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Olbo & Mehler. Têxteis à prova de fogo

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Mais do que tecidos, o sector têxtil mostrou nos EUA novidades à prova de fogo, capazes de substituir o ferro e o alumínio

O nome não é muito conhecido, mas a Olbo & Mehler é uma das maiores empresas nacionais na área dos têxteis, especializada em têxteis técnicos.

A empresa de Vila Nova de Famalicão quer reforçar a sua presença no mercado americano e nos próximos três anos a unidade portuguesa do grupo alemão Kap pretende, no mínimo, duplicar as vendas para os Estados Unidos, que atualmente se situam nos seis milhões de euros.

Assegurar a proximidade aos clientes é fundamental e por isso Alberto Tavares, CEO da Olbo & Mehler, está apostado em abrir um escritório no país e não põe de parte o investimento numa fábrica. “A análise estratégica está feita e é simples. Não podemos ser um player global sem estar nos Estados Unidos, onde o negócio dos têxteis técnicos já vale quase tanto como na Europa”, explicou ao Dinheiro Vivo Alberto Tavares.

Em causa está um segmento de mercado que vale qualquer coisa como 23 mil milhões de euros, mas no qual a Olbo & Mehler só quer reforçar a sua posição em três áreas de negócios específicas: têxteis técnicos para a indústria automóvel, para as aplicações industriais e para a construção.

Por outro lado, a Europa, que assegura 70% da faturação da empresa, é a região onde se perspetivam menores crescimentos nos próximos anos. “É uma ameaça termos uma concentração tal de vendas num mercado sem perspetivas de crescimento”, reconhece o gestor.

AlbertoTavares olbo mehler

“A análise estratégica está feita e é simples. Não podemos ser um player global sem estar nos Estados Unidos, onde o negócio dos têxteis técnicos já vale quase tanto como na Europa”, explicou ao Dinheiro Vivo Alberto Tavares

Alberto Tavares falou ao Dinheiro Vivo no seu stand na Techtextil, em Atlanta, feira que reúne os maiores fabricantes mundiais de tecidos técnicos do mundo, bem como de equipamentos para a indústria, e onde a empresa esteve a apresentar-se ao mercado americano.

Tecidos para correias de transporte, para correias de distribuição, para corrimões de escadas rolantes ou para coletes à prova de bala foram alguns dos artigos que estiveram em exposição. Bem como a estrela da empresa, um têxtil fabricado através basalto tratado, um produto patenteado pela Olbo & Mehler, que se destina ao uso em situações que requerem elevada resistência ao calor e ao fogo e que valeu à unidade de Vila Nova de Famalicão o prémio Inova Têxtil 2015 na categoria de tecidos.

Airbags, cintos, correias diversas, membranas para os sistemas de travagem, correias de transmissão e juntas são apenas alguns dos artigos num automóvel que associam os têxteis da Olbo & Mehler para dar maior capacidade de resistência à borracha.

Uwe Mrotzeck, diretor comercial da empresa desde o início do ano, destaca o uso crescente de têxteis técnicos na indústria automóvel, entre outras, e que visa substituir matérias mais pesadas como o ferro e o alumínio, permitindo produzir carros mais leves e consequentemente com menor gasto energético e menores emissões de carbono. 

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“Não operamos no mercado de baixo preço e o consumidor sabe ver a diferença. Os produtores chineses estão focados em elevados volumes e tentam conseguir economias de escala de modo a reduzir preços.” REUTERS

O segmento automóvel nos EUA representa cerca de 23% das vendas dos têxteis técnicos, qualquer coisa como cinco mil milhões de dólares ao ano. Mas há ainda as aplicações industriais dos têxteis técnicos, como sejam as correias de transporte para as minas, as juntas e selantes usados em aviões, barragens ou na extração petrolífera, entre muitas outras aplicações. E, claro, o segmento da construção, no qual os produtos da têxtil portuguesa podem ser aplicados para isolar paredes, tetos, telhados ou chão, mas também para reforçar a própria estrutura das paredes. Tudo aquilo que “precise de maior durabilidade e resistência ao fogo”.

“Temos de aumentar a nossa presença no mercado. A América do Norte vale 15% das nossas vendas e queremos duplicá-las nos próximos três anos. O que jamais conseguiremos num mercado como o europeu, não só porque já temos quotas muito elevadas, mas porque se trata de mercados estagnados”, refere Uwe Mrotzeck.

O novo diretor comercial da Olbo, que tem toda a sua equipa comercial sediada na Alemanha, por uma questão de proximidade aos principais mercados da empresa – Alemanha, Eslovénia, Holanda, Hungria, Dinamarca e Finlândia -, reconhece que o ideal seria “replicar nos EUA” o posicionamento de mercado da empresa na Europa.

Fotografia: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

“Sabemos que os clientes americanos gostam dos nossos produtos e sabemos porque não os compram. Pela distância. Cada vez mais o tempo é um fator determinante no mundo dos negócios.” Fotografia: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

“Não operamos no mercado de baixo preço e o consumidor sabe ver a diferença. Os produtores chineses estão focados em elevados volumes e tentam conseguir economias de escala de modo a reduzir preços. Nós olhamos para a inovação e para o valor acrescentado. Usamos uma equipa de investigação e desenvolvimento com todo o conhecimento acumulado que 20 anos de experiência trazem para desenvolver novos produtos e acrescentar-lhes muito valor”, sublinha. Uwe Mrotzeck, adiantando: “Sabemos que os clientes americanos gostam dos nossos produtos e sabemos porque não os compram. Pela distância. Cada vez mais o tempo é um fator determinante no mundo dos negócios.”

Se não tem os contactos certos, se não conhece os interlocutores que tomam as decisões, é difícil vender nos EUA.”

Já Alberto Tavares lembra que os Estados Unidos são um mercado baseado em relações: “Se não tem os contactos certos, se não conhece os interlocutores que tomam as decisões, é difícil vender nos EUA.” Conhecer a realidade foi o primeiro passo, com a elaboração de um estudo de mercado sobre o segmento dos têxteis técnicos no país. Estabelecida a meta a atingir, o segundo passo é o desenvolvimento de um plano de ação. Que está a ser elaborado de modo a ser implementado a partir de setembro.

Qual será o investimento? Alberto Tavares ainda não sabe indicar. “Pode ser um milhão, podem ser dez ou 50 milhões. Não faço ideia, depende da solução final que for escolhida. Os acionistas estão abertos a tudo, desde que consigamos provar o mérito da solução”, explica.

Pode passar pela produção localmente? “Pode, se essa for a solução que se mostre mais adequada do ponto de vista da relação custo-benefício. Mas se tiver uma fábrica nos EUA para produzir localmente, então não quero duplicar as vendas, quero multiplicá-las por quatro ou cinco”, frisa. Certezas há apenas sobre a localização. A melhor forma de abranger os três segmentos de mercado – o automóvel, a indústria e a construção – é estar situado algures na Geórgia, na Carolina do Norte ou na Carolina do Sul.

Se tiver uma fábrica nos EUA para produzir localmente, então não quero duplicar as vendas, quero multiplicá-las por quatro ou cinco”, frisa

A aquisição de um concorrente nos Estados Unidos não está posta de parte, embora não seja o cenário mais adequado, reconhece Alberto Tavares, já que se trata de um mercado dominado por companhias verticais, que produzem os têxteis mas também o produto final. “Até setembro tomaremos a decisão, sendo certo que esta será suportada no cenário que nos trouxer melhor retorno”, explica, sublinhando que “não será necessariamente a solução mais barata”. No mínimo, reconhece Alberto Tavares, o reforço da presença no mercado será conseguido através da abertura de um escritório de representação da Olbo & Mehler no país.

Em Portugal, a empresa concluiu recentemente um investimento da ordem dos 16,5 milhões de euros, realizado nos últimos cinco anos, e que permitiu a concentração em Vila Nova de Famalicão do fabrico de têxteis técnicos do grupo alemão Kap. O que assegurou nova vida à fábrica portuguesa.

“Se tivéssemos continuado como estávamos, concentrados no segmento das correias de transporte, que não passam de comodities, não teríamos durado muito mais. Os chineses teriam tomado conta do mercado. A transferência da produção da República Checa para Portugal de toda esta nova gama de produtos que hoje disponibilizamos permite-nos estar num mercado onde o cliente aprecia o valor do produto”, frisa Alberto Tavares.

Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Foto: Rui Manuel Fonseca / Global Imagens

Pelo caminho a empresa passou de 180 para 300 trabalhadores e criou um departamento de investigação e desenvolvimento, liderado por Elisabete Silva e que conta com dois especialistas em física e química, encarregados de “olhar para as tendências do mercado no futuro e trabalhar já hoje para lhes dar resposta”. Os desafios diários ficam a cargo da equipa de aplicação técnica.

Como a casa-mãe ainda não divulgou as contas de 2015, e dado que se trata de um grupo cotado na Bolsa de Frankfurt, a Olbo & Mehler não entra em grandes pormenores quanto à sua própria performance. Alberto Tavares reconhece que as vendas se situaram, mais ou menos, ao mesmo nível de 2014, ou seja, nos 42 milhões de euros. O EBITDA cresceu 14 pontos percentuais. A produção é totalmente exportada, mas as correias de transporte ainda representam 60% da faturação.

“É demasiado alto e queremos invertê-lo. No máximo em três anos, queremos que este segmento de mercado baixe para 30 ou 40%”, diz o CEO. E a empresa parece estar no bom caminho. Na última Techtextil em Frankfurt, a empresa foi contactada por um fabricante de satélites. Em Atlanta foi contactada por um potencial cliente na indústria aeroespacial. “É sinal do reconhecimento da nossa capacidade de desenvolver produtos sofisticados e de alto valor”, sublinha.

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