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Paz social volta à Autoeuropa após ano e meio de tensão

Autoeuropa. (Fotografia: Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens)
Autoeuropa. (Fotografia: Nuno Pinto Fernandes/ Global Imagens)

Operários e administração voltam a estar sincronizados após 18 meses de discordâncias, mudanças na comissão de trabalhadores e uma greve histórica.

Quando António de Melo Pires, em março de 2014, anunciou que a Autoeuropa iria produzir um novo modelo, o então diretor-geral da fábrica de Palmela nem imaginaria o que se iria seguir numa das empresas que mais contribuem para a economia portuguesa. Pela primeira vez, a unidade do grupo Volkswagen em Portugal estava a preparar-se para produzir o primeiro modelo em larga escala, o veículo utilitário desportivo T-Roc.

Tendo em conta as elevadas perspetivas de procura, a fábrica de Palmela recebeu um investimento de 677 milhões de euros para poder bater o recorde de produção. Só que a insuficiente compensação financeira pela produção aos sábados e domingos deu origem a mais de um ano e meio de tensão dentro da Autoeuropa: uma greve histórica (em agosto de 2017), três coordenadores da comissão de trabalhadores e vários pré-acordos com a administração que acabaram por ser chumbados pelos funcionários da fábrica de Palmela.

18 meses depois, a paz social regressou à unidade do grupo Volkswagen em Portugal, após os cerca de 5900 trabalhadores, na sexta-feira, terem aprovado o acordo salarial para 2019 e 2020. Com esta validação, os operários asseguram, até 2020, um aumento anual do salário de 2,9% – com um mínimo de 25 euros -, 100% do salário por cada sábado e domingo de produção – e ainda a integração de 300 funcionários nos quadros da fábrica até julho de 2019.

O Dinheiro Vivo recorda-lhe neste texto os momentos mais tensos na fábrica de Palmela nos últimos 18 meses e o caminho para a recuperação da estabilidade dentro da empresa.

A semana de seis dias – primeiro semestre de 2017:

A notícia foi dada no início de julho mas as negociações já estavam a decorrer há vários meses: “A Autoeuropa está a negociar um novo horário com os trabalhadores da fábrica portuguesa do grupo Volkswagen. A empresa liderada por Miguel Sanches propõe que a unidade passe a funcionar seis dias por semana e que os operários tenham apenas uma folga fixa, ao domingo, e duas folgas consecutivas a cada três semanas“, publicou o Dinheiro Vivo em 6 de julho de 2017.

Os trabalhadores estavam dispostos a aceitar esta solução, mas apenas se fosse atribuído um bónus no salário. Na altura, a comissão de trabalhadores já era liderada por Fernando Sequeira, que substituíra o histórico António Chora no início de 2017. Operários e administração tentavam evitar a tensão na fábrica embora a comissão de trabalhadores, em maio, tivesse alertado: “O novo horário penaliza os trabalhadores na sua saúde, bem como na sua vida social e familiar.”

No final de julho, comissão de trabalhadores e administração alcançaram um pré-acordo, que previa um bónus de 175 euros “adicional ao previsto na lei, 25% de subsídio de turno e a atribuição de um dia adicional de férias”. Mas quase três quartos dos operários da Autoeuropa chumbaram a proposta em referendo, mesmo depois de a administração do grupo, na Alemanha. ter avisado que a produção aos sábados seria “inevitável”.

Na ‘ressaca’ do referendo, a Autoeuropa iniciou a produção em série do SUV T-Roc, no dia 31 de julho, embora apenas com um turno de produção. No dia a seguir, a então comissão de trabalhadores acabou por anunciar a demissão, na sequência deste chumbo. Mas a decisão só iria produzir efeitos dia 28 de agosto. Dois dias depois, iria ocorrer a primeira greve da história da Autoeuropa.

Greve histórica e impasse – agosto e setembro de 2017:

Sem comissão de trabalhadores e sem negociações, os trabalhadores avançaram para a primeira greve da história da Autoeuropa, em 30 de agosto de 2017. Não saiu qualquer carro da linha de montagem de Palmela, devido à paralisação convocada pelo SITE-Sul, sindicato afeto à CGTP, e à qual se juntou o Sindicato dos Metalúrgicos.

Mas este mês foi particularmente agitado na fábrica do grupo Volkswagen em Portugal. Miguel Sanches chegou a assumir que sem acordo laboral “pode estar em cima da mesa” fazer parte do T-Roc noutro país, em entrevista ao Jornal de Negócios. Em Palmela, a tensão estava em níveis bastante elevados, porque no início desse mês, a comissão de trabalhadores, já demissionária, referia que as fábricas alemãs da VW poderiam ficar com parte da produção do SUV da marca alemã.

Este impasse só ficou resolvido em setembro, depois das declarações do então presidente executivo da marca alemã. “A Autoeuropa é a única fábrica do grupo Volkswagen que pode produzir o T-Roc. Transferir a produção de um modelo é um processo muito dispendioso”, assinalou Herbert Diess. “Não estamos a considerar outras opções” para a produção do T-Roc fora da Autoeuropa, afirmou o dirigente num encontro com a imprensa portuguesa.

Nova comissão de trabalhadores e chumbo – outubro de 2017:

Outubro de 2017 começou com as eleições para eleger a nova comissão de trabalhadores, que contou com seis candidaturas. A lista E, liderada por Fernando Gonçalves, garantiu a vitória mas não a maioria – ficou apenas com 4 dos 11 mandatos. Os restantes lugares foram para a lista D, comandada por Fausto Coutinho (3 mandatos), a lista C, liderada por José Carlos Silva (3 mandatos) e a lista A, de Paulo Marques (1 mandato).

Dias antes de ser eleito o coordenador, Fernando Gonçalves deu conta de uma das promessas de campanha: “Os sábados na Autoeuropa têm de ser pagos como um dia extra“, referiu o então dirigente em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Depois de várias semanas de negociações, administração e comissão de trabalhadores chegaram a novo acordo, no final de novembro. O documento previa a implementação de dois tipos de horários: um que irá vigorar de fevereiro a julho do próximo ano e outro que já inclui a laboração contínua da fábrica de automóveis de Palmela depois do habitual período de férias dos trabalhadores (em agosto). Nesta proposta, os funcionários vão rodar pelos três turnos (manhã, tarde e noite) semanalmente, em vez de permanecerem várias semanas em cada um destes turnos.

Mas a proposta foi chumbada pelos trabalhadores da Autoeuropa, o que levou a administração a impor o modelo de laboração contínua no início de dezembro. O novo modelo de horário iria entrar em vigor no final de janeiro e previa a laboração seis dias por semana.

Governo entra em ação – dezembro de 2017:

Com novo impasse à vista, o Governo foi chamado a intervir no final do ano. Em meados de dezembro, houve uma reunião tripartida no Ministério da Segurança Social, com a presença da comissão de trabalhadores, da administração e de Vieira da Silva. Do encontro saiu um compromisso para um maior envolvimento do Estado, através da “criação e reforço de equipamentos sociais de apoio à família e que responda a um novo quadro horário de funcionamento da empresa, com mais creches e creches com horário diferenciado, por exemplo“, referiu o ministro da Segurança Social.

Também houve um acordo para retomar as negociações entre a administração e a comissão de trabalhadores, mas que apenas abrangia o período após agosto.

Já em janeiro de 2018, decorreram as negociações para os salários deste ano. A comissão de trabalhadores exigia o aumento salarial de 6,5%, num mínimo de 50 euros, e com efeitos retroativos a setembro de 2017. Nesta altura, estava em cima da mesa uma greve em 2 e 3 de fevereiro. Esta paralisação acabaria por não ocorrer.

Primeiro acordo aprovado – março de 2018:

Depois de algumas semanas de negociação, a comissão de trabalhadores e a administração conseguiram um acordo para subida dos salários em 2017, no final de fevereiro. Ficou garantido um aumento de 3,2%, com um mínimo de 25 euros, retroativo a 1 de outubro de 2017; o pagamento de uma gratificação de cem ou 200€ euros em abril conforme a antiguidade; a integração de 250 trabalhadores com contratos a prazo, até ao final de dezembro; e o fim da tabela A0 para operadores e do primeiro nível de integração para especialistas nas futuras admissões. O documento acabaria por ser validado por quase três quartos dos trabalhadores no início de março.

Em maio, a comissão de trabalhadores mudou de rosto. Fernando Gonçalves, o então coordenador, demitiu-se porque a contestação “estava muito centrada na minha pessoa”. A saída – que ocorreu mesmo depois de os funcionários terem chumbado o pedido de destituição da direção – também serviu para que pudessem ser iniciadas as negociações dos horários após as férias de agosto. Fausto Dionísio passou a ser o rosto dos operários da Autoeuropa.

Domingos sem entendimento – maio a julho de 2018:

Com a necessidade de reforçar a produção do T-Roc, comissão de trabalhadores e administração voltaram a sentar-se à mesa. A partir de agosto, a Autoeuropa precisava de funcionar com 19 turnos de laboração: três turnos diários de segunda a sexta e dois turnos diários ao sábado e domingo. Já estava acordado que os operários iriam ter uma semana de trabalho de cinco dias, com duas folgas consecutivas. Estes dias de descanso seriam gozados ao sábado e domingo de duas em duas semanas.

Mas não houve entendimento para pagar os domingos. A administração pretendia remunerar os sábados e domingos como dias normais de trabalho; a comissão de trabalhadores exigia mais dinheiro. A equipa de gestão apenas acrescentou um dia de folga extra à proposta inicial, que foi chumbada pelos representantes dos operários já em julho.

A comissão de trabalhadores, por causa disso, decidiu apresentar o caderno reivindicativo para 2019, em que exigia um aumento salarial de 4%, com um mínimo de 36 euros, e a integração de 400 precários. As conversas apenas foram iniciadas em setembro, depois da paragem de agosto.

Paz social – novembro de 2018:

Com a fábrica parada três semanas em agosto – uma semana a mais por causa da adaptação da linha de montagem à nova norma de emissões – as negociações para os salários de 2019 apenas foram iniciadas em setembro. Depois de quase dois meses, foi anunciado um pré-acordo no final de outubro para aumentos salariais nos próximos dois anos. Um acordo que resolve todas as questões dentro da fábrica de Palmela.

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