Peças de luxo vão ficar mais caras na Europa e a culpa é dos chineses

(DR)
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Durante este fim-de-semana, a loja da
Louis Vuitton num conhecido centro comercial em Paris, França, teve
filas que ultrapassavam as portas e chegavam à esquina. À espera,
com sacos de outras marcas de luxo, estavam clientes com uma coisa em
comum: eram todos asiáticos. Algumas pessoas tiraram fotos e
publicaram-nas em redes sociais, com legendas cómicas ou
simplesmente pontos de interrogação.

O fenómeno pode parecer estranho para
quem não sabe o motivo, mas a verdade é que se repete por toda a
Europa e está até a assustar as próprias marcas de luxo. Nos
últimos meses, milhares de chineses e japoneses invadiram a Europa
em busca de bens de luxo da Louis Vuitton, Prada, Gucci e Chanel,
entre outras.

Porquê? O euro está muito mais fraco
e os preços são muito inferiores. Na China, os impostos sobre bens
de luxo importados são tão elevados que a mesma peça pode custar
40% mais que na Europa. Com a ascensão de uma nova classe média e
principalmente de novos ricos na China, vir à Europa compensa.

“Quem compra na nossa loja são
principalmente estrangeiros. Angolanos e chineses, também russos e
brasileiros”, explica ao DN a diretora da loja da Gucci na Avenida
da Liberdade, Paula Isidoro. Aquilo que já era uma tendência
acentuou-se ainda mais nos últimos tempos. “E os preços não
baixaram, pelo contrário”, indica a gerente. Num sábado à tarde,
todas as lojas de luxo da Avenida da Liberdade têm movimento, quase
sempre com vozes que falam outras línguas que não o português. É
raro ver um cliente à espera; há vários funcionários a trabalhar,
precisamente para dar o atendimento personalizado que qualquer pessoa
com vontade de gastar 700 euros num porta-moedas merece.

Mas o que está realmente a preocupar
as marcas de luxo, desde a Peers, que detém a Prada, à LVMH, que
detém a Louis Vuitton, é que a disparidade nos preços entre a
Europa e a Ásia está a prejudicar as vendas na Ásia –
precisamente a geografia que lhes tem permitido manter crescimentos
razoáveis de trimestre para trimestre. Resultado: os preços das
marcas de luxo poderão subir na Europa.

Não é que viagens turísticas dos
chineses à Europa sejam má notícia. Diz-se que os chineses são os
novos japoneses e prevê-se que, dentro de sete anos, a China passe a
país número um na emissão de turistas para o resto do mundo. Em
2011, 70 milhões de turistas viajaram para o estrangeiro; e como a
tendência veio para ficar, muitos aproveitam para comprar os bens de
luxo que são muito mais caros dentro de casa.

Segundo a especialista em turismo
Global Blue, citada pelo Wall Street Journal, cada turista chinês
que dá um salto à Europa, Singapura e Hong Kong gasta em média
onze mil euros.

O problema é que as grandes marcas
investiram fortemente nas suas operações na China e não estão a
ter o retorno esperado. É fácil perceber porquê: uma mala Prada
Galleria custa 1190 euros na Europa, mas na China está à venda por
1928 euros. A icónica mala Speedy 30 da Louis Vuitton pode ser
adquirida por 500 euros na Europa, mas na China vale 783 euros. A
Timeless Classic Flap da Chanel encontra-se em França por 3100
euros, mas na China é preciso desembolsar 4750 euros.

“Para reduzir a diferença de preços
com a China, a empresa poderá aumentar os preços até 10% na Europa
se o euro continuar tão fraco, isto é, claro, sem aumentar os
preços na China”, disse um porta-voz da Prada ao Wall Street
Journal.

Da parte da Louis Vuitton, não é
claro se vai haver um aumento. Mas o diretor financeiro, Jean-Jacques
Guiony, sempre foi dizendo: “Vamos fazer o que for melhor para os
lucros da Vuitton e da LVMH. A empresa admitiu que o negócio da
marca na China tem sido prejudicado devido a esta fuga de
consumidores para a Europa.

Como não é provável que os elevados
impostos sobre bens de luxos importados baixem (a discussão
arrasta-se sem conclusões há algum tempo), as marcas terão de
subir os preços. Mesmo correndo o risco de alienar um pouco mais os
clientes na Europa, onde a retração do consumo se mantém. Quem é
rico continua a comprar. Mas é provável que compre menos.

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