Preço da aguardente dispara e arrasta vinho do Porto

Caves de vinho do Porto
Caves de vinho do Porto

Os produtores de vinho do Porto estão a perder milhões – os custos dispararam, uma vez que o preço da aguardente, que é usada para fortificar o seu vinho, mais que duplicou desde 2011, mas não podem aumentar os preços ao consumidor para não perderem mais quota de mercado. E o pior é que, como cada vez há menos vinho para destilação, devido a um aumento da procura e à quebra na produção, estão a ser obrigados a reservar e a pagar já a aguardente da próxima vindima.

Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, dona da Taylor”s, Fonseca e Croft, adiantou ao Dinheiro Vivo que, em média, a aguardente está a custar 3,70 a 4 euros/litro, quando em 2012 rondava 2,55 e um ano antes não excedia 1,60 euros. A subida de preço obrigou a reservar já em maio a aguardente para setembro, quando em janeiro pagou, como é habitual, a da vindima passada. Um esforço acrescido numa altura em que o financiamento bancário não abunda.

“Isto teve um peso de oito milhões de euros no nosso cash flow”, diz Adrian Bridge, acrescentando que só a subida do preço representa um custo acrescido de um milhão. O que significa mais 20 a 22 cêntimos no custo de produção de cada garrafa de vinho Porto.

António Saraiva, da Rozès e São Pedro das Águias, aponta um custo acrescido por garrafa de 20 a 25 cêntimos. Mas garante que não pode repercuti-lo no preço final. “No ano passado conseguimos um ligeiro aumento, até por via da escassez de stocks. Claro que não foi suficiente para cobrir a subida de custos dos produtos secos [garrafas, rolhas…], mas o vinho do Porto não é um artigo de primeira necessidade e, na atual conjuntura, se as margens já não estavam famosas, pior ficam.” Recorde-se que o vinho do Porto conta com uma adição de aguardente de 20% a 22%, em média.

E a que se deve este inflacionar dos preços da aguardente vínica? Por um lado, à decisão de a UE de pôr fim às ajudas à destilação do álcool de boca, por outro, a dois a três anos de colheitas extremamente pequenas quer na Europa quer no novo mundo vitícola, o que fez desaparecer ‘stocks’ e escassear o vinho de mesa para destilar.

A isto soma-se “uma quebra nas culturas de cereais para produção de álcool para bebidas espirituosas no Leste europeu, que provocou também uma maior procura de vinho para destilação”, refere Jorge Dias. O diretor-geral da Gran Cruz Porto estima em mais de 11 milhões o sobrecusto destes aumentos para o conjunto do sector, em 2012, e em 6,5 milhões este ano.

Apesar de tudo, a pressão especulativa já baixou um pouco, garante Adrian Bridge. Em janeiro, a aguardente chegou a atingir 4,10 euros/litro, mas “um terço da produção da vindima de La Mancha ficou por vender e foi absorvida para destilar, o que baixou um pouco os preços”.

“As empresas já estão com margens extremamente reduzidas, fruto da quebra de preços que se assistiu, sobretudo entre 2007 e 2011”, diz Jorge Dias. Este ano conseguiram transferir para o mercado uma parte do sobrecusto (cerca de 5%), mas no próximo é necessário subir novamente os preços. “Vamos ver se conseguimos…”, diz.

Mais otimista está o maior grupo português de vinhos, a Sogrape, que acredita que a situação da aguardente já estabilizou. Fonte da empresa reconhece que o custo no ano passado praticamente duplicou, mas assegura que o agravamento nas suas marcas Ferreira, Sandeman e Offley foi sobretudo suportado pela Sogrape.

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