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Sebastião Lancastre: “A Unicre e a SIBS são bloqueadoras de inovação”

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Fundador da Easypay lamenta a oportunidade perdida de abrir o mercado financeiro às fintechs.

Engenheiro de sistemas, Sebastião Lancastre começou na Xerox a vender fotocopiadoras a laser, porta a porta. Passou pela comunicação social, tendo ajudado a lançar o Diário Económico, e trabalhou na Unicre ao lado do pai – de onde saiu em 2000, para lançar a Easypay. Hoje processa mais de 400 mil pagamentos por mês, tendo excedido os 6500 clientes e fechado 2018 com um volume de pagamentos de 177 milhões – que significou receitas de 3 milhões de euros para a empresa.

Em 2018, a Easypay cresceu 42%. Estamos a meio de 2019, quais são as suas expectativas?
São extraordinárias. Vamos crescer 100% em 2019.

Em que frentes?
Nos pagamentos. O que a Easypay faz é ajudar empresas e organizações a usar os instrumentos de pagamento eletrónicos. À primeira vista, pensamos que isso seria facílimo – bastava ir ao banco e perguntar como faço para ter referências multibanco (MB) – mas a verdade é que isso ainda é uma tarefa algo herculeana. Empresas como a nossa têm sucesso porque facilita brutalmente a instalação de pagamentos eletrónicos nas empresas.

Esperam crescer nomeadamente com novos contratos?
Sim, nomeadamente o que acabámos de assinar com a Segurança Social. Ganhámos esse concurso público e foi difícil implementar a solução – tentámos até pôr alguma areia na engrenagem para saber o que poderia correr mal para o nosso lado… Mas a experiência que já temos no setor também nos dá algum conforto ao abraçar projetos desta envergadura. E levámos o barco a bom porto: desde o início de junho que processamos os pagamentos da Segurança Social.

Há mais clientes em perspetiva?
Há. Já no meio de junho lançámos a Prio Go, primeira aplicação que permite aos utilizadores pagar sem sair do carro – ainda têm de sair para abastecer……Num conjunto de quatro empresas (Prio, Bliss Aplications, Gasodata e nós), conseguimos desenvolver a app que nos permite chegar ao posto, escolher a agulheta para abastecer e fazê-lo. E tem ainda uma funcionalidade determinante: poder, em cada abastecimento, escolher o número de contribuinte para associar à fatura. Posso abastecer para a empresa durante a semana e ao sábado usar o meu carro e com a mesma app associar o pagamento ao meu NIF.

A Easypay está no mercado financeiro desde 2007 e especialmente focada em métodos de pagamento para empresas. Mas não quer ser um banco. Qual é o seu modelo de negócio?
É uma pergunta engraçada… No fundo, estamos a roubar o negócio aos bancos mas não queremos ser bancos. E é aqui que acredito que está o futuro de empresas como a minha, o que as fintechs vêm trazer ao mercado. É muito provável que venham a aparecer mais e cada vez mais especializadas em determinados setores ou em resolver um problema diferente – a minha resolve o dos pagamentos, outras os dos créditos, etc. Portanto, não há grande vantagem para nós em sermos um banco, que é uma entidade mais generalista, cujo gestor de conta tem de saber um pouco de tudo… fundos, depósitos, cheques, e acaba por não prestar um serviço tão atencioso aos detalhes. E hoje nós queremos atenção aos detalhes, porque é aí que está a diferença de qualidade nos serviços.

Os bancos são entidades demasiado pesadas e por isso não conseguem renovar-se?
Digamos que têm uma inércia brutal – inércia é a energia que temos de aplicar a um objeto para que comece a mexer-se. E nós sentimos nas conversas com os bancos que é muito difícil eles vencerem essa energia. O que acho é que as fintechs serão cada vez mais colaborativas com o bancos.

Não serão então uma sentença de morte?
Não. Mas os bancos terão um futuro muito difícil, muito mais do que as fintechs, porque são menos ágeis, menos rápidos a responder…. Ainda hoje, nos bancos há aquele jogo do telefone estragado: a mensagem vai-se transmitindo pelas hierarquias mas quando chega lá acima já não é bem o que o cliente disse. As fintechs têm esta vantagem acrescida, têm uma hierarquia muito plana, de dois ou três níveis apenas. Ainda outro dia o administrador do Banco de Portugal Hélder Rosalino falava nisso, dizia que a grande diferença entre as fintechs e os bancos é o governance, a gestão, que nos bancos ainda é muito pesada – e isso é desafio enorme. Portanto, o panorama para as fintechs é mais risonho do que para os bancos, embora vejamos pelos resultados que têm que os bancos continuam a ganhar muito dinheiro.
E têm conseguido captar o conceito de fintechs?
Custa-me dizê-lo, mas acho que não e há duas empresas que contribuem negativamente para isso: uma onde trabalhei, a Unicre, e a SIBS. Ambas funcionam hoje como bloqueadoras da inovação. Todos reconhecemos a grande vantagem que o MB trouxe há uns anos mas hoje é claramente um bloqueador. Por exemplo, se eu tiver uma conta num banco estrangeiro não consigo pagar impostos em Portugal, é uma impossibilidade se o banco não fizer parte da rede Multibanco, da rede de bancos nacionais. O que é extraordinário no fim da segunda década do século XXI!

E a diretiva europeia de pagamentos (PSD2) não alterou isso.
Exato. É mais um sinal de que as coisas têm de mudar, não podemos pensar que é a SIBS que vai resolver a situação. Falando da diretiva e olhando as API (Application Programming Interfaces), que permitem, mediante autorização, aceder aos dados de contas ou iniciar pagamentos), o que vemos é que em Portugal os bancos mais uma vez resolveram isso chamando a SIBS. E a SIBS, chama-lhe uma open API, mas na verdade fez-se uma closed API, porque mais uma vez só lá ficaram os bancos portugueses. Nem uma só fintech participa. A pergunta mantém-se: como é que faço um pagamento à Segurança Social, a uma autarquia, ao Estado se não tiver conta portuguesa?

Quando a SIBS lançou essa plataforma, o Sebastião criticou-a por isso mesmo. Quatro meses depois, teve alguma resposta?
Nenhuma. Exceto terem-me convidado a participar num fórum em que fiz um comentário semelhante ao que aqui disse. Porque continuam a ser chamados exclusivamente os bancos, mas empresas como a minha, instituições de pagamento, também deviam participar nesse projeto. Perdemos uma oportunidade extraordinária de abrir o mercado – e nós teríamos todo o gosto em ter participado nisso. O que vai acontecer é que Portugal vai ficar fechado.

Mas tratando-se de uma diretiva europeia, não acontece noutros países o mesmo que aqui?
Não. E dou-lhe o exemplo de Inglaterra, o primeiro país a abrir-se e a implementar essas regras até um ano antes de a diretiva ser transposta, e de Espanha, onde se fez um caminho diferente. Madrid convidou todas as fintechs e todos os bancos para desenhar o que seria a implementação da diretiva. E isso só traz vantagens. Porque há aqui uma segunda questão: o preço. Nós estamos completamente reféns dos preços da SIBS. Nesta célebre disputa do MBWay, todos os bancos alinham em cobrar 1 euro e tal por transferência, exceto a Caixa de Crédito Agrícola, que diz que o preço disso são 0,26 euros – veja lá o que os outros não estão a ganhar por transferência… E não faz sentido nenhum, porque na verdade, em termos informáticos, estamos a falar do custo de mudar a posição de um para outro bite.

É uma forma que os bancos encontraram de compensar outras fontes de receita?
Completamente e com a bênção do Banco de Portugal.

Essa diferença entre nós e Espanha põe em risco o sistema financeiro português?
Isso não acredito, porque também há uma certa inércia das pessoas em mudar os seus comportamentos. Basta ver que tivemos uma crise violentíssima e poucas pessoas realmente mudaram – agora parece que voltou tudo ao normal e a nossa dívida cresce significativamente mas nada se passa…. O que vai acontecer é que empresas mais atentas vão mudar. Disso não tenho dúvidas. Porque mesmo o preço das referências MB é claramente um exagero aqui, face ao que se pratica noutros países. Um serviço que aqui custa 0,64 euros, na Letónia são 0,02 euros! Claramente, o governo tem de estar atento a isto e de obrigar os organismos a libertar-se deste sistema MB, que eu acho que é hoje nefasto para o desenvolvimento das transações eletrónicas em Portugal.

O Multibanco é um entrave e dificulta acesso ao código que detém sobre essas transações, sobre essa plataforma eletrónica?
É exatamente isso. E como se altera? A Easypay está a preparar caminho e esperamos lançar um novo sistema até ao fim do ano que será colaborativo. Vamos convidar os bancos e outras fintechs a redesenhar tudo, para que as transações possam acontecer em tempo real, ser multimoeda, custar cêntimos e tragam a identificação de ordenante e beneficiário. É obrigatório identificar quem paga e quem recebe em todas as transações, mas em talvez 90% das que são feitas por MB isso não acontece, o que significa que não estamos a cumprir a lei do branqueamento de capitais. No nosso sistema queremos ir até mais longe, porque levamos muito a sério o combate ao branqueamento e ao financiamento do terrorismo: além dessa identificação, queremos identificar ambos os números fiscais, para cumprir a 100% a lei.

Já conseguiu falar com o governador do BdP sobre essas alterações?
O BdP teve uma alteração de posição connosco nos últimos tempos e já lá fui chamado – o que é positivo, hoje a Easypay é ouvida com maior frequência e sinto que o pensamento do BdP se está a transformar… o governador já fala nas vantagens das fintechs… mas falta passar à prática. Ainda esta semana a Deco veio dizer que os custos do MBWay são inaceitáveis – e eu concordo, são um exagero. Ora é preciso que o BdP seja mais rápido a agir. Mesmo em relação à CGD, quando o banco estatal veio dizer que não pagava juros abaixo de 1 euro – o que era uma afronta a todos nós – o BdP demorou demasiado tempo a reagir. Às vezes parece que os bancos avançam estas coisas para medir a reação das pessoas e se não for muito má, passa. O BdP tem de ser mais interventivo e há coisas que não pode mesmo aceitar. A CGD já voltou atrás, mas no caso do MBWay tem lavado as mãos, dizendo que os bancos é que definem o preçário.

E há margem para o governador Carlos Costa intervir?
Claro que sim! Tem uma clara oportunidade para dizer, nos fóruns próprios, que os bancos têm de rever a sua posição.

A criptomoeda é outra área a que se tem dedicado. O BdP tem pedido cautela e no resto da Europa a questão também não é pacífica… Há de facto riscos de segurança, de ser um meio facilitador da corrupção?
Sim e não. Eu continuo a ser um entusiasta e foi com grande entusiasmo que recebi a notícia do lançamento da libra do Facebook, que vai ser lançada no próximo ano. Porque ainda há dificuldades em executar certas operações: se eu quiser enviar 100 ienes em dez segundos para um cliente no Japão, não consigo. Exceto se usar criptomoeda. Os Estados e os bancos centrais fazem avisos, mas não criam um sistema que nos permita fazê-lo, portanto vão aparecendo sistemas alternativos para resolver essas falhas. Agora, quanto à segurança, todos os sistemas são alvos de burlas, de fraudes…– e este em particular até pode resolver muitos problemas do sistema atual.

De que forma?
As criptomoedas são baseadas na tecnologia blockchain – que significa distributed ledger, ou base de dados distribuída – e que verdadeiramente regista todas as transações e revela a origem e o destino de todas elas. Logo, se os bancos centrais e os governos exigirem que, quando as pessoas fazem a transferência, se identifiquem, não sejam anónimas, está encontrada a solução para muitos dos problemas que ainda temos.

Essa é uma área em que a Easypay quer entrar?
Temos estado muito atentos…, mas isso exige investimentos significativos e nós, até à data, não pedimos dinheiro emprestado. A Easypay foi criada com os 125 mil euros que eu investi no início e até agora não devemos nada a ninguém. Esses projetos exigem alguns milhões, por isso não sei se será uma área onde iremos investir.

Esses milhões só estão disponíveis para gigantes como a Facebook Libra ou a Apple pay… Como vê a entrada desses gigantes tecnológicos no mercado financeiro?
Com algum receio… mas não tenho medo, porque os portugueses – e as empresas pequenas – têm uma agilidade e uma sagacidade que os gigantes não têm. O que eles têm são clientes e muito dinheiro. O Facebook é o maior país do mundo, o que tem mais cidadãos. Imagine o que podem fazer: lançar uma moeda, uma língua, podem substituir-se a muitas das coisas que só os países fazem – criar uma escola, uma rede de saúde… a última área onde a Amazon entrou foi nos cuidados de saúde: não para resolver os nossos problemas mas para que não os tenhamos, portanto estarão na área preventiva. Isso só é possível com muito dinheiro.

E não há também aí um risco de segurança, de ciberataques?
Claro, essa é sempre uma questão a ter em atenção e os Estados têm de proteger os cidadãos e obrigar as empresas a cumprir determinados critérios. Se os meus dados caírem nas mãos de um pirata, isso pode pôr em risco minha segurança e a da minha família, mas estas empresas têm muito dinheiro para nos proteger. Por isso tenho alguma confiança nelas.

Para ser gigante é preciso ir captar investimento nos mercados. Uma entrada em bolsa é uma hipótese que considera?
É sempre um tema em cima da mesa, sim. Nós abrimos pela primeira vez o capital neste ano, a um investidor espanhol que não é um banco mas está relacionado com instituições financeiras e que nos abriu a porta ao país vizinho. Um IPO (Oferta Pública Inicial) é uma opção que nunca pomos de lado, mas não será certamente em 2019. E se acontecer em 2020, será pouco provavelmente na nossa bolsa, que está um pouco morta.

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