Só num ano saíram 17 campanhas. A guerra dos preços chegou à energia

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A guerra dos descontos tem um novo cenário: a energia. Desde maio do ano passado que – a propósito da liberalização do mercado – a EDP, Galp, Endesa e até a mais recatada Iberdrola se lançaram em campanhas de descontos na eletricidade e gás natural. Foram 17 no total. Para os consumidores, que estavam habituados a ter tarifas anuais fixas e uma única empresa e fatura para cada tipo de energia, de repente tornou-se possível comprar eletricidade à Galp e gás à EDP, ter gás e eletricidade na mesma fatura e ainda contratar empresas espanholas. Até a Deco decidiu “entrar” no mercado, fazendo uma parceria com a Goldenergy, que vende gás, e lançado um leilão de eletricidade a que aderiram muitos consumidores, mas apenas uma empresa: a Endesa.

Esta semana, apenas 15 dias depois de terminada a última campanha, a Galp voltou à luta com cinco novas ofertas que já estão a levantar polémica. Numa nota publicada ontem, a Deco acusa os novos tarifários de serem “complexos e caros”, e ainda “um retrocesso face aos tarifários” anteriores.

Contudo, esta guerra é ainda muito tímida. Aqui, não há descontos de 50% como no Pingo Doce ou no Continente ou tarifários de 10 euros por mês como nas telecomunicações. Nem vai haver, pelo menos a médio longo prazo. Na eletricidade, por exemplo, o desconto total na fatura dificilmente chegará aos dois dígitos e as poupanças mensais mal chegam aos dois euros. “Para dar um desconto de 10% ao cliente final, os meus custos de produção tinham de baixar 25%, mas eles estão a subir porque o preço da energia está a subir”, garante o presidente da Endesa, Nuno Ribeiro da Silva.

Esta declaração parece contradizer os descontos de 10% da Endesa ou ainda os da Galp, com descontos de 5%, 10%, 15%, 20%, 25% e até 40%. Só que em todos eles os cortes são parciais – ou só no preço da potência do contador ou só na tarifa de energia – o que significa que o desconto na conta toda oscila apenas entre 2% e 10%, mas neste último obriga a pagar por serviços extra.

Pelas contas do Dinheiro Vivo, um cliente com potência de 3,45 kva – a mais comum no mercado – e um consumo médio de 214,4 kwh que adira ao tarifário da Galp que dá 15% de desconto na potência, poupa 80 cêntimos por mês. Se aderir ao tarifário da EDP – que dá 2% de desconto na fatura toda -, a poupança é exatamente a mesma. No gás, os 10% a menos que a Galp dá no termo fixo equivalem a um desconto total na conta de 1,5%, enquanto que a EDP dá 5% na conta toda.

Os tarifários da Galp são mais vantajosos se os clientes tiveram uma potência maior, por exemplo, 6,9 kva. Assumindo os mesmos níveis de consumo, os pacotes com 15% e 20% de desconto equivalem a descontos de 5% e 6% na conta, mais que os 2% da EDP.

Mais do que nos preços, a guerra está nos bastidores, na forma como as empresas comunicam o desconto e na estratégia comercial que escolhem. Para a Endesa, por exemplo, justifica-se fazer desconto na potência porque “muitas delas estão mal contratadas e assim consigo ganhos para a empresa e para o cliente”. Mas recusa fazer ofertas que impliquem a compra de serviços de valor acrescentado porque “não são alternativas limpas”.

Já a EDP, sabe o Dinheiro Vivo, irá sempre apresentar desconto sobre a fatura toda, à volta dos 2%, fazendo depois algumas campanhas promocionais. “Privilegiamos a transparência nas ofertas que apresentamos ao cliente e vamos evitar mensagens agressivas”, sublinha o administrador da EDP Comercial, Pedro Pires João.

“Estamos a abdicar de margem de lucro”

As empresas podem condenar as estratégias comerciais umas das outras, mas todas concordam que não dá para baixar mais os preços porque já estão a perder margem de lucro. “Claro que prejudicamos as margens”, diz a Endesa. “Não há espaço para maior agressividade comercial”, diz a EDP. “A estrutura tarifária atual não deixa espaço para fazer descontos maiores. As propostas de mercado livre baseiam-se num desconto face à tarifa regulada e esse desconto é feito à custa da margem de comercialização”, diz a Galp.

Contudo, é um risco calculado, porque as empresas fazem os descontos e perdem dinheiro na expectativa de ganhar clientes suficientes que depois possam cobrir essas perdas ao longo dos anos. Agora é sim, um risco maior que, por exemplo nas telecomunicações, porque não há fidelização nem pode haver. Não é proibido, mas é altamente desaconselhado pelo regulador.

As operadoras justificam a perda de lucro com os elevados custos da produção ou com o preço fixo do uso das redes de transporte que pagam à REN e que têm depois de refletir na conta final. Mas ressalvam também os custos de processo e de angariação de clientes e ainda a publicidade e o marketing. Por exemplo, usando o call center, um cliente pode custar 30 euros. E usando o sistema porta a porta, pode chegar aos 100 euros, apurou o Dinheiro Vivo. Como diz Ribeiro da Silva, esses custos podem ser equivalentes à receita de ter um cliente um ano e meio na carteira.

É exatamente nestes custos que as empresas estão a tentar cortar para conseguir dar descontos maiores e perder menos dinheiro, dizem. A campanha da EDP que surgiu em simultâneo com o leilão da Deco e que dava descontos totais de 5% na luz e de 10% no gás, obrigava a aderir através da internet, a ter fatura eletrónica e a pagar por débito direto, mas só por ter estes três processos online a EDP já conseguia dar mais 3% de desconto em relação ao que dá agora.

O mesmo se passa agora na nova campanha da Galp, em que o pacote que obriga à adesão online dá desconto de 20% na potência, enquanto o plano base dá apenas 15%. Na prática, as duas empresas gastam menos dinheiro em papel, no envio de cartas e nos processos de transferências de clientes.

Governo “muito atento” à concorrência

Esta agitação, mais na eletricidade que no gás, são consequências da liberalização do mercado. Apesar de ter arrancado em 2006, só o ano passado é que começou a ser efectivamente implementada, muito por exigência da troika, que, recentemente, disse não estar satisfeita com o rumo da liberalização. O Governo pediu paciência.

“A pressa é inimiga da perfeição. Portugal só tem um país com quem trocar energia e tem poucos operadores. Temos tentado explicar isto a quem vem de fora”, disse ao Dinheiro Vivo, o secretario de Estado da Energia, Artur Trindade. Diz o governante, “se se fizesse uma liberalização rápida, os consumidores iam todos para os operadores onde já estavam e não ia haver mercado. É preciso dar algum tempo às pessoas para fazerem as melhores escolhas”.

O prazo para mudar para o mercado livre acaba em 2015, mas desde o final do ano passado que as transferências aceleraram porque, desde o início deste ano que as tarifas reguladas acabaram e passaram a ser transitórias e com a agravante de aumentarem de três em três meses. Consequência: Em maio de 2012 havia pouco mais de 500 mil clientes livre e em maio deste ano já eram mais de 1,7 milhões.

“Os sinais a que temos vindo a assistir em termos de concorrência são positivos e o aumento de 2,8% na luz no início do ano está a ser abatido pelos descontos que têm surgido o que é muito além do que o que esperávamos”, acrescentou Artur Trindade. No gás é “não se vê tanta dinâmica porque ainda há algumas matéria que têm de ser resolvidas com Espanha”. Mas ressalva: “O caminho para a liberalização é longo e não será um mar de rosas, mas haverá benefícios maiores para os consumidores”. E para garantir isso, “o Governo está constantemente a monitorizar todo o processo”, e foi por isso mesmo que dotou o regulador de poder multar as empresas.

Esta competência terá ainda mais peso quando o mercado estiver totalmente livre e prevalecerem as regras de mercado. Hoje, os descontos são sobre a tarifa transitória, mas a partir de 2016, as empresas farão os descontos com base nos preços da energia nos mercados internacionais; se conseguirem comprar mais barato, podem dar mais desconto. O problema “é que as estimativas internacionais apontam todas para um aumento do preço da energia a longo prazo.

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