Climate Change Leadership

Pau Roca. “O vinho está mais bem preparado para as mudanças climáticas”

Pau Roca, diretor-geral da OIV. Foto: DR
Pau Roca, diretor-geral da OIV. Foto: DR

O novo paradigma da sustentabilidade exige investimentos pensados a uma ou a duas gerações, diz o diretor-geral da OIV

O diretor-geral da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) esteve no Porto para participar na conferência do clima. Onde outros veem riscos, Pau Roca vê oportunidades.

Veio aqui dizer que as alterações climáticas encerram em si também oportunidades. Porquê?
Porque vão gerar um novo modelo de economia baseado não no crescimento mas na sustentabilidade, e o setor do vinho será mais capaz de se adaptar do que os restantes.

Em que medida?
A indústria do vinho já demonstrou que é muito performante e resiliente. Adaptou-se ao território e é muito fragmentada. Se isso é mau no atual modelo económico, quando evoluímos para um sistema em que a adaptação é fundamental, uma espécie de darwinismo, temos de ter variabilidade genéticas e mutações na nossa oferta, com diferentes empresas e diferentes maneiras de fazer as coisas. O vinho tem muito mais disso do que um setor composto só por grandes multinacionais. Acho que as multinacionais são os dinossauros, poderão desaparecer.

As grandes empresas já acordaram para o tema e estão a investir. E as pequenas?
Na verdade, não são assim tão grandes. São é as líderes e assumem esse papel, o que deve ser aplaudido. Mas a cadeia de valor do vinho implica uma colaboração ativa entre todos os atores. É muito interessante. No vinho, quando temos os líderes a trabalhar em algo isso alarga-se rapidamente a produtores e a fornecedores e às pequenas empresas, que seguem o mesmo caminho.

Estamos sempre a falar de mudanças a longo prazo, não?
Não é verdade. A digitalização vai acelerar muito estas alterações. É o catalisador disto tudo, especialmente com as distributed ledger technology (DLT). A adaptação vai ser muito acelerada porque vamos ter uma imensa quantidade de dados e serem capazes de tomar decisões mais rápidas.

Haverá sempre vinho no mundo, provavelmente será é diferente, é isso?
Há uma imensa diversidade de castas e poderemos ter muitas formas de adaptação das videiras. Houve um trabalho enorme de seleção genética das videiras e, com isso, multiplicamos e alargamos muito a sua capacidade de adaptação. Temos muitas opções. Conseguiremos encontrar soluções científicas para essa adaptação. Isto no que diz respeito ao vinho. Temos é de resolver muitos outros problemas, como a questão da escassez de água.

E em termos de território?
O clima é parte fundamental do conceito de terroir no vinho. Com o clima a mudar, ou mudamos o local de produção das vinhas ou escolhemos videiras mais adaptadas. Há três variáveis a ter em conta nesta equação. A variedade genética das castas, o solo e o clima. E há o fator humano. Veja-se o caso do Douro. Mesmo com o clima a mudar, a vitivinicultura já está tão enraizada na região que provavelmente é mais fácil encontrar uma adaptação na variedade das castas e no fator humano do que propriamente estar a mudar a localização. Estas crises são boas porque é um desafio para uma melhor performance.

Está, então, confiante no futuro…
Não digo que estou confiante, digo que há oportunidades. Mas é preciso fazer grandes investimentos dos quais não conseguiremos retorno numa geração. E isso é também algo que só o vinho pode fazer. Porque é uma indústria com uma visão de longo prazo. Todas estas companhias têm de investir em algo de que só terão retorno numa ou duas gerações. Serão capazes de o fazer? Acho que sim, mas temos de insistir nisso. Acredito é que muitas empresas, de outros setores, nunca serão capazes de o fazer. O nosso tem essa capacidade.

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