Pessoas têm que ser vistas como investimento

No último painel do Accounting Summit discutiu-se a valorização dos recursos humanos. Para muitos gestores, as pessoas ainda são um custo e não um investimento. Conseguir a equipa certa é o mais difícil.

Foi no encerramento da Accounting Summit, promovida pela Primavera BSS, evento que decorreu online entre segunda-feira e hoje, sexta-feira, que o tema da valorização dos recursos humanos foi discutido. Apesar de esta ser uma questão estruturante, que acompanhou todos os debates desde o início da conferência, fechou com chave de ouro esta discussão destinada a perceber os desafios futuros da profissão de contabilista.

A boa notícia foi que, apesar das ameaças, como a crescente digitalização, a profissão não vai desaparecer, mas terá, isso sim, de reinventar-se e oferecer novos serviços de valor acrescentado - como aliás, foi sendo dito desde o primeiro dia. Também a pandemia, que, como sabemos, gera incerteza em relação ao futuro, acabou por mostrar ao mercado - cerca 1,3 milhões de empresas nacionais - que os profissionais de contabilidade foram essenciais para fazer face às dificuldades sentidas nesta fase, acabando por contribuir para uma valorização da profissão. Isto não se vai refletir imediatamente numa subida das margens financeiras, mas está lançada a semente que trará, no futuro, uma boa colheita.

José Santos, escritor e professor de Fisiologia, foi o orador responsável por dar o pontapé de saída deste último dia, e veio mostrar à audiência, os cuidados a ter com o bem-estar dos profissionais. A trabalhar há oito anos com o mundo empresarial, José Santos explica que "a forma como as pessoas estão a trabalhar é, muitas vezes disfuncional", explica. Assim, identifica: estamos sempre ligados, temos elevada pressão para os resultados, trabalhamos muitas horas, por vezes sem grande produtividade, e gastamos muitas horas em viagens. Ora, segundo ele, em fisiologia, diz-se que tudo tem um preço, tudo tem uma consequência, e neste caso o preço a pagar é o stress, a fadiga. As pessoas têm trabalhado num ambiente altamente stressante e de grande exigência, o que traz uma diminuição da performance, através do impacto cognitivo.

Incerteza é uma nuvem na cabeça que ocupa espaço

Ora, esta situação mundial de pandemia, que generalizou o trabalho remoto, veio agravar a pressão já sentida, acrescentando fatores como o isolamento social, o teletrabalho, a pressão social e a incerteza. Esta incerteza é como uma nuvem que temos sobre a cabeça e que ocupa espaço físico (a preocupação), ou seja, vivemos um ambiente de constante ameaça. Assim, a probabilidade de se entrar em fadiga é muito maior. "Tenho contactado com pessoas de muitas empresas que reportam alterações de sono, uma menor capacidade de concentração, uma fadiga precoce, alterações das rotinas de trabalho e alteração de horários, o que as torna mais reativas e menos tolerantes", explica. José Santos refere que o stress - que é uma resposta do sistema nervoso autónomo e nos deixa preparados para a «luta ou fuga» - deixa o nosso cérebro muito agitado.

Assim, deixa vários conselhos a quem está gerir equipas de profissionais e um deles é ter mais empatia, pois há pessoas muito preocupadas com a situação da pandemia. Comunicar sempre com feedback, definir objetivos com clareza e comunicar de forma mais simples, ser muito transparente e, sobretudo, celebrar os sucessos (apreço liberta uma substância que nos dá uma sensação de recompensa), formar grupos de partilha e não só de trabalho, são algumas das sugestões que deixou à audiência. "Nunca como agora precisamos tanto de miminhos, porque vivemos em stress, e quando fazemos parte de uma comunidade que nos inclui estamos mais seguros".

Alerta ainda que os colaboradores devem ter muito cuidado em manter as rotinas - o cérebro cansa-se muito depressa quando fazemos coisas diferentes -, devem planear muito bem o trabalho, ter uma mesa de trabalho específica, e fazer interrupções. Os intervalos são fundamentais para recuperar o foco, mas sempre com pensamento divergente (uma alteração face ao que estávamos a fazer).

Do ponto de vista pessoal, devemos tentar apanhar sol, porque agora estamos mais "fechados", pois o sol é decisivo para regular o humor; devemos saber alimentarmo-nos bem, e não procurar apenas a comida-conforto; e, sobretudo, não pôr de lado a socialização. "Não fomos feitos para pôr de lado a socialização. Com cuidado, é certo, mas não podemos deixar de socializar. E, sobretudo precisamos parar, desligar mesmo, para recuperar o cérebro", explica. Nestas pausas, acabamos por beber muito café: café sim, diz o especialista, mas não devemos exagerar - no máximo quatro cafés e nunca depois das 17 horas - porque temos de preparar o sono. Para o sono ser reparador não devemos ter equipamentos eletrónicos que libertem luz azul pois isso indica ao cérebro que é dia e este não liberta a hormona que nos ajuda a dormir.

Para concluir, este professor ligado à área do desporto, aconselha: fazer exercício é essencial. O cérebro precisa da serotonina e dopamina, hormonas libertadas pela prática do exercício. Por cada 60 minutos sentado, deve mover-se três minutos, afirma.

Pessoas têm que ser vistas como um investimento

À apresentação deste especialista seguiu-se o painel de debate, composto por José Bancaleiro, managing partner da Stanton Chase, Orlando Gomes, presidente do ISCAL, e Tiago Dias, diretor da Baker Tilly.

José Bancaleiro iniciou a discussão explicando que ter a equipa certa no momento certo é o mais difícil de alcançar. Acrescenta que, muitas vezes, os gestores ainda veem as pessoas como um custo e não como um investimento. "Se eu olhar para as pessoas como um custo, a minha função é cortar, cortar; se vir as pessoas como um investimento, então vou exigir o retorno", explica. Mudar o mindset é o mais difícil, mas através do coaching é possível alterar os padrões da cultura.

Orlando Gomes refere que as universidades são o início da linha do futuro dos profissionais e que prepararam os talentos não só com os conhecimentos mais técnicos - que são o pilar estrutural da profissão -, como apostam igualmente na formação de soft skills e boas atitudes, como a ética profissional. "Formamos bons profissionais, mas também queremos formar boas pessoas", diz. Além disso, estas gerações estão bem preparadas para os desafios da digitalização, e adaptam-se rapidamente às tecnologias. Estes profissionais caminham, cada vez mais, para o rumo de "consultores intelectuais".

Tiago Dias defendeu neste painel que as empresas de outsourcing e auditoria fornecem atividades de valor acrescentado. O outsourcing possibilita às empresas ter operações mais flexíveis, e aceder a consultores especializados com rigor e qualidade de trabalho, sem ter os custos iniciais de formação e recrutamento e ter acesso a tecnologias que não dispõem nas suas organizações. "O outsourcing permite ter maior eficiência, produtividade e logo mais competitividade", afirma. Esta é uma boa solução para esta profissão, que precisa de se adaptar aos novos desafios e às novas tecnologias.

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