fama por ter sido líder do QIA, o fundo soberano de investimentos do Qatar.

Este fundo é acionista do banco britânico Barclays, onde chegou a ser o maior acionista. Está presente na petrolífera holandesa Shell, tem participações em empresas como a Porsche e a Volkswagen e é dono do Paris Saint-Germain, o atual campeão do futebol francês. Aquisições feitas durante a liderança de Hamad bin Jassim, que colocaram o fundo soberano a gerir entre 100 a 200 mil milhões de dólares de ativos (entre os 90 e os 185 mil milhões de euros, pouco mais do que o PIB nominal português em 2014).

“O homem que comprou Londres”, como escreveu o The Independent , referindo as operações financeiras que levou a cabo na capital do Reino Unido, comprou o Harrods a Mohamed Al-Fayed por 2,15 mil milhões de euros em maio de 2010 e o Shard, o edifício mais alto da União Europeia.

Hamad bin Jassim também tem reforçado a própria carteira de ativos nos últimos anos. O quadro de Picasso Les Femmes d”Alger (versão “O”) é uma das compras mais recentes. Custou 180 milhões de dólares (165,5 milhões de euros), batendo o recorde para o leilão de uma pintura a nível mundial.

O xeque do Qatar tem também um valioso património imobiliário que conta, entre outros, com três apartamento em Hyde Park, Londres, e aplicou recentemente 47 milhões de dólares (43 milhões de euros) numa mansão de cinco andares em plena zona de Manhattan, em Nova Iorque. Um luxuoso iate, com 133 metros, e vários carros de luxo fazem ainda parte da sua fortuna pessoal.

Diplomata e bom negociador

Responsável durante quase 20 anos pelas relações externas do Qatar, tornou o país um estado aberto ao diálogo com países como os Estados Unidos ou a Eritreia, mantendo, ao mesmo tempo, relações com os talibãs que têm suscitado polémica. Sob a sua liderança, o país assegurou a ponte na resolução de rivalidades entre partidos no Líbano, o conflito entre forças do governo e rebeldes na região do Darfur, além da mediação de disputas nas fronteiras entre a Eritreia e Djibuti.

Hamad bin Jassim é mesmo descrito como alguém com “um olho de falcão para o negócio e enorme capacidade para estabelecer acordos. Basicamente, se quiser que aconteça, ele faz por isso. Ele toma as decisões e é preciso chegar a ele. Não se pode falar com outros intermediários”, referia um especialista da região árabe ao The Telegraph em junho de 2013.

Marca quer ir além de Espanha (e Portugal) devido à crise

A entrada do novo investidor no El Corte Inglés permite a expansão da cadeia espanhola para fora da Península Ibérica. A marca quer atravessar os Pirenéus e entrar nas montras da Europa. Este é o plano da empresa liderada desde setembro de 2014 por Dimas Gimeno Álvarez, sobrinho de Isidoro Álvarez, que trabalhou durante 60 anos na marca.

A saturação do mercado espanhol é a principal razão para este alargamento. O setor do vestuário deixou de ser o seu principal negócio.

O grupo não se limita às lojas de departamento, sendo composto por diversas empresas, como Viajes El Corte Inglés (agência de turismo), Hipercor (hipermercados), Opencor (loja de conveniência), Supercor (supermercados), Informática El Corte Inglés, Sfera (rival da Zara), entre outras.

Entre 2003 e 2014, devido aos efeitos da crise económica no país, com menor poder de compra para os consumidores, as vendas foram reduzidas a metade e passaram a representar apenas 9% do mercado espanhol.

Itália deverá ser a próxima paragem da marca espanhola, por uma questão de logística e de adaptação à legislação comunitária. O El Corte Inglés mantém desde há vários anos um pré-contrato para lançar um projeto urbanístico em pleno centro de Milão, mas o arranque já foi adiado várias vezes por causa da crise financeira. O projeto na Polónia parece estar fora do horizonte.

A marca de armazéns espanhola, uma das líderes desta área na Europa, também poderá reforçar a presença na América Latina, principalmente no México e no Peru, onde é representada com a venda de roupa para jovens.

A redução da dívida da cadeia espanhola é outra das metas da entrada do xeque árabe no capital. Mais de três quartos da dívida do El Corte Inglés deverão ser reestruturados. Corresponde a cerca de 2,7 dos 3,5 mil milhões de euros do valor devido pela marca espanhola junto dos credores.

O El Corte Inglés é constituído por 88 grandes armazéns e 43 hipermercados. Lisboa e Vila Nova de Gaia são os locais onde estão instalados os armazéns em território português.

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