Pandemia atirou jovens e menos qualificados para o desemprego

Alojamento e restauração, associados ao turismo, foram os setores mais penalizados pela covid-19, revela primeiro estudo da Fundação José Neves apresentado esta quarta-feira.

Enquanto a covid-19 contaminou a saúde de milhares de portugueses, o coronavírus destruiu cerca de 99 mil postos de trabalho ao longo do ano passado. Menos afetados pela pandemia sanitária, os jovens acabaram por ser os mais afetados pelo vírus do desemprego, com menos 60 mil colocados no mercado laboral. A Fundação José Neves (FJN) apresenta hoje o primeiro relatório do estado da nação e pretende qualificar o país para os próximos 20 anos.

No segundo trimestre de 2020, a taxa de emprego na faixa dos 25-34 anos recuou cerca de 5,7 pontos percentuais, para pouco mais de 75%. Nos adultos dos 35 aos 55 anos, a mesma taxa ficou estabilizada no patamar dos 80%, ficando praticamente imune à crise económica causada pela pandemia.

A situação foi ainda mais grave junto dos trabalhadores jovens menos qualificados. Recuou para 70% a taxa de emprego para quem apenas concluiu o 9.º ano, representando uma travagem de 8,5 pontos percentuais. Para quem tem o 12.º ano, a taxa de emprego situou-se nos 82% (menos 5,3 pp..); nos licenciados, a taxa de emprego foi de 84%. "No período covid, mais educação protegeu o emprego", nota ao Dinheiro Vivo o presidente executivo da FJN, Carlos Oliveira.

A pandemia também penalizou a força de trabalho dos segmentos da hotelaria e da restauração. As duas profissões passaram a ser o fator de maior risco de perder o emprego. Ter entre 25 e 34 anos é o segundo principal critério para ficar sem colocação. Promoção imobiliária, comércio a retalho e atividades de apoio ao funcionamento e manutenção de edifícios foram as outras áreas mais penalizadas.

Até ao início do ano passado, quem estava no setor da agricultura, produção animal, caça, florestas, pescas e indústrias extrativas corria o maior risco de sair do mercado de trabalho. Atualmente, é nestas profissões que existem maiores possibilidades de se voltar a trabalhar. Os funcionários da construção que estiverem sem emprego também têm maior probabilidade de conseguir uma colocação.

O emprego cresceu sobretudo nas profissões com base no conhecimento - e que exigem mais qualificações. Houve mais 80 mil trabalhadores (+5%) para atividades de consultoria, programação informática e de telecomunicações, profissionais de educação e de saúde. Setores como a energia e gestão de resíduos registaram taxas de crescimento de emprego acima dos 15% no segundo e quatro trimestres.

Trabalho remoto com canudo

Em março do ano passado, o primeiro confinamento obrigou as empresas a adotarem o trabalho remoto para se manterem em funcionamento. Esta modalidade, contudo, apenas está disponível para uma minoria da população, sobretudo a mais qualificada.

Com a pandemia, a probabilidade de trabalhar a partir de casa aumentou de 34% para 50,6% para quem tem uma licenciatura. Se ficou pelo 12.º ano, a probabilidade está pouco acima dos 20%; nos funcionários com o ensino básico, a taxa é de 10%.

Por profissões, as atividades de informação e comunicação são as que têm maior chance de ficarem em trabalho a partir de casa, com 63%, seguindo-se as atividades financeiras, de seguros e imobiliárias (40%). Os trabalhadores da área da saúde e os profissionais de restauração e alojamento são os que menos podem executar funções remotamente.

Foco nas competências

A transformação da economia leva o mercado a procurar novas competências técnicas, como programação e design de tecnologia; interpretação científica e matemática; e análise e avaliação de sistemas. A nível social, valoriza-se cada vez mais a gestão de tempo e equipas; orientação para o serviço e para o mercado; e necessidade de inteligência emocional.

Existe, no entanto, cada vez menos ligação entre as necessidades e o que é ensinado nas faculdades: em 2019, 21,5% dos diplomados com ensino superior entre 25 e 34 anos estavam em profissões de baixa complexidade e que não exigiam esse nível de formação. Além disso, apenas 10,5% dos adultos frequentou formação ao longo da vida.

"Precisamos de um maior alinhamento entre o mercado de trabalho e a formação para as competências", alerta o líder da FJN. "Os jovens adultos têm um nível de formação muito superior e chegam a um mercado de trabalho em que boa parte dos funcionários apenas cumpriu o ensino secundário", acrescenta.

Até 2040, a fundação quer que Portugal entre para a lista dos dez países com mais emprego em tecnologia e que 45% dos adultos completem o ensino superior - em 2020, eram 26,3%. A FJN ambiciona ainda que 90% dos jovens recém-formados estejam colocados no mercado de trabalho, mais 13 pontos percentuais que em 2020.

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