Energia

Ribeiro da Silva: “Os tarifários na energia serão cada vez menos lineares”

O presidente da Endesa em Portugal, Nuno Ribeiro da Silva
O presidente da Endesa em Portugal, Nuno Ribeiro da Silva

Presidente da Endesa refuta críticas da Deco aos novos tarifários de preço fixo mensal e garante que futuro passa por preços cada vez mais complexos.

A Deco não poupou críticas aos novos tarifários de valor fixo mensal da Endesa – os power packs -, tendo mesmo feito uma denúncia à Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) e à Direção Geral de Consumo. Mas Nuno Ribeiro da Silva, presidente da elétrica, saiu agora em defesa das ofertas lançadas pela empresa em 2018. “A Deco não gostou do produto porque não tem uma boa imagem do que foram os pacotes de telecomunicações no passado e tudo isto lhes parece igual àquela experiência. Estiveram sempre de pé atrás. Mas esta é a tendência do futuro na energia”, garantiu ao Dinheiro Vivo.

A ERSE está ainda a analisar as queixas da Deco, mas considera que é “precipitado” concluir que os novos tarifários por pacotes mensais ou pré-pagos sejam uma nova tendência no setor da energia, estando a “analisar este tipo de tarifários na ótica da melhor proteção do consumidor de energia e a acompanhar a experiência de outros países europeus onde são aplicados”, como Espanha.

No entanto, as empresas parecem ter outra opinião. De olho nesta “moda” está também já a EDP Comercial e uma outra comercializadora mais pequena, a Muon, estreou-se no mercado com tarifários pré-pagos, anuais, semestrais e trimestrais. “Os tarifários pré-pagos podem ser interessantes para determinados segmentos específicos de clientes, que entendam que o pagamento antecipado e a necessidade de controlo de custos são prioridades na forma como e gerem o seu serviço de energia. Mas olhamos para este tipo de tarifários tal como olhamos para diversos outros formatos de pricing”, disse fonte oficial.

Nuno Ribeiro da Silva não tem dúvidas: “Habituem-se, porque vai começar a ser assim, e por parte de todas as comercializadoras: produtos com mais nuances e menos aquela ideia de uma tarifa e X com um prazo indefinido. Passamos agora para tarifas com validades temporárias, há pacotes, há periodicidades, há serviços agregados, há tetos máximos para o comercializador e para o cliente. Os tarifários serão cada vez menos lineares, à imagem dos serviços de comunicações. Não quer dizer que não sejam justos e honestos, mas serão cada vez menos 1+1=2.”, disse o presidente da Endesa, rematando: “E o consumidor tem de estar preparado para esta realidade”.

Isto acontece, explica, porque há mais concorrência no mercado e porque são menos previsíveis para os comercializadores os custos a suportar a montante, com a compra da energia no mercado grossista. “Temos a volatilidade nos preços do Mibel, as decisões do regulador relativamente às tarifas de acesso e outros aspetos que recaem sobre as tarifas. Por outro lado, temos os clientes, sobretudo nos serviços ou indústria, a pedirem preços a 1 ano, a 2 ou 3 anos. Não temos bola de cristal, para adivinhar o preço do gás, do carvão, do CO2”, explicou Ribeiro da Silva.

A Endesa tem de se “abastecer de grandes quantidades de eletricidade, indo maioritariamente ao mercado e remetendo os preços para os seus clientes. Deixou de ser previsível e linear, como nos bons velhos tempos, temos de refletir nas tarifas este quadro de nuances, de prazos, de cobertura de riscos, flutuação dos preços”. O presidente da empresa diz estar confortável com os power packs, até porque “tiveram a bênção da ERSE”. Estes tarifários já têm 7980 novos contratos na luz e 2137 no gás natural.

A Deco mantém a preocupação. “Parece-nos muito perigoso este tipo de fórmulas no setor de energia”, disse Ana Sofia Ferreira, do Gabinete de Apoio ao Consumidor. “Não queremos seguir o mau exemplo das telecomunicações. É algo que está no nosso portfólio de ofertas, que vai passar a ter sempre propostas diferentes do que estamos acostumados, mantendo outras mais básicas. Ainda estão para chegar outras ofertas mais evoluídas”, contrapõe Ribeiro da Silva.

E não é o único. “A EDP Comercial está atenta às tendências dos mercados de energia, bem como à evolução das necessidades dos diferentes segmentos dos seus clientes. O desenvolvimento de novas ofertas, sejam tarifários de energia ou novos serviços, pretende sempre endereçar essas necessidades específicas de determinados segmentos de clientes”.

Já a ERSE admite que, “com o aprofundamento do mercado, o número de comercializadores tem vindo a aumentar o número de ofertas comerciais e a sua diferenciação, tendo em conta as preferências dos consumidores”. Há neste momento 19 comercializadores com cerca de 180 ofertas comerciais para vários consumidores-tipo.

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