Petróleo, Brasil e atrasos. O triângulo que fez desaparecer o lucro da TAP

A TAP deixou duas mensagens: grande parte das perdas não se podem repetir e não vão pedir dinheiro ao Estado.

O ano de 2018 foi o primeiro de Antonoaldo Neves ao comando da TAP. E o voo foi atribulado ou, como o próprio o definiu, “extremamente desafiante”. Apesar do recorde registado nas vendas, o grupo teve prejuízos de 118 milhões de euros - longe dos 21 milhões de lucros em 2017 -, sendo que 95 milhões estão associados a custos extraordinários e não recorrentes. Grande parte deles, sublinhou a administração, não se devem repetir. A subida dos preços do petróleo, a operação no Brasil e as indemnizações por atrasos são os três elementos que atiraram o grupo para o vermelho.

Mas vamos por partes. A subida do preço dos combustíveis foi, em 2018, o inimigo público número um da maioria das companhias aéreas. E a TAP não escapou. Os custos com combustíveis passaram de 580 milhões para 799 milhões de euros em 2018. Nesta diferença de mais de 200 milhões, cerca de 49 milhões foram motivados pelo aumento de voos, devendo-se os restantes 169 milhões à subida de preço da matéria-prima. Mas a empresa teve outro problema: não tinha uma política de proteção para a volatilidade dos preços dos combustíveis. Algo que já foi ultrapassado.

“A TAP criou uma política de proteção de preços de combustível. Quando o petróleo começou a cair de forma brusca no ano passado, aproveitámos para nos proteger, fazendo contratos de proteção de combustíveis futuros. Porque é que a TAP não fez isso antes? Esses contratos são feitos com bancos internacionais. E para que seja possível o banco precisa de aprovar crédito à companhia. Era algo que a TAP tinha muita dificuldade em conseguir no passado. Mas conseguimos abrir diversos canais de crédito com a banca internacional, o que permitiu que protegêssemos metade do nosso volume para 2019”, explicou Raffael Guaritá Quintas, diretor financeiro.

A pontualidade e o cancelamento de voos da TAP foram temas quentes em 2018. A paz social foi um dos fatores que contribuíram para minimizar atrasos, bem como a contratação de tripulação de cabina e pilotos. Mas o mal estava feito, com uma fatura de 41 milhões. A companhia cancelou 2490 voos, tendo pago 22 milhões em indemnizações e 19 milhões para fretar aviões para realizar voos para os quais não tinha aeronaves disponíveis.

Melhorar a pontualidade tem sido, por isso, uma das bandeiras. Várias medidas foram colocadas em prática, estando neste momento a pontualidade da TAP na casa dos 80%. “Tudo começou com o reconhecimento público de que tínhamos um problema de pontualidade. Investimos profundamente para melhorar. Passamos a ter três aviões de reserva desde junho. A pontualidade acumulada da TAP em 2019 está em 80%”, avançou Antonoaldo Neves, CEO da empresa.

Os prejuízos ficam ainda ligados à resolução de um problema crónico da TAP, a unidade manutenção no Brasil. Entre 2010 e 2017, a TAP SGPS transferiu 539 milhões de euros para a TAP ME Brasil.

Era necessário atacar o problema e por isso foi encerrada a base em Porto Alegre, o que levou ao despedimento de mil colaboradores. Foram gastos mais de 27 milhões para encerrar esta unidade e pagar as indemnizações aos trabalhadores afetados. Os serviços de manutenção foram concentrados no Rio de Janeiro. “No ano passado, enviámos para a TAP Brasil 30 milhões de euros, incluindo nesse valor os 27 milhões utilizados para fazer face à reestruturação e às demissões que aconteceram no Brasil”, garantiu o diretor financeiro.

Diversificação de mercados

As receitas da TAP aumentaram 9%, para os 3,25 mil milhões de euros, tendo transportado 15,8 milhões de passageiros no ano passado - mais 1,5 milhões do que em 2017. “Este crescimento de passageiros e receita da companhia são mais do dobro das concorrentes na Europa. É um crescimento notável de receita, apesar da desaceleração que houve no Brasil, um dos nossos principais mercados. Quase um quarto da receita da TAP veio do Brasil”, admitiu o CEO.

O peso desta geografia é ainda significativo, mas a palavra de ordem agora é diversificar mercados. A América do Norte é a grande aposta, existindo já oito rotas para estes destinos, apenas menos duas do que para o país de Vera Cruz. “O nosso crescimento de passageiros em todos os mercados foi excecional. A TAP teve um crescimento extraordinário na América do Norte: 10%. Passamos a transportar 800 mil clientes. A América Latina cresceu 7% e a Europa, não incluindo Portugal”, cresceu 11%.

Outra aposta da empresa que começa a dar frutos é a manutenção em Portugal. Antonoaldo Neves destacou que a empresa fez um investimento grande na oficina de motores e agora já vende serviço de alto valor agregado na manutenção de motores para grandes empresas. “Temos técnicos e engenheiros de qualidade que as maiores empresas europeias escolhem. Desafiei o grupo a dobrar o volume de manutenção de motores nos próximos cinco anos. Já aumentaram em 70% os serviços de manutenção de motores para terceiros.” A TAP é a quarta importadora em Portugal de bens manufaturados dada a importação de componentes para a manutenção de motores e a maior exportadora de serviços.

Antonoaldo Neves também não esquece os trabalhadores, elementos fundamentais para que o grupo tenha gerado mais receita. O grupo tem mais de 12 mil, dos quais mais de 1200 foram contratados em 2018. Este ano, a empresa quer integrar mais cerca de 500 pessoas.

Não há ajuda dos acionistas

Miguel Frasquilho, presidente do conselho de administração, voltou a referir que 2018 foi um “ano difícil”, não tendo corrido “como previsto” em termos de resultados. No entanto, isso “permitiu tirar lições para o futuro e é por isso que, apesar de ter sido difícil e desafiante, foi um ano em que a TAP não comprometeu o seu futuro. Muito pelo contrário, preparámos o futuro”.

O chairman vincou mesmo uma mensagem, depois secundada pelo acionista privado: “A TAP está hoje melhor e mais forte do que em 2015, com condições de honrar todos os seus compromissos financeiros. Não precisa de pedir dinheiro aos seus acionistas - incluindo o Estado.” E concluiu: “A TAP mantém intactas todas as condições para prosseguir o caminho de execução do seu plano de transformação.”

 

Estrutura. Entrada em bolsa começa a ser preparada

A TAP está a dar os primeiros passos para uma potencial entrada em bolsa. David Neeleman, do consórcio Atlantic Gateway, que detém 45% do capital da companhia, adiantou que a empresa está a preparar-se para fazer um IPO.

“Temos de fortalecer a empresa em capital. Fora da região do Golfo não conheço uma empresa desse tamanho, com 600 milhões de euros de dívida nos bancos portugueses, que não tenha capital aberto. Está a chegar o dia em que a gente tem de fazer isso. Estamos a preparar a empresa para o fazer”, adiantou durante a conferência de imprensa. A companhia aérea está assim a tomar medidas para, “quando for possível”, dispersar uma parte do seu capital em bolsa num futuro a médio/longo prazo. Além do consórcio, o Estado tem 50% do capital da TAP e os trabalhadores, 5%.

Turismo. Companhia trouxe 4 milhões de turistas ao país

A TAP transportou para Portugal quatro milhões de turistas em 2018. Estrangeiros que contribuíram com 5,5 mil milhões de euros em gastos, segundo contas da companhia. O número de americanos a chegar a Portugal tem sido um dos que mais crescem. Só em 2018 foram mais de 961 mil a ficar uma temporada, mais 173 mil do que em 2017.

Com o programa Stopover, os passageiros dos EUA podem fazer escala em Lisboa ou no Porto antes de chegarem ao destino final, sem custos adicionais. Este programa tem contribuído para o crescimento das visitas dos americanos a Portugal. Recentemente, a TAP lançou o Brasil Stopover com o objetivo de incentivar os passageiros europeus a escolher aquele destino. Os clientes Stopover vão poder ficar entre uma e cinco noites em cidades como Brasília, Recife, Rio de Janeiro, Fortaleza e Salvador.

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