Restrições Horeca. "Para alguns projetos de cerveja artesanal poderão ser o golpe final numa luta inglória desde março"

Bruno Aquino, do Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais, faz um retrato do sector onde a pandemia não passou ao lado. "De que servem os apoios se não se pode realizar festivais cervejeiros? Se os bares e discotecas permanecem fechados?".

Da euforia à luta para manter as microcervejarias abertas. Em poucos meses foi este o impacto da pandemia no sector das cervejeiras artesanais, relata Bruno Aquino, da organização do Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais. O verão ainda deu algum alento, mas a "explosão" da pandemia e as maiores restrições aos restaurantes e cafés ao nível de horários - com fecho a partir das 13h em muitos concelhos - tirou novamente o gás.

Este ano o Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais recebeu um número recorde de receitas de cerveja: 120. Com João Brazão, com a "Nothing Realy Ends" a vencer na categoria Belgian IPA; Franco Accarpio, com a "42" a ganhar na categoria Experimental Beer, já na categoria Lager, o primeiro lugar foi para Pedro Cunha, com uma Mixed-Style Beer chamada "Fator K"; e, na categoria Ale, o troféu foi para o Algarve, para o Dionísio Alves, com a "Treme Treme", uma Wild Specialty Beer.

Mas também o concurso - que iria ter duas sessões - também foi impactado com o jurados a serem impedidos de seguir para Coimbra por causa das restrições de circulação entre concelhos.

"Existem um pouco mais de 100 marcas de cerveja artesanal diferentes em Portugal. Para já, quase todas têm demonstrado enorme estoicismo e capacidade de superação das dificuldades", diz o Bruno Aquino, especialista em cerveja e o autor do livro "Uma viagem pelo mundo da cerveja artesanal portuguesa", editado pela Casa das Letras em 2019.

É a 8ª edição do Concurso Nacional de Cervejas Caseiras e Artesanais com números recorde de receitas de cerveja a concurso. Só isso daria a sensação que o sector das micro-cervejarias está a viver momento de pujança. Face à atual pandemia, imagino que não seja mesmo assim. Qual é o retrato do sector?

Se esta conversa tivesse decorrido antes de março, certamente que a imagem do setor seria a de um mercado em franca expansão, com um número crescente de novas marcas, novos locais onde beber cerveja, recordes no número de litros produzidos e vendidos. Após o início da situação pandémica, a fase de confinamento quase total e o recrudescimento de casos da covid-19 já no outono, a verdade é que, tal como a economia em geral, o mercado das cervejas artesanais tem vindo a sofrer dificuldades graduais.

São várias as causas para essa situação, nomeadamente a quase inexistência de turistas, assim como a retração compreensível no consumo de produtos não essenciais, as restrições de horários de restaurantes e bares, tudo contrariedades que originam uma significativa descida no volume das vendas, não só das cervejas artesanais em si, mas de todo o mercado cervejeiro no global.

Contrariamente, o recorde no número de inscrições do concurso pode advir, curiosamente, do próprio período pandémico, considerando que um maior número de pessoas está em casa, com mais tempo, tendo muitas delas regressado - ou mesmo iniciado - ao hobby da produção de cerveja caseira (homebrewing). Por outro lado, o concurso tem-se cimentado como um marco no ano da comunidade cervejeira portuguesa, pelo que a sua credibilidade e notoriedade fomentam, como é compreensível, uma crescente participação dos cervejeiros nacionais.

Em outubro, o responsável dos Cervejeiros de Portugal relatava um ano para o sector de redução média de 34% de consumo de cerveja na restauração e similares, sendo que no caso dos microcervejeiros essa quebra seria superior a 60%. Estamos em dezembro, o cenário mantém-se?

Houve uma fase de algum alívio, durante o período do verão, resultante da redução das medidas de contenção da pandemia, face aos números então existentes, algo que permitiu algum fluxo turístico, mais saídas em família ou com amigos, em ambiente de confraternização, situações que mitigaram, momentaneamente, os duros meses anteriores.

Com as determinações que agora estão a ser implementadas pelo Governo e pelas autoridades de saúde, facilmente se depreende que este mercado, assim como os da restauração ou hotelaria, irão ou estão mesmo já a enfrentar, novamente, problemas muito significativos. O estabelecimento do estado de emergência, com o comércio praticamente fechado a partir das 13h, tem implicações calamitosas para um mercado que apresenta quebras tão expressivas.

Ainda que haja diversos estudos que sugerem que, durante o período de confinamento, o consumo de bebidas alcoólicas em ambiente domiciliário tenha subido substancialmente, esse aumento não foi suficiente para compensar as perdas entretanto sofridas, pelo que diria que o cenário se mantém e vai ter tendência para agravar-se.

Que impacto antecipa que as novas medidas de restrição, impostas a mais de 190 concelhos, que afeta o Horeca, possa ter no sector?

Os efeitos serão muito intensos e, para alguns projetos, poderão ser o golpe final numa luta inglória que se verifica desde março deste ano. Têm sido mudanças de horários constantes, indicações de que só se pode consumir bebidas alcoólicas se se estiver a comer, de que só pode haver take-away, alterações sucessivas que não criam a necessária estabilidade e ainda afastam mais o consumidor. Não obstante, todos os players do mercado concordam com a implementação de medidas que sirvam para diminuir a evolução dos contágios e melhorar os números da situação pandémica no país. Mas seria importante estabelecer linhas diretrizes que pudessem ser seguidas a médio/longo prazo, possibilitando às empresas, e no caso em concreto às microcervejeiras, definir melhor os seus planos de negócio e mesmo os seus planos de contingência.

Atente-se, por exemplo, que em 2020 praticamente não houve festivais de cerveja que, para além de serem momentos de confraternização da comunidade cervejeira, são também locais essenciais para apresentação de novos produtos, conquista de novos consumidores, para além de movimentarem um número significativo de pessoas que os preparam e organizam.

Portanto, ter vários fins de semana onde o horário de abertura poderá ser apenas entre as 08h/09h e as 13h, para uma loja que, por exemplo, venda cerveja artesanal, não faz qualquer sentido sequer abrir portas. E é o que acontecerá com a maioria, pelo que tenho conhecimento. É mais uma dificuldade que muitos pequenos negócios desta área terão de superar.

A pandemia já levou a grupos como o Super Bock Bock a avançar para uma reestruturação, no inquérito da AHRESP restauração admite avançar para a insolvência. E o sector? Tem havido fechos, despedimentos...

Sim, infelizmente já desapareceram alguns projetos, enquanto outros foram colocados em pausa. Deve-se compreender que, antes do período pandémico, o setor da cerveja artesanal vivia um estágio de quase euforia. Números de crescimento notáveis, qualidade das cervejas reconhecida interna e externamente, constante aparecimento de novas marcas. Naturalmente, isso redundou na vontade das microcervejeiras em expandir o seu negócio, através da aquisição de novas instalações, aumento da capacidade de produção, criação de brewpubs e tap-rooms, investimentos esses que, se a evolução do mercado se mantivesse, teriam um retorno a breve trecho. Mas, como se percebe, o SARS-CoV-2 impede que se comece a recuperar tudo aquilo que se investiu.

Ainda assim, e para já, são poucas as lojas ou marcas de cerveja artesanal que encerraram as portas. Recorde-se que muitos destes projetos são familiares ou de empresas que têm poucos trabalhadores, pelo que tem sido possível manter a grande maioria dos postos de trabalho. Há enorme resiliência no setor e um grande espírito de entreajuda, apesar de, evidentemente, haver uma inegável preocupação sobre como vai ser o futuro, considerando que ainda nem se chegou ao inverno que é, historicamente, um período de menores vendas na área cervejeira.

O Governo já anunciou novas medidas de apoio, em microempresas e PME. Como comenta? Poderá ser bóia de salvação para os microcervejeiros ou fica aquém do que verdadeiramente necessitam?

Verdadeiramente, o que os cervejeiros gostariam é que o consumo voltasse ao normal, o turismo regressasse e se retornasse à tendência de crescimento dos últimos anos.

Compreensivelmente, o regime de lay-off simplificado ou as moratórias, para além de outras medidas vertidas, por exemplo, no Programa de Estabilização Económica e Social, podem ter conseguido manter algumas marcas à tona durante alguns meses, mas em muitas situações apenas se está a empurrar os problemas para o futuro.

O Governo ainda está a preparar mais medidas de apoio à restauração, tendo já anunciado novas linhas de crédito e o programa Apoiar.pt. Há que verificar quais são as condições de acesso, facilidade de adesão e burocracia associada, mas duvido que muitas das microempresas deste setor entendam aceder a este tipo de iniciativas. Não obstante, de que servem os apoios se não se pode realizar festivais cervejeiros? Se os bares e discotecas permanecem fechados? Se os espaços onde se consome cerveja artesanal têm de fechar às 22h ou mesmo antes?

Assumir que a economia e este setor em específico passam por enormes dificuldades é um primeiro passo. Mas muitas medidas já anunciadas não parecem ser suficientes para evitar um colapso global das empresas desta área. Recorde-se que a AHRESP prevê níveis de despedimentos a rondar os 45% na restauração e os 25% na hotelaria. Não são novas linhas de crédito que vão solucionar os problemas que se fazem sentir desde março.

Que medidas fariam sentido para apoiar verdadeiramente o sector?

A AHRESP apresentou, recentemente, um programa com 10 medidas para evitar a destruição de empresas e de empregos. São sugestões práticas, com efeitos imediatos na tesouraria das empresas, ao contrário de programas e créditos bancários que, apesar da sua bonomia, têm um impacto diminuto na salvação das microempresas deste setor no imediato.

Salientaria, por isso, a possibilidade de aplicação temporária da taxa reduzida de IVA aos serviços de alimentação e bebidas, a aplicação de taxa zero do IEC da cerveja em 2021 para os microcervejeiros, a isenção da TSU até ao final do ano, assim como a extensão do regime de lay-off simplificado. Igualmente importante seria o estabelecimento de moratórias sobre rendas ou sobre aspetos fiscais e contributivos. Estas medidas, sim, teriam efeitos imediatos sobre micro e pequenas empresas que, há mais de um semestre, lutam no seu dia-a-dia para sobreviver.

O Governo não mexeu no IABA, mas antecipa um aumento da receita fiscal, de 10 milhões por essa via. Como comenta?

Essa é uma pergunta que terá de ser feita ao Governo e aos técnicos do Ministério das Finanças. Considerando a significativa quebra que houve no consumo de cerveja durante 2020, a não ser que apareça uma cura milagrosa ou a famosa vacina comece a ter uma distribuição global muito rápida e a sua efetividade se revele significativa, permitindo às pessoas retomar a uma normalidade pós-pandémica, não estou a ver como poderá a receita fiscal aumentar no âmbito deste imposto.

Em julho, foi conhecido que uma microcervejaria, a Praxis de Coimbra, desenvolveu para o Lidl três variedades de cervejas artesanais, exclusivas da cadeia de retalho, as Tuga. Há mais casos assim?

No mercado das cervejas artesanais não é incomum haver projetos colaborativos e processos de produção baseados naquilo que costumamos designar como contract brewing. Nesse âmbito, algumas marcas não têm instalação própria (gipsy brewery), preferindo elaborar as suas cervejas em unidades de outras marcas, que têm capacidade instalada para o fazer.

Assim, é muito positivo ver uma marca como o Lidl a apostar numa reconhecida cervejeira portuguesa como a Praxis, sendo até desejável que mais situações como essa possam surgir. Em verdade, a Praxis também elabora as cervejas Onyx e Topázio para a Hoppy House, que pertence ao universo da Sociedade Central de Cervejas, assim como tivemos o exemplo da Loba, também da Hoppy House e realizada na Post Scriptum Brewery. É um dos modelos deste negócio, sendo extremamente relevante que marcas internacionais apostem nos micro e pequenos produtores de cerveja nacionais.

O retalho alimentar - seja como canal de venda - seja como comprador para produto de marca própria poderá ser um canal mais explorado pelos cervejeiros? O que já representa? Qual o seu peso face à produção, faturação, litros vendidos...

A questão deve ser colocada ao contrário: espera-se que o retalho alimentar dê cada vez mais atenção aos produtores de cerveja artesanal portugueses, assim como os chefs nacionais. É angustiante continuarmos a ver os melhores restaurantes portugueses com uma fantástica carta de vinhos e apenas uma ou duas marcas de cerveja, estas últimas que todos conhecemos e que podemos encontrar em qualquer snack-bar ou supermercado. Recorrentemente ouvimos os nossos chefs a falarem que vão aos mercados escolher os melhores produtos hortícolas ou que têm pequenos produtores locais fornecedores de queijos e frutas. E quanto à cerveja? Opta-se pelo mínimo, com natural prejuízo do consumidor.

Muitos sectores viraram-se para o digital. A dona da Sagres criou loja na Uber, a Sovina vendeu em marketplace, dando apenas dois exemplos. O digital ajudou a escoar vendas para o sector? Ou os resultados foram ínfimos face às perdas registadas?

No início da pandemia no nosso país, em março, e especialmente durante a fase de confinamento, muitas marcas aperceberam-se que as vendas online poderiam ser um caminho para minimizar as enormes perdas que já se começavam a fazer sentir. Entretanto, a maioria das cervejeiras artesanais apresentaram as suas lojas virtuais, assim como surgiram outros projetos como clubes de cerveja ou novas empresas distribuidoras a funcionar totalmente em e-commerce.

Não é essa vertente que vai salvar os negócios que estejam em grandes dificuldades, mas acredito que era uma área que estava algo descurada e que, cada vez mais, está a merecer a atenção das marcas.

Para já, as vendas por esse método não são suficientes para recuperar tudo o que se tem perdido nos canais normais. Mas considerando a fase que atravessamos, todas e quaisquer vendas ajudam.

Há um ano, o que era o sector ao nível de casas de produção e litros produzidos? O que conta que sobreviva até ao final de 2020 e que litros sejam produzidos?

Estamos a falar de um mercado muito variado, onde há marcas com 1 ou 2 funcionários e outras que já têm cerca de duas dezenas de colaboradores. É, também, um mercado muito volátil, com muitas novas marcas a chegarem sistematicamente e outras, por outro lado, a deixarem de existir. Perante esta flutuação, é muito difícil estimar o número de litros produzidos ou o número de empresas que, de facto, estão atualmente a comercializar cerveja artesanal.

Atente-se, igualmente, que muitas marcas têm uma distribuição verdadeiramente local ou no máximo regional, sendo apenas possível degustá-las numa dada cidade, concelho ou região.

Ainda assim, diria que existem um pouco mais de 100 marcas de cerveja artesanal diferentes em Portugal. Para já, quase todas têm demonstrado enorme estoicismo e capacidade de superação das dificuldades. Mas vamos entrar no inverno, um período tipicamente fraco para este mercado, que se segue a um verão que foi, também ele, muito inferior em termos de vendas previsto.

É nestas fases que o consumidor pode assumir atitudes de defesa das micro, pequenas e médias empresas nacionais, preferindo consumir marcas portuguesas e apoiando os projetos locais e artesanais. Até porque, em termos de qualidade, e no que concerne à cerveja, os nossos produtos estão ao nível do melhor que se vai fazendo lá fora.

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