Pedro Queiroz Pereira, o último dos industriais

Pedro Queiroz Pereira, empresário
Pedro Queiroz Pereira, empresário

Antes de ser um empresário reconhecido, Pedro Queiroz Pereira era
famoso pelo nome de guerra nas corridas de automóveis, PQP. Apesar
de ter nascido numa das famílias mais ricas do período anterior à
Revolução dos Cravos – o pai foi um dos dez empresários desafiados
por Salazar a construírem o primeiro hotel de luxo em Lisboa (Ritz)
-, não recebeu formação para gerir. Hoje está à frente de um dos
mais importantes grupos industriais do País. A holding Semapa está
nos cimentos (Secil) e na pasta de papel (Portucel Soporcel) e os
negócios da família chegam ao imobiliário e ao turismo.

Como muitos herdeiros dos grandes industriais cujas empresas foram
nacionalizadas, Queiroz Pereira ruma ao Brasil depois da revolução.
Vive uma vida descontraída, entre a gestão de alguns negócios da
família e a paixão pela competição automóvel, tornando-se amigo
do piloto brasileiro Ayrton Senna.

A morte do pai, Manuel Queiroz Pereira, e do irmão mais velho
acabam por colocá-lo à frente dos negócios, em Portugal, já perto
dos 40 anos. Sem formação superior – frequentou a faculdade, mas
não terminou – PQP prova o ditado que diz que filho de peixe sabe
nadar. Aproveitou a onda de privatizações da década de 90 para
criar a cimenteira Secil, a partir da qual construiu um grupo
industrial de referência – não sem percalços.

Queiroz Pereira entrou na mitologia dos grandes empresários
quando, em julho de 2000, lançou uma OPA (oferta pública de
aquisição) hostil sobre a Cimpor. Uma operação arrojada, ao
estilo BCP, que custava 550 milhões de contos (mais de 2500 milhões
de euros). Mas tinha um calcanhar de Aquiles. A Cimpor já era uma
multinacional demasiado grande para o capital nacional. Queiroz
Pereira aliou-se aos suíços da Holcim para comprar e dividir a
empresa. A Semapa ficava apenas com a operação internacional.
“Temos muita pena de dividir a Cimpor, mas se não me
antecipasse haveria uma OPA de uma empresa estrangeira”, disse
na altura. A história veio dar-lhe razão uma década depois,
quando, em 2010, os brasileiros da CSN lançaram a OPA sobre a
Cimpor. Mas voltemos a 2000.

A OPA foi comunicada ao governo de véspera e foi bem recebida
pelo então secretário de Estado do Tesouro Nogueira Leite. Mas a
operação foi chumbada pelo superministro das Finanças e Economia.
Os centros de decisão nacionais estavam na moda e Pina Moura
entregou os últimos 10% do capital do Estado à Teixeira Duarte, num
concurso polémico em que a construtora, apoiada pelo BCP, foi a
única concorrente. O veto político demorou menos de um mês. Mas
Queiroz Pereira manteve durante anos uma guerra com os vencedores,
travada em várias frentes: nas empresas (a Semapa foi acionista da
Cimpor que chegou a ter 20% da Semapa) e nos tribunais.

Sem a Cimpor, a Semapa fez o seu caminho e em 2004 deu o passo
decisivo ao ganhar o concurso para 30% do capital da Portucel, uma
das maiores empresas industriais de Portugal. O negócio implicou uma
OPA sobre a Portucel, coisa que Belmiro de Azevedo sempre recusou
fazer, e a Semapa teve de vender alguns dos anéis, como a Enersis
(energias renováveis) e 49% da Secil. O grupo cresce concentrado no
papel e o empresário cumpre a promessa feita na privatização:
investe 500 milhões numa nova unidade em Setúbal. Pelo maior
investimento industrial em anos recebeu a Ordem de Mérito das mãos
de Cavaco Silva e, a propósito da realização do projeto, não
poupou elogios ao então primeiro-ministro. “José Sócrates é
capaz de tomar decisões muito importantes para o País andar para a
frente, quer no dinamismo quer na sua forma de estar”, disse em
2010. Apesar de independente do poder político, aprendeu uma lição
na OPA da Cimpor. É mais fácil fazer negócios quando não se vai
contra o governo.

A Portucel é a estrela da companhia. A empresa está a estudar
vários investimentos fora de Portugal e a força exportadora ajuda o
grupo a resistir à crise doméstica que não poupou outros grandes
empresários. Se há quem ainda tenha capacidade financeira é
Queiroz Pereira.

Tem fama de ter mau feitio, não gosta de aparecer e foge dos
media. Mas quando tem algo a dizer, não se acanha, seja em público
– terá chamado mentiroso a Pina Moura – seja em privado. É frontal
e honesto, diz um colaborador. Quem já fez negócios com ele diz que
ouve com muita atenção as pessoas que o rodeiam e em quem confia.
Tem noção de que não sabe tudo e pede opinião. Mas também
gosta de tomar a iniciativa e não foge ao risco. E se acha que tem
razão, luta até ao fim nos tribunais. Quem trabalha com ele diz que
é um verdadeiro industrial no sentido clássico da palavra. Quando
investe pensa no longo prazo. “Tem um prazer incrível em
produzir” coisas palpáveis, diz José Manuel Palma, consultor
da Secil para o ambiente.

Quando chega a hora de avançar com um investimento, não se
limita a ver as vantagens financeiras, “tem de se apaixonar pelo
projeto”, conta José Manuel Palma. Talvez isso ajude a explicar
a insistência na Cimpor. Sempre que se adivinham mexidas na maior
cimenteira nacional, a paixão regressa. Em 2010, depois da OPA da
brasileira CSN, o dono da Semapa terá defendido em privado a entrada
de acionistas nacionais no capital da cimenteira. Publicamente,
assumiu que segue sempre com atenção o que se passa na Cimpor. A
sua atenção volta-se de novo para a cimenteira perante a debilidade
financeira do último acionista industrial português. Manuel Fino
não tem dinheiro para recomprar a posição cedida à Caixa há três
anos.

Queiroz Pereira terá discutido com o Governo a hipótese de
comprar uma participação na Cimpor numa solução nacional para a
empresa. Mas até um dos grupos mais sólidos tem dificuldades de
financiamento e o empresário terá pedido o apoio da Caixa em
condições favoráveis. Mesmo sem Cimpor, a Semapa tem de mobilizar
574 milhões para comprar a participação dos irlandeses da CRC na
Secil.

Apesar de fugir à exposição pública, Queiroz Pereira é
incontornável quando se fala de grande empresários. Em 2011, surgiu
em décimo lugar na lista do Negócios dos mais poderosos em Portugal
e só falha o top 25 dos mais ricos da Exame porque não tem a
maioria do capital da holding que é a cabeça do grupo, a Cimigest;
a participação é partilhada com a irmã Maude, que está na gestão
da Semapa – uma das poucas administradoras executivas do PSI-20.

Da vida privada do empresário pouco se sabe. Tem uma herdade onde
faz criação de cavalos no concelho de Coruche. E uma das filhas
seguiu a paixão do pai pelas competições desportivas, só que em
vez de automóveis corre em cavalos.

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