Indústria 4.0

Portugal pode ser “zona franca tecnológica”

Fotografia: direitos reservados
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O desenvolvimento de processos de "inteligência conectiva entre organizações portuguesas e internacionais" pode ser uma oportunidade para Portugal.

Portugal pode assumir um papel determinante no desenvolvimento da Indústria 4.0, não só ao nível da criação tecnológica, mas também na criação de espaços para testar as novas tecnologias. Este foi uma das principais ideias defendidas no debate “Indústria 4.0: Para onde caminhamos?”, promovido pelo grupo Portugal XXI.

José Felizardo, CEO da CEiiA, defendeu o desenvolvimento de processos de “inteligência conectiva entre as organizações portuguesas e as internacionais” que permitisse a Portugal fornecer zonas de testes para empresas como a Apple, a Google ou a Tesla. Para o responsável, uma das grandes apostas do país deveria passar por constituir “uma zona franca tecnológica”.

O responsável falava sobre a aplicação da inteligência artificial aos automóveis, relacionada sobretudo com a gestão de informação do veículo ao nível da “interação com a cidade, com o utilizador e com todos os operadores”. O “grande desafio” relacionado com as funções autónomas que os veículos passarão a ter e com os respetivos testes necessários foi apontada por José Felizardo como uma oportunidade para Portugal.

António Vidigal, CEO da EDP Inovação, reiterou a ideia: “Há muitos anos ambiciono que Portugal possa ser um living lab destas tecnologias.” A aposta de Vidigal recai sobretudo sobre o movimento das empresas para a cloud, uma tecnologia que permite a qualquer país “estar no centro do mundo”. Além de Portugal ter potencial para afirmar-se como um centro de competências mundial, o responsável defende que as novas indústrias trarão, por arrasto, novas empresas e indústrias tradicionais.

Sobre o desafio com que as empresas se deparam neste momento – a digitalização da atividade – o responsável da EDP Inovação acredita que “as coisas vão mudar para melhor”, ainda que não seja para todos. “A obrigação de todas as empresas é adotar um paradigma de aprendizagem constante”, defendeu. Ideia esta reiterada por José Felizardo: “Aquilo que normalmente vemos como uma ameaça quando aparece uma tecnologia substituta é um desafio ao qual está associado um espaço de oportunidades. Há empresas que vão vingar e que se vão destacar e outras que não vão ter tanto sucesso. A componente da informação é determinante. Aceder a essa informação é um fator crítico.”

Bruno Costa Cabral, partner da Deloitte, destacou outro dos desafios: acolher os millennials no mercado de trabalho. Na consultora, são contratados 400 por ano e a média de idades dos trabalhadores é de 27 anos. Mas o responsável reconhece que na indústria tradicional poder ser mais difícil: “Os ambientes de trabalho são diferentes, as estruturas são muito mais hierárquicas, a propensão para a digitalização é mais fraca, não há abertura do management para novos mecanismos e novas formas de trabalhar – e é esta abertura que vai ter que acontecer nas empresas que se querem modernizar e reter ou ir buscar os millennials.”

Paula Panarra, diretora-geral da Microsoft Portugal, defende que é necessária, nas empresas, “alguma intranquilidade que leve à ação” para o novo desafio digital. “Quando falamos em tecnologias como a inteligência artificial, estamos a falar de algo que começou há muitos anos. A diferença é a capacidade que temos hoje de tornar isso uma realidade acessível.” Entre os grandes ganhos da incorporação de tecnologia nos processos produtivos, a responsável destacou a “a inteligência que as empresas passam a ter sobre a sua cadeia de valor e o que podem fazer com ela: ser mais eficazes, mais eficientes, mais diferenciadoras, mais rápidas, mais competitivas”. Mas defendeu, também, com com isso virá a alteração das profissões: “Todas as revoluções, após os primeiros tempos, acabaram por criar mais trabalho porque trazem novas oportunidades, novas formas de fazer, novas profissões. Cabe-nos, enquanto país, fazer uma aposta grande na formação. Mas a oportunidade é enorme.”

Sobre a retenção de novos talentos, destacou desafios como os novos modelos de trabalho, a especialização e a necessidade constante “de aprendizagem, desenvolvimento e crescimento”, muito valorizada pela nova geração. No caso da Microsoft – diz – “[o desafio] não é tanto a adoção de mecanismos de trabalho que permitam aos nativos digitais estar no seu ambiente, mas trazer as mais valias do seu background e do seu conhecimento para o desenvolvimento de novos produtos e novos processos”.

Em relação às potencialidades dos portugueses para abraçar o novo desafio digital, António Vidigal ressalvou que “a evolução vai ser de tal forma grande que não podemos saber para onde vamos” e que, nesse sentido, é determinante estar preparado para tudo: “E considero que nisso o português é bom”. Mas há um problema óbvio a resolver, a aversão ao risco.

José Felizardo acredita que Portugal reúne agora as condições necessárias para abraçar esta revolução industrial, entre as quais destacou o nível de qualificação e a capacidade de atrair talentos. Mas ressalvou a necessidade de não esquecer um factor por detrás desta revolução: o tempo. “O tempo de introdução de novos produtos e serviços é de meses e não de décadas, como nas outras revoluções. O desenvolvimento e a produção quantificam-se em horas. O que está em causa é prepararmo-nos rapidamente para termos flexibilidade para introduzir novos processos produtivos, conseguir maior eficácia nos sistemas de gestão e adequar o funcionamento da máquina publica ao novo funcionamento da indústria. O 4.0 não é um fenómeno tecnológico, é um fenómeno social, o que implica que todos os setores da sociedade possam convergir.”

 

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