Toyota Caetano

Salvador Caetano. Sete décadas separam autocarros de aviões

José Ramos, presidente da Salvador Caetano Indústria
José Ramos, presidente da Salvador Caetano Indústria

Os Airbus A380, A350, os Boeing 737 ou os modelos militares C295 e o A400M vão passar a incorporar componentes made in Portugal, fabricados na Salvador Caetano, em Vila Nova de Gaia. Sim, o grupo dos autocarros. A um ano de comemorar o seu 70.o aniversário, o grupo Salvador Caetano é hoje um conjunto vasto de empresas que emprega mais de seis mil pessoas, que fatura quase dois mil milhões de euros e opera em setores tão distintos como a indústria, retalho automóvel, tecnologias de informação, equipamentos industriais ou as energias renováveis. Os autocarros continuam a ser o símbolo da Salvador Caetano, e a Toyota, claro, marca que representa em Portugal desde 1968. Esta semana, foi inaugurada a Caetano Aeronautic, que assinala a entrada do grupo numa "nova e ambiciosa" área de negócios, a dos componentes para a indústria aeronáutica.

E se está curioso para saber como se começa nos autocarros e se acaba nos aviões, veja o que nos contou, em entrevista, José Ramos, presidente da Caetano Aeronautic e da sub holding Salvador Caetano Indústria. “O nosso espírito esteve sempre na indústria. Nunca fomos tentados, como outros, a diversificar para os serviços. A nossa vocação é esta”. Sobre a nova fábrica de componentes para a aeronáutica, que resulta de um acordo de cooperação com a Airbus Defence and Space, o gestor destaca a “enorme exigência” da indústria aeronáutica, para depois explicar que, um dia, o que ali se está a fazer, na área dos compósitos, se irá aplicar aos autocarros. “As novas regulamentações e as crescentes exigências em termos de emissões de carbono obrigam a um aumento de peso nos chassis e temos, depois, de ser nós, os fabricantes das carroçarias, a compensar. Porque, quanto mais pesado for um autocarro, mais combustível consome e menor é a lotação de passageiros. Um dos méritos deste projeto será as sinergias que vamos conseguir na área dos compósitos, que são peças fabricadas em fibra, com tecnologia muito avançada, qualidade extrema, elevada resistência e uma enorme leveza”, explica.

Até 2018, a fábrica de componentes aeronáuticos – cujo capital foi, entretanto, aberto aos espanhóis da Aciturri para beneficiar do know how de um dos maiores fabricantes do setor -, tem garantidas compras da Airbus no valor de 55 milhões. Mas a Salvador Caetano está à procura de novos clientes e tem negociações em curso na América do Sul e na Europa. Não indica com quem, que o segredo é a alma do negócio. Sabido é que esta nova área de negócios vai assegurar 4 milhões de euros de faturação este ano; 20 milhões em 2018.

Para além da inovação, a criação de novos postos de trabalho foi outra das razões que levou José Ramos a abraçar o projeto. A componente social é uma das grandes preocupações do grupo. E já vem do tempo do fundador, Salvador Caetano, que, nos anos 80, e perante a dificuldade de encontrar chapeiros, pintores mecânicos e carpinteiros devidamente formados no mercado, se virou para o diretor de Recursos Humanos e disse: “Se não há, façam-nos!”. Assim nascia o Centro de Formação que, todos os anos, entre as unidades de Vila Nova de Gaia, Braga, Ovar, Carregado e Sintra, concede o equivalente ao 12º ano a cerca de 350 jovens, 80% dos quais são integrados nas empresas do grupo. E que, para este projeto de componentes aeronáuticos, onde a destreza de mãos é fundamental, foi buscar desempregados, com mais de 35 anos, das fábricas da Yazaki Saltano e da Cabelte, e está a prepará-los para o integrar. A fábrica, que representa um investimento de 15 milhões da parte da Salvador Caetano e de oito milhões da Airbus, cria este ano 110 postos de trabalho (dos quais 40 são indiretos), número que sobe para 400 em 2018 (sendo 150 empregos indiretos).

José Ramos diz que a Salvador Caetano é uma grande família: “A maior parte das pessoas que aqui trabalham nasceram para a vida profissional aqui. São uma das nossas grandes preocupações”. O grupo tem vindo a crescer no retalho automóvel – negócio que, entre Portugal, Espanha e África vale 72% da faturação – sobretudo por aquisição de concessionários. “Nós ficamos com as pessoas, não as mandamos embora. Mas estamos constantemente a dar-lhes formação para que ganhem a nossa cultura”. Nunca despede ninguém? “Não. Despedir uma pessoa só mesmo in extremis”, garante.

Há dois anos, a Salvador Caetano inaugurou uma fábrica de autocarros para aeroportos na China. Desde então que admite que gostaria de construir uma unidade industrial na América Latina. Trata-se de uma região com potencial, onde a marca tem uma baixa penetração. Não só pela distância. “Neste momento, estamos até com um projeto interessante de fornecimento de autocarros para o México, mas a verdade é que os direitos de importação para lá são enormes. Para expandirmos para a América Latina só produzindo lá, mas primeiro temos de estabilizar as coisas na China. Porque, para mim, o maior capital é o humano. Arranjar pessoas com fornação, com disponibilidade, as pessoas certas para os lugares certos… é mais fácil de dizer do que fazer”, frisa.

Para já, a Salvador Caetano está apostada em crescer no retalho automóvel em África, investindo cinco milhões em instalações em Angola, onde, além da Ford, representa o grupo VW, Audi e Seat. E está a preprar a entrada e, novos mercados como Moçambique, Quénia, Senegal e Mauritânia.

Em Portugal, inaugura em julho a nova linha de produção do Toyota Land Cruiser 70, em Ovar. Um projeto que levou a aumentar a fábrica em mais de quatro mil metros quadrados, mas que fará disparar o peso da indústria, que hoje é de 8%, no volume de negócios do grupo. “Já temos garantidas três mil unidades por ano que vamos fazer exclusivamente para exportação”, conclui José Ramos.

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