GESTÃO & RH

“Os líderes do futuro precisam de ter os olhos de uma criança”

Ramon O'Callaghan, Dean da Porto Business School. Foto: João Manuel Ribeiro/Global Imagens.
Ramon O'Callaghan, Dean da Porto Business School. Foto: João Manuel Ribeiro/Global Imagens.

Ramon O’Callaghan, dean da Porto Business School, avisa que as empresas têm menos de uma década para mudar ou morrer.

Nos 30 anos de vida, a Porto Business School (PBS) sabe exatamente como tem mudado a formação de executivos e já é capaz de antecipar a revolução que o futuro prepara. “A instabilidade, que é o oposto do que os negócios desejariam, é o novo normal. Os líderes do futuro têm de saber conviver com isso”, alerta Ramon O’Callaghan, o dean da escola de negócios fundada em 1988 pela Universidade do Porto e mais 36 multinacionais.

“Hoje vivemos num mundo VUCA – Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity (volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade) -, que não é desconhecido em ambiente de negócios, mas assumiu uma intensidade graças à tecnologia e à globalização que tornam a instabilidade no novo normal”, recorda o professor catalão que, há pouco mais de dois anos, assumiu a liderança da PBS. “Esta é a primeira necessidade do líder do futuro: perceber que o mundo é assim. O ambiente de negócios já não se resume apenas a concorrência e fornecedores, já não é só dirigido aos stockholders, mas também aos stakeholders, que exigem transparência e amplificam qualquer passo errado que possam dar. E isso, num mundo veloz e vulnerável a fenómenos como as fake news, pode influenciar muito os negócios.”

Nesse mundo imprevisível e volátil, a segunda qualidade de um líder do futuro será “estar sempre preparado para o inesperado, sendo ágil e flexível, o que significa abertura a novas ideias”. Esse líder deverá “combinar a experiência com alguma ingenuidade, olhar o mundo com os olhos de uma criança que ainda acredita que tudo é possível”. A humildade é a grande qualidade que permite aglomerar todas as outras, porque esse líder “terá de ser empreendedor e isso não significa exatamente que tenha uma startup, mas um estado de espírito em que está disposto a ser ágil e a desprender-se de burocracias e hierarquias que prendem algumas das grandes empresas tradicionais e as impedem de inovar”.

A inovação “faz sempre parte do futuro” e os líderes das próximas décadas têm de andar “atentos a ela, o que significa, na realidade, estarem atentos ao mundo em várias vertentes e em várias frentes, relacionando-se com várias realidades para cobrir o maior espectro possível”. Ramon O’Callaghan recorda que a inovação surge, habitualmente, da necessidade; porém, algumas das inovações mais bem-sucedidas surgem de necessidades latentes, que líderes como Steve Jobs conseguem revelar, enquanto outras são necessárias mas acabam por falhar. “Falhar é normal”, reconhece o professor. “Mas o líder do futuro terá de ser cauteloso antes de tomar decisões neste campo. Isso é senso comum, mas continua a ser uma necessidade de futuro e está ligada à capacidade de o líder ler os sinais, de estar atento ao que o rodeia, sair à rua e não apenas estar fechado no gabinete.” Se possível, “deverá ser ambidextro na gestão, mantendo o tradicional e a inovação, gerindo a tensão entre o presente e o futuro e entre a eficiência e a criatividade”.

Além disso, “tem de ser capaz de comunicar o espírito de empreendedorismo dentro da empresa, tornando-o contagioso, inspirando as pessoas a focar-se no negócio e não na hierarquia”. E compensa sempre preparar-se antes de fazer negócios no estrangeiro, “tendo lições de etiqueta se for preciso”, levando em atenção as diferenças culturais, cultivando a abertura a novas ideias já mencionada.

Reconhecendo que a mentalidade ainda vigente em países tradicionais como Portugal é algo diferente do que será necessário para o futuro, o dean da PBS refere que “depois da crise financeira, muitos abriram a mente para a mudança de paradigma; aos outros dizemos que poderão continuar por cinco, no máximo dez anos, antes de isso poder acabar-lhes com o negócio”. Na PBS “transmite-se o conhecimento e o futuro exige valores que não seriam transmitidos na escola, mas acabamos por fazê-lo também. A ética e a responsabilidade social são obrigatórias para o futuro”, remata O’Callaghan.

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