Não se comprava tão poucos carros desde último ano da troika. Só luxo resiste

Automóveis híbridos e elétricos tiveram melhor ano de sempre, apesar de as vendas terem caído em mais de um terço. Apenas três marcas conseguiram mais matrículas no ano passado do que em 2019.

A pandemia atirou o mercado automóvel para o último ano da troika em Portugal. Em 2020, foram matriculados 176 992 veículos, menos 33,9% face a 2019, revelaram ontem os dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP). É preciso recuar a 2014, último ano da troika, para encontrar um número tão baixo nos últimos anos: 172 357 unidades.

O fecho dos concessionários entre meados de março e o final de abril teve forte impacto na primeira metade do ano. Mas a covid-19 retirou muitos dos turistas que habitualmente visitavam Portugal. As agências de aluguer de automóveis travaram bruscamente as compras e explicam a quebra de 35% na venda de ligeiros de passageiros.

"O rent-a-car era um canal fundamental para a nossa indústria e registou quebras nas aquisições acima dos 70%", destaca ao Dinheiro Vivo o secretário-geral da ACAP, Hélder Pedro.

O último ano também reforçou a compra de automóveis que não se movem apenas a gasolina ou a gasóleo. Depois de ter ficado com 49,2% do mercado em 2019, a quota dos carros da gasolina caiu para 44,2%. No gasóleo, depois da perda da liderança em 2019, o peso nas vendas recuou de 40% para 32,8%.

Os híbridos plug-in (com ficha de carregamento), os híbridos convencionais e os elétricos tiveram o melhor ano de sempre. Em conjunto, representaram mais de um quinto das vendas (22,8%).

Os híbridos plug-in e os híbridos convencionais registaram, cada um, uma quota de mercado de 8,1%. Os automóveis elétricos já representam 5,4% das vendas.

As associações do setor recusam, contudo, falar numa súbita consciência dos portugueses pelas emissões e recordam que dezembro foi o melhor mês do ano para estes veículos.

"Houve muitas marcas que tiveram de registar matrículas para beneficiarem dos descontos", atenta o líder da associação ARAN, Rodrigo Ferreira da Silva. Da ACAP, Hélder Pedro admite que houve uma "antecipação das matrículas por causa das mudanças fiscais".

No final de novembro, foi aprovada a proposta do PAN para os híbridos apresentarem uma autonomia em modo elétrico superior a 50 quilómetros e emissões oficiais abaixo dos 50 gramas de dióxido de carbono por quilómetro. Algo impossível medir nos híbridos sem ficha de carregamento e que os leva a pagar a totalidade do ISV, imposto cobrado na compra de um veículo. Até então, tinham um desconto de 40% no imposto.

Os plug-ins que não cumprirem os 50/50 também deixaram de beneficiar da taxa intermédia de 25% do ISV.

A proposta do PAN também mexe nas taxas de tributação autónoma aplicadas aos PHEV. Os veículos que não cumprirem a regra 50/50 passam a contar com as taxas aplicadas aos restantes automóveis (excluindo os elétricos): 10% para carros inferiores a 27 500 euros; 27,5% para unidades entre 27 500 e 35 mil euros; 35% para automóveis acima dos 35 mil euros. Quem cumprir a regra, continua a beneficiar de taxas de 5%, 10% e 17,5%, respetivamente.

Automóveis de luxo resistem

Entre as 50 marcas com matrículas em Portugal, apenas três, todas no segmento de luxo, conseguiram aumentar as vendas no ano passado: Porsche, Ferrari e Aston Martin.

A Porsche registou 831 unidades, o que compara com as 749 matrículas de 2019. Para comprar um carro da marca de Estugarda são necessários, pelo menos, mais de 71 mil euros.

A Ferrari vendeu 30 unidades, mais quatro do que em 2019. O modelo mais barato da marca italiana de superdesportivos custa pelo menos 235 mil euros.

A Aston Martin conseguiu vender mais um carro do que em 2019, passando das seis para as sete matrículas em 2020. Para ter um modelo da marca britânica na garagem são necessários pelo menos 210 mil euros, ou seja mais de 315 salários mínimos.

A britânica Bentley vendeu 21 carros como em 2019. Pior desempenho tiveram a Lamborghini e a Maserati: a Lamborghini matriculou 15 superdesportivos, menos quatro do que em 2019. Na Maserati, a travagem foi mais expressiva, das 16 para as sete unidades, menos de metade.

Contas feitas, as marcas de luxo ficaram imunes ao coronavírus: venderam 911 automóveis no ano passado, mais 8,9% do que em 2019.

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