Sem casamentos, Gio Rodrigues toma uma nova direção: a coleção de conforto

O estilista é conhecido pelos vestidos de noiva e festa, mas nem por isso parou em 2020. Lançou uma linha mais descontraída e mais acessível, criou uma loja online e fez máscaras e fardas.


Famoso pelos vestidos de noiva e de cerimónia, a pandemia forçou Gio Rodrigues a repensar toda a sua estratégia. Com quebras "acima de 90% nas suas áreas habituais, que incluem ainda o fardamento de hotéis de luxo, o estilista procurou novos negócios, reinventando-se. Lançou uma loja online e uma coleção mais informal, muito centrada em peças confortáveis e descontraídas, que lhe permitem chegar a um público mais vasto. Aos 20 anos, a marca Gio Rodrigues democratiza-se.

"Tivemos de nos reinventar para conseguirmos sobreviver. As ajudas [do Estado] são boas, mas não são suficientes para pagar as despesas, quanto mais o lucro perdido", explica o estilista, natural de Lisboa mas que fez do Porto a sua casa. É na Rua de 31 de Janeiro, em plena Baixa, que Gio Rodrigues tem atelier e loja própria. Um espaço onde dá emprego a 15 pessoas, designadamente modelistas e costureiras a tempo inteiro. "São responsabilidade minha, não quis despedir ninguém, tenho de lhes criar trabalho e tentar não parar", diz. Além disso, trabalha com sete fábricas, às quais subcontrata a sua linha de sapatos, de fatos de homem e de malhas tricotadas, entre outros artigos. "O mercado da moda movimenta muitas pessoas", lembra.

Em 2019, faturou 800 mil euros. No ano passado, e apesar dos constrangimentos todos causados pela pandemia, conseguiu que as perdas não fossem além dos 25%. O "instinto de sobrevivência" falou mais alto. "Eu percebo as necessidades das pessoas. Eu próprio, como consumidor, não tenho vontade de comprar. E, por isso, procurei oferecer-lhes aquilo de que elas precisam, peças mais descontraídas, confortáveis, mas de grande qualidade. Não foi difícil, nunca tive problemas de criatividade", sublinha.

A nova coleção, de outono/inverno, foi posta à venda em setembro e recebida com alguma surpresa. "As vendas não foram espetaculares, as pessoas não estavam habituadas a ver a marca Gio Rodrigues com ténis e roupa confortável", admite o estilista. Em contrapartida, a linha de roupa interior "está a ser um grande sucesso".

As máscaras foram outra das apostas do criador - logo em abril, com "tapa-máscaras", para usar por cima das máscaras cirúrgicas, dando um toque de cor e de elegância ao utilizador. Certificou depois máscaras comunitárias de nível 3, mas não desistiu até encontrar a combinação certa de tecido que permitisse a sua certificação para nível 2, ou seja, com capacidade de filtração acima dos 90%. São vendidas na loja online do criador e em farmácias. Um negócio que já viu melhores dias. "As pessoas não estão a comprar máscaras, as vendas estão muito fracas, não percebo. Parece que a pandemia acabou, quando nunca estivemos tão mal."

Gio Rodrigues lamenta toda a polémica recente em torno das máscaras, designadamente com países europeus a proibir o uso das de tecido em favor das descartáveis. "Tem de haver um maior controlo. Eu vejo pessoas na rua com máscaras descartáveis sujas, que foram usadas dezenas de vezes. Isto passa muito pela responsabilidade pessoal de cada um", argumenta.

Noivas mantêm papel de destaque

Apesar dos novos projetos, Gio não esquece nunca "as suas noivas", como lhes chama carinhosamente. Para dia 14 de fevereiro tem já agendado o desfile online de apresentação da coleção Noivas 2021. "Temos de manter o mercado a mexer. Se calhar, só teremos casamentos de volta em força lá para setembro, mas tenho de manter as minhas noivas a sonhar. Este é um negócio que vive do sonho", frisa.

O criador está convencido que, com o avançar do plano de vacinação, será possível a partir do verão retomar a normalidade e que depois disso se viverão tempos equivalentes à loucura dos anos 20. "As pessoas estão sedentas de festas e de glamour." Mas as novas linhas de conforto vieram para ficar, até porque são coleções com uma grande componente ambiental e de sustentabilidade associada.

"Deu-me gozo usar os stocks já existentes das fábricas, em vez de mandar fazer tecidos de novo. Acredito que a pandemia é um alerta do universo, e precisamos todos de tomar conta do planeta, é uma responsabilidade de cada um de nós", explica.

Luxo e conforto passarão a conviver lado a lado na Gio Rodrigues. Um vestido de noiva custa em média 2500 euros, mas pode chegar a largas dezenas de milhar, consoante os materiais escolhidos. Já na nova coleção, as peças rondam os 45 a 60 euros, com as sapatilhas a custarem 170 euros.

"Não podemos esquecer que a linha de luxo é toda feita à mão, com mão-de-obra nacional e devidamente certificada. Pago ordenados justos e as minhas costureiras trabalham, no máximo oito horas por dia", sublinha Gio. E acrescenta: "As minhas noivas não querem casar-se com um vestido bordado por crianças no Bangladesh."

O segmento de fardas é outra área a que tem dedicado muito tempo. "Os hotéis aproveitaram a pandemia para se remodelarem e recriarem e uma das coisas em que têm investido é o fardamento. Tenho-me agarrado a esse mercado", adianta. Assinou, por isso, recentemente acordos com duas grandes unidades hoteleiras internacionais e tem "mais coisas na fornalha", mas que não pode ainda desvendar. O Hotel W, no Algarve, é uma das unidades que terão fardas assinadas por Gio.

Já o negócio das vendas online está "muito parado". As peças de conforto foram pensadas para os clientes se sentirem "fabulosos", mas com o novo confinamento e o evoluir da pandemia "as pessoas estão muito desacreditadas". Além disso, há toda uma aprendizagem ainda a fazer desta nova ferramenta. "Investimos muito em marketing e em comunicação digital, mas, ainda estamos a perceber como tudo isso funciona", frisa.

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