Indústria

Salário mínimo deverá abranger 70% do emprego têxtil

É na confeção que há mais trabalhadores a receberem o salário mínimo nacional, segundo dados da associação patronal. 
Foto: Artur Machado/Global Imagens
É na confeção que há mais trabalhadores a receberem o salário mínimo nacional, segundo dados da associação patronal. Foto: Artur Machado/Global Imagens

Cerca de 40% dos trabalhadores auferem essa remuneração, diz federação. Patrões contrariam projeções e criticam aumento salarial desajustado.

Perto de 70% dos quase 140 mil trabalhadores da indústria têxtil e de vestuário vão passar a receber o salário mínimo nacional (SMN) a partir do próximo ano, ou seja, 635 euros, apontam as previsões da Fesete, a federação dos sindicatos do setor. “Vai haver um número muito grande de trabalhadores que vai ficar abrangido pelo SMN”, porque “aos que já ganham por esta tabela – perto de 40% – há que somar os que recebem atualmente 635 euros e que não vão ver o salário aumentar em janeiro”, diz Isabel Tavares, dirigente da Fesete.

“É natural que o número de pessoas abrangidas pelo SMN aumente, mas longe de atingir os 70%”, contrapõe o presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Mário Jorge Machado, titulando as previsões da Fesete de “derrotistas”. O responsável lembra que o emprego no setor têxtil “cobre uma faixa populacional de baixa escolaridade, com qualificações muito reduzidas” e sublinha que muitos trabalhadores entram nas empresas a receber o SMN, mas as remunerações vão evoluindo e acompanhando o percurso laboral.

Segundo Mário Jorge Machado, “a maioria das empresas do setor vai conseguir adaptar-se” ao incremento dos custos devidos ao aumento do SMN. Ainda assim, frisa, a subida do salário mínimo vai ter implicações na competitividade da indústria, que terá de garantir maiores ganhos de produtividade ou aumentar os preços aos clientes, ou mesmo reduzir as margens, para absorver esses gastos.

Ano de estagnação
O setor do têxtil e do vestuário deverá fechar o exercício com um volume de vendas semelhante ao de 2018, quando ultrapassou os 7,7 mil milhões de euros, com as exportações a valerem 5,3 mil milhões. O ano será de estagnação, situação a que o brexit não é alheio, mas está sustentado numa década de elevados crescimentos. No período de 2009/18, a indústria viu a faturação crescer 45% e as exportações escalarem 52%. O valor acrescentado bruto aumentou 42%, para 2,44 mil milhões de euros, e a formação bruta de capital fixo, indicador que integra os investimentos produtivos, subiu 517%, para 354 milhões de euros.

Em contraponto, na última década, o emprego na indústria têxtil e vestuário diminuiu 5% para 138.915 trabalhadores. As previsões da ATP apontam para que, nos próximos anos, quase 40 mil passem à reforma. Neste cenário, a associação prevê a criação de 15 a 20 mil postos de trabalho, com maiores exigências ao nível das qualificações, para responder a uma indústria que se afirma cada vez mais tecnológica, internacional e com serviços de alto valor acrescentado.

ENTREVISTA
Mário Jorge Machado, presidente da ATP

“As pessoas ganham pouco”

Concorda com o aumento do SMN para 635 euros?
Nenhum setor no contexto europeu está preparado para ter aumentos bruscos de custos de produção. Não falo só de salários, podem ser custos com a energia. É preciso ter um ambiente legislativo que favoreça as alterações. As empresas terão de se adaptar. As que sobrevivem são as que melhor se adaptam, não são nem as maiores nem as mais pequenas, são as que têm capacidade de se adaptar.

As empresas aguentam esta subida?
Não vai ser dramático, vai obrigar a alguns ajustamentos. Na área têxtil, há poucos trabalhadores a receber o SMN. Admito que na confeção haja mais. O custo da mão de obra está ligado com o valor acrescentado da produção. Se me pergunta se as pessoas ganham pouco, respondo que sim. O país precisa de legislação para ser mais competitivo, para poder pagar melhores salários.

O que sugere?
Portugal está em 39.º no ranking da competitividade para o investimento e não no top 10, como devia. Este deveria ser o desígnio nacional. Haveria mais oportunidades, mais criação de riqueza, os salários seriam mais altos. As leis laborais e judiciais têm de se alteradas.

Como será 2020?
Há muita instabilidade: o brexit, a guerra comercial EUA/China, a Alemanha… É difícil fazer previsões.

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