Automóvel

“Portugal menos competitivo” por falta de ligação ferroviária a Espanha

Jorge Rosa, presidente dos cluster automóvel Mobinov.
(Filipe Amorim / Global Imagens)
Jorge Rosa, presidente dos cluster automóvel Mobinov. (Filipe Amorim / Global Imagens)

Presidente da Mobinov, Jorge Rosa, avisa que as universidades e politécnicos não estão a produzir talento suficiente para a indústria automóvel.

Promover a formação nas universidades e apostar na ligação ferroviária a Espanha. Estas são as duas prioridades do cluster automóvel Mobinov, que assinou, em abril, um pacto para a competitividade com o Governo e que pretende promover financiamentos para a indústria 4.0, capacitar recursos humanos e promover a negociação de legislação associada à circulação de veículos movidos por fontes de energia alternativas.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Jorge Rosa, presidente da Mobinov, assinala que a maior transformação em Portugal na indústria automóvel vai ocorrer sobretudo nas unidades de componentes e não nas linhas de montagem.

O cluster, que reúne os fabricantes de carros e de peças e ainda o comércio automóvel, registou no ano passado um volume de negócios de 13,7 mil milhões de euros (7,1% do PIB) e dá emprego a 75 mil pessoas.

O que precisa Portugal de fazer para estar preparado para a revolução no automóvel?

Portugal tem de ser competitivo em várias dimensões – que foram incluídas no pacto – para se poder internacionalizar. O país tem de promover a modernização do setor industrial, captar mais investimento, estar alinhado com a transição energética e com as tendências do mercado, como a mobilidade e a conectividade. Só a criação do cluster automóvel já é muito importante, porque pela primeira vez se juntaram os construtores, fabricantes de componentes e os centros de conhecimento. Também temos connosco as associações ACAP e a AFIA. O Governo também reconheceu o impacto do setor na economia: são 75 mil empregos e 13,7 mil milhões de volume de negócios, que corresponde a 7,1% do PIB.

De que mudanças as fábricas portuguesas vão precisar para se adaptarem a esta evolução?

As maiores mudanças vão estar do lado das fábricas de componentes. Nas unidades de fabricação de carros, as alterações não serão muito profundas: em vez de produzirem automóveis com motor de combustão, serão carros movidos a baterias, o que não implica grandes mudanças no processo, pelo menos na próxima década. Nos fabricantes de componentes, o cenário será outro: o motor elétrico implica outras peças, materiais mais leves, avançados e mesmo compósitos.

As fábricas de peças já estão devidamente preparadas para esta mudança? Que investimento pode implicar esta transformação?

Há algumas empresas que já estão a preparar-se para as mudanças. Outras, continuam com os processos tradicionais. Mas também terão de se transformar. São 1000 empresas só nesta indústria, em diferentes fases de desenvolvimento. A ACAP e a AFIA terão de saber apoiar as empresas que estão mais atrasadas. O apoio do Governo, sobretudo a nível de investimento, também terá de avançar, sobretudo para as empresas com mais dificuldades.

O apoio do Governo deve ser mais financeiro ou de outra ordem?

Apoio financeiro, sem dúvida. Mas também é preciso ajudar na área dos recursos humanos. É preciso formar pessoas para o novo ciclo de produto na área automóvel.

Que qualificações serão necessárias?

As novas tecnologias requerem novas competências. É preciso apostar muito nas engenharias, sobretudo informáticas, por causa das tecnologias. Também continuarão a ser precisas pessoas na área da estampagem, mas com muitos processos automatizados. Até os operadores manuais terão de ter mais qualificações.

Portugal está a formar pessoas suficientes para a indústria automóvel, considerando que há cada vez mais tecnológicas a instalarem-se cá e a recrutar engenheiros?

O país tem sido muito atrativo para as tecnológicas, o que retira às empresas automóveis alguma atratividade no recrutamento. É um risco e os poderes públicos estão alertados para isso: não estamos a produzir talento em quantidade suficiente nas universidades e politécnicos.

Isso poderá levar as fábricas a reconverter mais operários ou até ir buscar pessoas ao estrangeiro?

Eventualmente, terão de acontecer as duas coisas. As empresas vão ter de reformar os seus ativos, que não podem ser descartados e que podem aprender novas tecnologias. Em último caso, não se pode excluir o recrutamento no exterior do país.

Em que posição Portugal está nesta transformação na Europa?

Nem nos países mais avançados, nem nos mais atrasados. Estamos a meio caminho. É preciso conquistar mais investimento.

O cluster automóvel emprega 75 mil pessoas. É um número que vai se manter, com a digitalização da indústria?

Haverá uma transformação do emprego e não necessariamente uma redução. Se conseguirmos captar mais projetos internacionais, o emprego até poderá crescer.

Que projetos a indústria automóvel nacional pode atrair nos próximos anos?

A criação de uma nova fábrica de automóveis é um desejo de há vários anos e seria absolutamente decisivo. Sabemos os efeitos gerados por duas grandes unidades em Portugal [Autoeuropa e PSA Mangualde] no tecido industrial. Na área dos componentes, há um potencial enorme. Estamos colados a Espanha, o segundo maior produtor de automóveis da Europa. É uma posição privilegiada e sabemos que foram feitos muitos investimentos na área das peças, com destino a Espanha. O posicionamento periférico até pode ter algumas vantagens. Chegar ao centro da Europa é outro desejo do setor. Mas aí levantam-se obstáculos. As linhas férreas são um dos principais desafios. Temos discutido isso com o Governo, mas não tem sido fácil. Só conseguimos chegar à Europa de camião, praticamente. O transporte ferroviário é inexistente e põe em causa a nossa competitividade, sobretudo a nível logístico. Faria sentido ligações ferroviárias em condições para os centros logísticos espanhóis.

O que está a perder Portugal por não apostar na ferrovia?

Portugal está a perder competitividade. O transporte ferroviário é a solução mais económica. Quando se avalia um novo projeto para o país, os custos logísticos são olhados e são um fator de decisão cada vez mais importante. A ausência de escoamento de produtos por via férrea é uma condicionante muito importante. Estamos muito atrasados nesta matéria e temos visto muitas decisões adiadas.

Grande parte das peças produzidas em Portugal vai parar a Espanha, França, Alemanha e Itália. É possível apostar noutros mercados?

Conceptualmente, sim. Mas as grandes fabricantes de carros estão no centro da Europa e as empresas de componentes têm de cingir-se a isso. A Ásia seria um mercado interessante mas é muito difícil ser competitivo nesta região. A Europa de Leste já não é competitiva como há uns anos. Mas Marrocos é um grande concorrente e tem sabido posicionar-se muito bem.

Marrocos pode roubar protagonismo a Portugal?

Marrocos tem salários muito baixos e Portugal não quer entrar nesse campeonato. São apenas muito competitivos. Em Portugal, temos um histórico de conhecimento e de produção automóvel que não existe em Marrocos. Fazer parte da União Europeia também é um elemento muito importante para nós. É muito importante vender a marca Portugal aos fabricantes, porque ainda há algum desconhecimento sobre as capacidades da nossa indústria.

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