Sapatos e têxteis à conquista da Colômbia

Campanha "El calzado más caliente en Europa" na zona das bagagens no aeroporto de Bogotá
Campanha "El calzado más caliente en Europa" na zona das bagagens no aeroporto de Bogotá

Domingos José, responsável da marca de calçado Centenário, nunca esteve na Colômbia. Mas a sua fábrica foi uma das 17 que os importadores colombianos visitaram em maio, a convite da APICCAPS, a associação do calçado, e hoje já tem negócios em curso. Pelo contrário, as rendas e bordados da Rendibor são já bem conhecidos dos colombianos. A empresa tem vindo a participar nas várias feiras no país, com a Seletiva Moda, e hoje o seu representante no mercado é a maior fábrica de fitas de cetim e organza da América do Sul.

Estes são apenas dois dos exemplos das quase 50 empresas de têxtil, vestuário e calçado que integram a maior ‘embaixada’ portuguesa de sempre na Colombiamoda, que abre portas esta terça-feira em Medellín.

E, se para o têxtil e vestuário, esta é a terceira presença naquela que é, por excelência, a semana da moda da América Latina, numa organização da Seletiva Moda (entidade que junta a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal – ATP e a Associação Nacional da Indústria de Lanifícios – ANIL e responsável pela promoção externa da fileira), o calçado estará presente no certame pela primeira vez.

Mas esta é uma operação que vem sendo preparada nos últimos dois anos, com ações de prospeção de mercado, mailings de promoção enviados a dois mil potenciais compradores convidando-os a visitar os stands das empresas de ‘El Calzado Más Caliente en Europa’, campanha que estará em destaque em cerca de 20 outdoors espalhados pelos aeroportos de Bogotá e Medellín, bem como no centro da cidade.

2

Na feira, que decorre de terça a quinta-feira, o ponto alto será um desfile conjunto, do calçado e do vestuário português, logo no primeiro dia, ao início da tarde, cujo mote é Moda Portugal (pode até ver em direto na internet, aqui, a partir das 21h00, hora de Lisboa) .

Conheça em pormenor algumas das empresas presentes:

Rendibor: Rendas portuguesas conquistam colombianos

As rendas e os bordados da Rendibor são já bem conhecidos pelos colombianos. A empresa de Matosinhos foi, pela primeira vez, expor os seus produtos à Colombiatex, em Bogotá, há dois anos, com a Seletiva Moda e as suas rendas a metro, em croché, muito utilizadas para debruar lençóis ou em vestuário de senhora e criança, foram “muito bem aceites” no mercado. A presença posterior na Colombiamoda, a feira de moda de Medellín, permitiu que hoje tenha como representante no mercado, a maior fábrica de fitas de cetim e organza da América do Sul.

“O nosso produto complementa o deles e tem tido sucesso. Temos ido, com frequência ao país visitar clientes deles e estamos a sedimentar a venda dos nossos produtos na Colômbia”, explica Francisco Teles de Menezes. Dos 750 mil euros faturados em 2013, cerca de 15% foram já obtidos no mercado colombiano. Com 18 trabalhadores e um produção anual de 12 milhões de metros de rendas e bordados ao ano, a Rendibor está entre as cinco maiores fábricas do mundo de rendas de croché a metro. Tem em Espanha o seu principal mercado, seguido da Colômbia, EUA, Canadá, França e Itália. Exporta 99% do que produz.

Com a entrada na Colômbia, a Rendibor decidiu apostar, simultaneamente no Peru e no México, onde já esteve e contratou distribuidores locais. A primeira encomenda para O México seguiu há cerca de duas semanas, no valor de cerca de 70 mil euros. Este ano, Francisco Teles de Menezes espera aumentar a faturação da Rendibor em 20%, crescimento esse “sustentado na Colômbia e no México”. Mas acredita que as potencialidades da América Latina são tantas, que espera duplicar a faturação da empresa nos próximos dois anos, estimando que a América Latina represente, então, 50% das vendas.”Não é um objetivo ambicioso, é uma meta muito fácil de conseguir. A Colômbia tem mais de 45 milhões de habitantes, que produzem muito para os EUA, tal como Peru e o México, que são mais de 127 milhões de habitante, e o nosso produto é um complemento para a roupa, quer para os têxteis lar, quer de senhora e criança.

São mercados muito apetecíveis”, sublinha o responsável da Rendibor. Que vê a empresa a faturar 1,8 milhões dentro de dois anos, sempre a exportar a partir de Portugal.

“Chegamos a ponderar montar uma base de produção na Colômbia, até porque temos uma série de equipamento parado, mas esta é uma indústria com um conhecimento muito específico e não seria muito fácil arranjar mão de obra com qualificação. Além de que vemos com muito bons olhos estar a passar know how e informação para terceiros, quando, hoje, os transportes já são questões bem mais fáceis e mais económicas do que eram há uns anos”, frisa.

Orfama: “Desenvolver um mercado leva, no mínimo, cinco anos”

Completamente inovador é o produto da Orfama. A empresa é especializada na tricotagem de malhas segundo a técnica ‘Fully Fashion’ (a peça é feita à medida, sem intervenção de tesoura ou corte e cose) e no tingimento à peça. O que constitui uma mais-valia, na medida em que permite a construção das peças em crú e o tingimento, mais tarde, em função das vendas.

“Estamos a participar na Colombiamoda pela terceira vez, mas já temos coleções a serem vendidas no país”, diz António Cunha. E se é verdade que ainda é cedo para aferir dos resultados, as expetativas são elevadas. O objetivo é que a Colômbia sirva de plataforma de acesso a outros países na região, como o México, a Guatemala, o Brasil e o Peru.

“Vivemos num mundo globalizado, temos de procurar mercados emergentes, que valorizam produtos diferenciados, nichos de mercado e que estão disponíveis para pagar os nossos produtos. É o caso da Colômbia, que valoriza segmentos de gama alta”, explica o responsável da Orfama. A empresa de Braga, detida pelos franceses da Montegue, conta com cerca de 230 trabalhadores e tem uma produção anual na ordem das 400 mil peças e totalmente destinadas aos mercados externos. Com uma faturação de 6 milhões em 2013, que espera este ano poder crescer para 6,5 a 7 milhões, a Orfama tem na Europa o maior mercado, seguido dos EUA, Japão, América Latina e Canadá.

“Temos expetativas elevadas para esta terceira participação na Colombiamoda. A prova está dada. Os clientes têm pedido a coleção, é sinal que gostam dos produtos e vêm neles uma mais valia. Fizemos um trabalho de base, vamos, agora, tentar solidificar e aumentar as vendas”, frisa António Cunha.

Nobrand: Três mil pares de sapatos vendidos em menos de duas semanas

Presente na Colombiamoda pela primeira vez está a Nobrand, marca de calçado de Felgueiras. O teste ao mercado foi feito com o envio de três mil pares, que “esgotaram em praticamente uma semana e pico”, reconhece Sérgio Cunha, do grupo Pedreira, dono da marca, e em breve deverá ser enviada nova encomenda de mais dois mil pares. Mas Sérgio Cunha recusa, para já, embandeirar em arco e prefere ver ‘in loco’ a realidade do mercado. “Eu costumo dizer que isso são os primeiro amores e, apesar de já termos um distribuidor local, queremos ver in loco porque é o ‘olho do dono’ que engorda o ganho. Temos que nos ver um ao outro, perceber se há necessidade de fazer um ou outro modelo ou linha mais andina, mais ao gosto do consumidor local”, explica ao Dinheiro Vivo.

De qualquer forma, reconhece que “tem havido repetições [de encomendas], o que demonstra que o interesse existe”, pelo que a intenção da Nobrand passa por expandir para os restantes países do pacto andino – Bolívia, Chile, Equador e Peru -, usando a Colômbia como base de distribuição”.

Sérgio Cunha recusa estabelecer metas, sublinhando que “cresceremos o que nos deixarem”. Mas assume que “ficava muito satisfeito se conseguisse fechar o ano com meio milhão de euros de vendas nesta geografia”. “Seria muito salutar”, frisa. E se é verdade que são as mulheres colombianas as “mais vistosas e muito bem arranjadas”, a verdade é que a Nobrand acredita que será no segmento de homem que poderá residir a maior oportunidade. “A oferta que têm é muito limitada, muito escura, muito cinzenta, muito antiga, querem produtos com uma imagem muito mais ocidental”, diz.

Centenário: Empresa especializada no fabrico de sapatos personalizados

Domingos José, responsável da marca de calçado Centenário, nunca esteve na Colômbia. Mas a sua fábrica foi uma das 17 que os importadores colombianos visitaram em maio, a convite da associação do calçado, a APICCAPS, no âmbito da preparação da abordagem ao mercado e que resultou, já, em negócio. “Estamos, ainda, .numa fase experimental, mas temos uma encomenda de um cliente. Estamos satisfeitos, obviamente, as coisas parece que estão a tomar um caminho bastante positivo”, diz o empresário.

Com uma faturação de 9,3 milhões em 2013, praticamente obtida quase na totalidade nos mercados externos, a Centenário tem na Holanda, Finlândia, Áustria, Suíça, Alemanha, França, Dubai, Singapura e Malásia os seus principais mercados. Não exporta, ainda, nada para a América Latina e tem a expectativa de que esta abordagem à Colômbia possam constituir um ponto de acesso a mercados como o Chile e o Equador, cujas economias estão “em forte crescimento”.

Mas os artigos da Centenário, embora num projeto diferente, podem já ser adquiridos nos Estados Unidos. Trata-se de uma parceria com o cliente finlandês, que a Centenário fornece em sistema de ‘private label’ (marca do cliente), e que tem lojas em Helsínquia e Londres, além de vários espaços na Alemanha, no Japão, no Dubai e nos Estados Unidos, explica Domingos José.

E nestes espaços comerciais, a coleção está exposta, mas não há produto disponível para entrega. “É feito um scanner ao pé do cliente, que escolhe o modelo que quer e o sapato é feito à medida, altamente personalizado, com o seu nome e a dedicatória que eventualmente queira inserir”. A entrega ocorre no espaço de cinco a seis semanas. Esta coleção de sapatos personalizados vale já 15% da produção da Centenário que, em 2015, espera duplicar as vendas deste segmento. E se é verdade que é feito sob a marca do cliente – que mantém sob reserva -, garante que o ‘Made in Portugal’ vai bem visível na sola e que cada par é acompanhado de uma fotografia de um operário, como prova do trabalho minucioso e altamente artesanal que envolve a sua produção.

*Em Medellín a convite da ATP e da APICCAPS

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Ilustração: Vítor Higgs

Azeites e vinhos portugueses escapam a castigo de Trump

Ilustração: Vítor Higgs

Azeites e vinhos portugueses escapam a castigo de Trump

(REUTERS/Kevin Coombs)

Acordo para o brexit com pouco impacto para Portugal

Outros conteúdos GMG
Sapatos e têxteis à conquista da Colômbia