“Se os chineses, como outros, vierem explorar os recursos naturais do Brasil não os queremos”

O ministro-interino Alessandro Teixeira
O ministro-interino Alessandro Teixeira

Com a compra de 21,5% da EDP, os
chineses da Three Gorges entram também no negócio de eletricidade no Brasil. Para além
de barragens e parque eólicos, a elétrica portuguesa controla também parte da
distribuição nos estados de São Paulo e Espírito Santo.

Com um lucro líquido de
92 milhões de reais (40 milhões de euros), a EDP Brasil faz parte do plano de
investimentos proposto pela Three Gorges. Logo na conferência de imprensa onde
anunciou o novo acionista da EDP, a secretária de Estado do Tesouro, Maria
Albuquerque, fez questão de sublinhar que a “EDP fica intocada no Brasil”, garantindo
que os chinese não entrariam no capital acionista da subsidiária brasileira.

Hoje, dois meses depois da decisão que afastou a Electrobras da corrida à EDP, o
ministro interino do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,
Alessandro Teixeira, garante que entende a decisão do Governo português, mas
lembra que o Brasil nunca aceitará a exploração dos seus recursos naturais por investidores estrangeiros

Com a Europa em recessão e a América Latina, África e Ásia a explodirem, o interesse brasileiro está cada vez menos no Velho
Continente?


A Europa é uma grande dúvida. Temos acompanhado diariamente a crise na Grécia,
as dificuldades que têm atravessado Espanha, Grécia e Portugal. Nunca vamos deixar
de perder o interesse na Europa, continuando a utilizar essa porta também para
a Ásia. Mas obviamente que o mundo todo olha para o Brasil, China, África do
Sul e Caribe como as regiões que estão mais quentes. E para o Brasil, as
prioridades são sempre a América Latina e os países da África, nomeadamente os
de língua oficial portuguesa. Angola e Moçambique são países importantes onde a
plataforma Portugal-Brasil pode funcionar.

Os investimentos portugueses caíram
um pouco no último ano, mas nos últimos seis anos, Portugal tem feito uma nova vaga
de investimentos, nomeadamente na área de hotelaria. Com a crise na Europa, acredito
que o Brasil será cada vez mais um objetivo para os planos de expansão das
empresas portuguesas fora da Europa.

Fala de uma parceria mais forte Portugal-Brasil. A recente
privatização da EDP, onde a Electrobras foi derrotada, entra nessa categoria?

Não posso comentar muito o caso da EDP. Tentámos e tínhamos uma
oferta coerente. Nós temos um grupo de empresas interessados em crescer na
Europa e Portugal é um parceiro estratégico, não só para os investimentos no
Brasil, mas também para os investimentos brasileiros lá fora.

Mas como é que viu a escolha do Governo português? Com três
opções – brasileiros, alemães e chineses – acabou por escolher os últimos. Faz
sentido? Sobretudo quando se fala tanto de uma aliança estratégia?


Não foi uma questão do Governo português escolher. A melhor proposta era
chinesa e era oferta pública. Tentámos fazer o melhor, mas ganhou a melhor
proposta financeira.

Há muitas reticências no Brasil quanto aos investimentos
chineses, sobretudo no que diz respeito à exploração de recursos naturais. A eletricidade
é um desses casos.

Os investimentos chineses cresceram e o Brasil tem tratado os investimentos de
uma forma igualitária. Para nós, desde que seja um investimento produtivo, para
criar valor, tudo bem. Agora, se for para explorar a nossa biodioversidade, a
nossa natureza, aí não queremos.

*No Rio de Janeiro

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