Pandemia adia entrada da Jerónimo Martins na Roménia

Retalhista estima retoma da economia em Portugal para o segundo semestre de 2022. Deverá investir este ano 100 milhões em Portugal, do total de cerca de 700 milhões previstos.

A pandemia adiou a expansão do grupo Jerónimo Martins para a Roménia. A "incerteza" e o "bom senso" pesaram na decisão do grupo, não havendo ainda uma data para uma eventual entrada. O retalhista estima que a retoma em Portugal só aconteça no segundo semestre de 2022. Na Polónia, onde opera com a Biedronka, acredita que aconteça mais cedo: segundo semestre.


A entrada na Roménia foi adiada. "Foi um processo adiado em 2020 essencialmente porque a incerteza obrigou-nos a tal e o bom senso era o nosso melhor aliado. Havia que proteger o que tínhamos, não havia que começar novas aventuras", justificou Pedro Soares dos Santos, CEO do grupo Jerónimo Martins, num encontro digital com jornalistas, depois da apresentação das contas de 2020.

"Iremos reconsiderar logo que consideramos que existe estabilidade e previsibilidade para podermos continuar a crescer, porque crescer é o nosso negócio e isso não vamos abdicar", disse ainda o gestor.

"Estávamos preparados para começar no ano de 2020. Ficou adiado. Temos de saber exatamente agora se o país reúne as condições para podermos continuar. Continua a ser a nossa grande prioridade. Mas temos de avaliar, depois desta pandemia, qual o impacto que teve na economia para sabermos se deverá continuar ou não a ser a nossa prioridade. É cedo demais para podermos fazer essa avaliação", reforça.

Embora sem data, a entrada no quarto mercado - grupo já opera, além de Portugal, na Polónia (Biedronka e Hebe) e Colômbia (Ara) - deverá ser por via de aquisição. "À partida a entrada na Roménia será por aquisição e não será um green field como na Colômbia, porque consideramos que há operadores que já estão instalados no mercado", adianta AnaLuísa Virgínia, administradora financeira do grupo.

"A Profi - cadeia de supermercados e lojas de conveniência com mais de mil localizações e detida pela Mid Europa Partners - e não só, têm sido estudados por nós, como potenciais, mas neste momento não podemos avançar com mais nenhum detalhe", disse ainda.

Hebe: foco é o online

Suspensa pela pandemia foi igualmente a internacionalização da cadeia polaca Hebe. "Face a esta situação reestruturou o negócio. Não vai entrar fisicamente na Eslováquia nem na República Checa em 2021, vai fazer todos os investimentos e toda a sua dinâmica de expansão no online", adianta Pedro Soares dos Santos.

Na Polónia, que representa o maior volume de receitas do retalhista, o grupo espera uma retoma da economia mais rápida, estimada para "algures no primeiro semestre". Já em Portugal, Pedro Soares dos Santos não se mostra tão otimista. "Pensamos que alguma da retoma ou um princípio de normalização seria para o segundo semestre de 2022".

"Houve uma grande diferença como ambos os países abordaram" a gestão da pandemia, admite o gestor. E na comparação Portugal sai menos bem na análise do CEO.


"Quanto maior for o desconhecido maior é a importância de um plano rigoroso e da disciplina de organização e nisso os polacos foram muito melhor do que os portugueses. E isso objetivamente em Portugal falhou e na Polónia não teve um impacto tão grande como em Portugal", diz.

700 milhões de investimento em 2021

O ano passado a pandemia levou o grupo a rever em baixas as estimativas de investimento. Dos 750 milhões inicialmente anunciadas foram investidos 470 milhões de euros, dos quais 91 milhões na cadeia Pingo Doce e 10 milhões no Recheio. Este ano o retalhista anunciou planos de cerca de 700 milhões, com 60% a ser absorvido pela Biedronka.

"No investimento, o ano passado, fizemos um corte nos investimentos, fizemos uma revisão em baixa, mesmo assim investimos aproximadamente 450 milhões de euros, mas foi porque foi um ano muito atípico, muito difícil, em que tivemos, pelo menos durante 5 meses a gerir uma imprevisibilidade enorme. Não há nada como proteger o balanço para tempos difíceis, porque quem tem balanços fortes consegue gerir tempestades perfeitas, quem não tem não sobrevive", diz Pedro Soares dos Santos.


"A regra número um foi proteger os negócios que tínhamos, as pessoas que trabalham connosco, cumprir com as nossas obrigações para com o país e as pessoas que trabalham connosco e essa foi a nossa grande prioridade. Tivemos de tomar muitas medidas de contenção e essa foi uma delas", disse.

Em 2021 poderão voltar a rever em baixa? "Este ano já não navegamos na mesma imprevisibilidade ou no mesmo nevoeiro que navegamos nos primeiros cinco meses, mas continuamos numa situação muito instável e pouco clara da evolução da pandemia. Pusemos no orçamento cerca de 700 milhões de euros, mas vamos ser muito criteriosos em como o vamos gastar e ao longo do tempo, dependendo da fortaleza do nosso balanço e da evolução do nosso negócio, podemos gastar ou não gastar mais", disse.

Para Portugal, o grupo estima investir mais de 100 milhões de euros este ano. Parte na abertura e remodelações de lojas do Pingo Doce: querem abrir cerca de 10 lojas.

"O Pingo Doce vai continuar a abrir lojas. São lojas que já estavam planeadas há muitos anos, o facto de muitas vezes as licenças serem tardias. Continua a sua expansão. A fortaleza do Pingo Doce será continuar a remodelar as suas lojas", diz.

A cadeia o ano passado fechou com uma quebra de 1,9% nas vendas, para 3,9 mil milhões de euros. Este ano a estimativa não é de crescimento de vendas.

"Não estou a prever grandes aumentos de vendas em Portugal, até porque sinto que o consumidor português está cada vez mais em dificuldade e os números que temos demonstram isso", diz.

"Prevejo uma estagnação do consumo e uma alteração nos produtos que estão a consumir. Isso sente-se na necessidade de comprar mais produtos em promoção e produtos em primeira necessidade. Essa alteração já se sente há 4/5 meses e penso que vai ser intensificada nos próximos meses", refere.

A pandemia - e o fecho do Horeca - afetou de forma mais expressiva o negócio grossista do grupo, que tinha neste canal mais de 35% das suas vendas. "De repente viu desaparecer 50% dos seus clientes. O seu negócio era muito focado no canal Horeca. É um canal que está fechado, não tem dinâmica absolutamente nenhuma. A companhia perdeu este canal, mas é robusta, virou-se para o pequeno retalho", comenta.

Mas a quebra de receitas foi visível: um recuo de 15,9% das vendas do cash & carry do grupo, para 847 milhões de euros.

Que dimensão o Horeca vai ter nos resultados, só ficará quando quando reabrir. "Até lá vai viver muito do pequeno retalho. Não vai ter a mesma dinâmica, mas é muito importante para o portefólio do grupo JM e, como penso que um vamos voltar a ser um país de turismo forte, vai voltar a ter um papel crucial".

Pedro Soares dos Santos afasta um cenário de reestruturação. "Muito cedo para pensarmos nisso".

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