Paolo Fagnoni. "Nestlé vai investir 6,5 a 7 milhões nas fábricas para transformar produtos mais sustentáveis"

Com 1300 pessoas em teletrabalho, a dona do Nestum e da Buondi cresceu 30 milhões em receitas. Café, cereais e petcare deram energia para o crescimento em ano de pandemia.

Em ano de pandemia, a Nestlé cresceu e em 2021, apesar da incerteza, conta aumentar as suas receitas em 5%. A multinacional acredita que o regresso do canal Horeca poderá dar um contributo, depois do trambolhão de 85% em 2020. As fábricas de café, no Porto, e de cereais, em Avanca, vão continuar a aumentar a produção. O diretor-geral da Nestlé Portugal diz que, neste ano, deverão replicar os 71 milhões de investimento do ano passado, até 7 milhões nas unidades fabris, para se tornarem numa empresa mais sustentável.

As receitas aumentaram 30 milhões, para 565 milhões. Foi apenas a corrida aos supers?

O canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés) foi um desastre. Todas as nossas fontes de negócio fecharam - é conhecida a situação dos hotéis, do turismo internacional, dos restaurantes, e o fora do lar não gerou vendas. No consumo do lar, março e abril foram meses de grandes vendas, tivemos de apoiar as cadeias de distribuição para facilitar o fluxo logístico, porque a procura era enorme. Soubemos construir em cima destes meses, gerar uma fidelização e um consumo crescente. O consumo fora do lar concentrou-se em casa, a situação foi muito bem gerida pelas nossas marcas, com políticas de fidelização, de experimentação de novas marcas, formatos, produtos, novas receitas. O lançamento das cápsulas Buondi no sistema Nespresso foi estrategicamente muito correto. Na alimentação infantil trabalhamos em formatos maiores, num momento em que muitas famílias viram reduzido o seu rendimento, e em lógicas promocionais em segmentos onde produtos mais económicos são necessários.

Lançaram 300 novos produtos. É um ritmo de inovação a manter-se? E há capacidade de crescer, com o rendimentos das famílias a cair e a compra de marcas dos supers a aumentar?

As tendências das nossas marcas estão muito consolidadas pelo que aconteceu no ano passado, com mais consumidores fidelizados. E sabemos que o plano de inovações é tão grande e forte quanto o do ano passado. Contamos ainda, embora não estejamos certos, com um grande contributo do fora do lar. Não vai ser ao nível de 2019, já estiveram três meses fechados, mas certamente vai contribuir para o crescimento em 2021. No café, no consumo dentro do lar, não foi possível recuperar a 100% o volume de chávenas que se consumiam fora do lar, embora tenhamos ganho quota de mercado, porque temos marcas mais fortes. O regresso do Horeca vai gerar um crescimento muito importante para nós, quando comparado com o ano passado, próximo ao zero; estimamos crescer neste ano.

Consegue quantificar?

Está dependente de variáveis que não controlamos. Se daqui a 15 dias a situação em Portugal piorar e António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa tiverem de fechar tudo novamente, a situação muda. Se o número de doentes aumenta, a sociedade fica receosa e isso influencia muito o consumo. Por isso, não estamos certos, mas agora a nossa previsão é de crescer acima dos 4% do ano passado, mais na ordem dos 5%.

O vosso negócio dos cafés, restaurantes e escritórios perdeu 85% de um bolo de entre 85 e 90 milhões de receitas. Com o Horeca a reabrir a conta-gotas, o que estimam que possa contribuir para esse crescimento?

Acreditamos que a partir do verão venhamos a ter uma situação melhor do que a de agora - o que não é difícil, porque é particularmente crítica. Não vamos recuperar o valor de 2019 do nosso Horeca, não vamos ter os mesmos turistas, mas na nossa estimativa vai ser importante. Algumas das nossas categorias no lar estão a crescer de forma magnífica, todas as marcas que se podem comprar no supermercado estão a comportar-se magnificamente, a Starbucks está a crescer de forma magnífica e os retalhistas estão muito contentes com o crescimento da Nestlé.

O que é "magnificamente"?

É crescer a dois dígitos.

Mas nem isso compensou as perdas do café no Horeca...

Felizmente não vendemos só café. Temos um grande negócio nos cereais de pequeno-almoço, um bom negócio de chocolate e também um negócio pequeno de comida - temos a Garden Gourmet, a primeira marca de proteínas alternativas, vegetais, tendência que também veio para ficar. Basta visitar os retalhistas para verificar como esta marca ganhou presença e visibilidade. Temos ainda um negócio de Nestlé Science para clientes com situações particulares de saúde. O café é importante para a Nestlé Portugal, mas não é apenas café. Se o café tem uma bronquite séria, a Nestlé Portugal tem uma gripe.

Além do café, em que categorias mais cresceram?

A segunda categoria de crescimento foram os cereais para a família - a Nestum, a Pensal... -, um crescimento a duplo dígito; e outro foi do petcare, que tem tido uma estabilidade de crescimento incrível. É o segmento onde temos mais quota de mercado quando comparado com os concorrentes e onde estamos a crescer muito no retalho, mas também no especializado, que historicamente não era a força do Nestlé Purina. O crescimento de café, cereais, petcare foi excecional.

Serão essas categorias a empurrar crescimento neste ano?

Penso que sim. Na Nestlé temos inovações que estou convicto que serão vencedoras; no caso dos cereais muito vai depender do comportamento dos consumidores. Estou otimista para 2021, porque sei no que os diferentes negócios estão a trabalhar e os objetivos que temos. Um tema importante são as nossas fábricas, que vão receber ainda mais volumes. As fábricas de Avanca e Porto são consideradas de excelência no mundo Nestlé. A fábrica do Porto cresceu muitíssimo com a chegada da Starbucks, mais 10% em toneladas produzidas. A Avanca não cresceu tanto (+2,7%), é maior e mais diferenciada. O meu otimismo também se baseia muito nas nossas fábricas, exportamos muito para outras Nestlé.

A fábrica de café no Porto ganhou a Starbucks e Avanca é o hub mundial dos snacks biológicos para bebés. Há expectativa de mais negócios para Portugal?

Não estou à espera de negócios diferentes, mas de mais volumes dos mesmos negócios. A Avanca produz para cada vez mais mercados da Nestlé, para Itália e para a Alemanha, nas bebidas com origem em cereais produzimos o Caro, o Mokambo dos alemães, e o Orzoro, o dos italianos. Temos investimentos muito importantes que estamos a discutir agora com o grupo, que não posso adiantar, para fazer melhorias importantes nas linhas de produção em Avanca.

Investiram 71 milhões e nas operações 16,5 milhões. E 2021?

Nos dois últimos anos investimos nas fábricas para aumentar capacidade produtiva. Para criar novas linhas - a linha de Nutripuffs é nova na Avanca (11 milhões de investimento em 2019) - e em melhorar a sua eficiência produtiva. Parte destes investimentos foi no melhoramento do packaging (embalamento) sustentável dos produtos. No Porto, investimos recursos e muito tempo na retirada do alumínio do plástico dos sacos do café, usado para proteger o café, essa composição não é reciclável, para que o Buondi no Horeca - e vamos poder dizer isso não tarda no retalho alimentar - seja 100% reciclável. Temos de eliminar esse extrato de alumínio, o que não é fácil pois temos de garantir a preservação do produto, o aroma. Em Avanca estamos a modificar as embalagens internas do Nestum para 100% reciclável. No Cerelac ainda não estamos onde queremos, ainda estamos a estudar, como tornar reciclável o saco interno, sendo 100% seguro para o produto. Algumas máquinas para tratar o novo packaging têm de ser substituídas. Transformar o nosso packaging 100% amigo do ambiente é um investimento que tem um retorno. Ter um café sustentável, da origem à embalagem, é uma vantagem competitiva. Pode originar preferência pelo meu produto.

Então o que planeiam investir nas fábricas para tornar os produtos mais sustentáveis?

Vamos investir entre 6,5 milhões e 7 milhões de euros nas duas fábricas apenas para transformar os produtos mais sustentáveis e melhorar a eficiência das nossas linhas. Pode ser mais, porque as oportunidades vão ser discutidas todo o ano.

Mas globalmente, antecipa manter os 71 milhões de 2020?

Pode ser mais. O investimento em 2020, cumulativo, vai ser mais ou menos replicado em 2021, mas a composição poderá ser muito diferente. Provavelmente, teremos de investir mais nas marcas, tudo dependerá da dinâmica competitiva. Se as marcas de distribuição vão investir muito ao nível do preço, das promoções...

Garantiram em 2020 o pagamento de salário por 12 semanas a todos os colaboradores impedidos de trabalhar por causa da pandemia, deram um apoio de mais 20% no salário aos trabalhadores nas fábricas e centros logísticos durante o cerco de Ovar; mantiveram as comissões de vendas dos colaboradores do Horeca. Medidas a repetir face ainda à grande incerteza gerada pela pandemia?

2020 ensinou-nos que temos de ser flexíveis e adaptar-nos à situação. Estamos sempre disponíveis a apoiar os nossos colaboradores. Não temos situações de fecho forçado dos trabalhadores, não temos tido essa necessidade. Temos uma política de apoiar os nossos trabalhadores para além do necessário. Agora estamos a fornecer testes de antigénios gratuitos, para se testarem todas as semanas, nas operações. Vamos ver como apoiar as nossas pessoas, dependendo da situação. O nosso compromisso é de apoiar o trabalhador a 100%, as medidas podem variar. É um compromisso reconhecido pelos trabalhadores e pelos sindicatos. E é uma discussão social positiva a que temos.

O governo determinou teletrabalho obrigatório até ao final do ano. Isso "é meterem-se demais na vida das empresas", como diz a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição?

A Nestlé em 2020 entregou resultados incríveis com todas as pessoas, com a exceção das fábricas e das forças de vendas, em teletrabalho (1300 trabalhadores). O regime precisa de uma certa organização, pelo respeito pelas pessoas, pelos horários, mas numa situação de disciplina e estrutura organizativa discordo completamente. A companhia pode ser gerida otimamente numa situação excecional. Se me pergunta se esta situação no longo prazo, a quatro ou cinco anos, pode ser negativa, digo sim. O teletrabalho inibe um pouco a criatividade interpessoal, mas não é um problema de gestão empresarial é uma questão de não podermos ter as pessoas em casa para sempre. No meu ponto de vista o teletrabalho permitiu muita eficiência de gestão.

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