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Porto Canal. O primeiro tiro na guerra dos conteúdos de futebol das operadoras

Fotografia: Fábio Poço/Global Imagens
Fotografia: Fábio Poço/Global Imagens

Primeiras negociações para rentabilizar os mais de 1,3 mil milhões que a NOS e a Meo pagaram aos clubes terminaram esta semana sem acordo.

Um mês e dez dias depois de ter enviado a primeira carta à NOS para negociar a distribuição do Porto Canal, a Meo suspendeu a emissão do sinal aos clientes da concorrente. “A Meo revelou-se irrazoável e inflexível, não tendo nunca apresentado qualquer proposta específica para a distribuição deste canal”, reagiu a operadora de Miguel Almeida. Foi a primeira salva numa guerra pelos conteúdos desportivos nos quais as duas operadoras vão investir mais de 1,3 mil milhões de euros, só com os contratos com o Benfica, Futebol Clube do Porto e Sporting.

Pelo meio ficou uma reunião a 13 de janeiro e uma acesa troca de correspondência que se prolongou durante o mês de janeiro e terminou a 10 de fevereiro, com a Meo a responder à proposta de reunião da NOS, com um ultimato: ou apresentavam uma contraproposta concreta, com valores financeiros, à feita pela Meo ou, ia mesmo, suspender a emissão do Porto Canal, sabe o Dinheiro Vivo. O que acabou por acontecer à meia noite de quinta-feira.

O mercado já reagiu. “São más notícias para o sector”, considera Pedro Oliveira, analista do BPI. “A nossa preocupação é que a luta por conteúdos alastre para outras frentes, nomeadamente para os preços, e o potencial para que a destruição de valor seja material”, continua o analista citado pela Reuters. “Um acordo de partilha de conteúdo seria sempre o mais benéfico para o sector”, diz Eduardo Silva, gestor da XTB, ao Dinheiro Vivo. “A guerra por conteúdo poderá alastrar-se para o preço”, continua. Ao não conseguir acompanhar a oferta da NOS – que assegurou os contratos com os dois clubes com maior massa associativa -, a Meo “poderá ver-se obrigada a baixar os preços, comprometendo as margens. Posição que a NOS terá mais dificuldade em seguir, dado o preço dos contratos que terá de rentabilizar”, diz o gestor da XTB. Cerca de 900 milhões de euros é quanto a NOS vai investir durante 12 anos para assegurar a distribuição do Benfica TV e Sporting TV, bem como dos direitos televisivos dos jogos dos dois clubes.

O acordo com o clube da Luz começa já a partir desta época, tanto para o canal como para os jogos; já o do Sporting tem timings distintos: para o canal é em 2017 e para os jogos dos Leões só a partir de 2018, altura em que termina o atual acordo com a PPTV de Joaquim Oliveira.

A Meo fechou com os Dragões em dezembro: 457,7 milhões de euros, para colocar a marca nas camisolas, ficar com os direitos televisivos dos jogos do clube e a distribuição do Porto Canal. Se no caso jogos terá que esperar por 2018, os direitos no canal são válidos já a partir de 1 de janeiro. O acordo com o Porto foi anunciado a 27 de dezembro e, logo no dia 30, a Meo contactou a NOS para negociar a distribuição do canal.

O acordo com a NOS e o canal já tinha terminado, mas a Meo informou a NOS que iria prolongar até 15 de janeiro a emissão do Porto Canal. No final do mês, avançou com uma proposta em que propunha a distribuição do Porto Canal, tendo como contrapartida o acesso aos canais do Benfica e do Sporting e que fosse aceite como princípio negocial a não exclusividade dos jogos do Benfica. Pedia uma resposta em cinco dias. Proposta que a NOS considerou que excedia a abrangência da negociação em torno do Porto Canal, tendo solicitado um prazo de 45 dias para analisar a proposta, sabe o Dinheiro Vivo. Numa fase posterior, a NOS pediu igualmente a reciprocidade no que toca ao princípio de não exclusividade sobre os direitos televisivos e canais detidos pela Meo.

Sobre o Porto Canal não há acordo, nem o mercado sabe em que moldes os jogos serão disponibilizados. Tanto do lado da Meo como da NOS – sobre o tema, o CEO Miguel Almeida disse apenas: “É nossa intenção que os jogos sejam facultados a todos os operadores. Em que canal é ainda prematuro, cenário Sport TV é possível entre muitos outros”.

Conteúdos exclusivos é algo que não é visto com bons olhos pela Autoridade da Concorrência que está a analisar os contratos feitos com os clubes. “Se for forçada a tomar uma decisão será no sentido de não permitir que uma operadora mantenha direitos exclusivos significativos para proteger o consumidor da inflação do preço dos conteúdos”, diz Eduardo Silva, da XTB, o que “gera pressão para um acordo entre as operadoras para a partilha do conteúdo”. E a Entidade Reguladora da Comunicação Social também está a “analisar” a suspensão do sinal do Porto Canal aos clientes da NOS, adiantou fonte oficial do regulador ao Dinheiro Vivo.

Então quem ganha com esta incerteza? A NOS tem do seu lado a vantagem de ter apenas de negociar com a Meo os direitos do FC Porto só a partir de 2018. Mas do lado da Meo, a pressão é já em junho, quando termina o acordo com o Benfica TV que, neste momento, emite os jogos em casa. A incerteza “aumenta o risco da exposição aos ativos e não beneficia nenhuma das partes”, diz Eduardo Silva. Mas, lembra o gestor da XTB, a duração dos contratos pressupõe estratégias de longo prazo que exigem negociações difíceis e é natural um período de incerteza no curto prazo, enquanto se procura uma solução”.

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