Stress e ansiedade. Experiência de isolamento é desafio a superar no teletrabalho

Flexibilidade entre trabalho e vida pessoal é o grande benefício do trabalho remoto. Mas esconde desafios.

"Na vivência do teletrabalho, um dos grandes desafios a superar foi, e é ainda, a experiência de isolamento", considera o psicólogo clínico Nuno Mendes Duarte, autor do livro Superar a Ansiedade, da Manuscrito. "Apesar de se poder estar permanentemente em contacto no Teams, Whatsapp, email e, por vezes, rodeado de familiares, tem-se pouco espaço para uma ligação humana e afetiva de qualidade." Até porque, para muitas pessoas, os momentos de pausa no trabalho e de conversa casual entre colegas "são parte de uma das estratégias de regulação de resposta ao stress e prevenção de baixas na motivação", explica. "Torna assim fundamental a criação de espaços de comunicação dirigidos à experiência emocional do colaborador e a questões dirigidas ao seu bem estar psicológico - como seria natural num contacto diário presencial".

Para as especialistas da consultora Mercer Vânia Fonseca, senior consultant e especialista em flexible work solutions, e Marta Dias Gonçalves, rewards leader, esta questão comporta dois cenários diferentes: o de teletrabalho obrigatório (que deixou de vigorar a 1 de agosto, salvo raras exceções), por força da pandemia, e o trabalho remoto enquanto benefício, que "visa promover maior work-life balance dos colaboradores e é implementado de forma voluntária num cenário de evolução positiva da pandemia", frisam. "Durante o teletrabalho obrigatório, houve naturalmente um aumento do risco de temas relacionados com a saúde mental e física, já que perdemos a nossa liberdade de deslocação (no âmbito profissional e pessoal), assistimos ao abrandamento da economia e à incerteza da sustentabilidade financeira de várias organizações, trabalhámos durante um período alargado sem a infraestrutura física e digital adequada, e muitos tiveram os filhos em telescola". No início da pandemia, o estudo Mercer Global Talent Trends 2020 indicava que dois em cada três colaboradores se sentia em risco de burnout.

Filipa Silva, senior consultant da Michael Page, recorda que "embora a produtividade se tenha mantido ou até aumentado em teletrabalho [durante a pandemia], é importante referir que aumentaram também as horas de trabalho diárias e tornou-se mais difícil estabelecer uma linha entre vida pessoal e profissional. Estas questões levaram, em muitos casos, ao aumento de stress e ansiedade relacionados com o trabalho".

É por isso que, segundo Mário Gonçalves, head of Hays response, "é fundamental que as empresas que adotem modelos de teletrabalho estejam em alerta". "Em todas as funções a necessidade de separar a vertente profissional da pessoal é fundamental para assegurar um devido equilíbrio emocional. Um dos perigos que o teletrabalho tem demonstrado são os riscos de os profissionais não efetuarem a devida separação entre as duas dimensões. Desta forma, temos assistido e observado em alguns estudos que apontam para um aumento dos níveis de stress e ansiedade pela necessidade de estar online em permanência", considera.

O psicólogo Nuno Mendes Duarte explica que, na sua perceção, existem dois níveis que deveremos considerar quando pensamos na ansiedade no regresso ao trabalho, no contexto da pandemia. "Distingo assim a ansiedade que está directamente relacionada com a covid-19 e com os receios inerentes à possibilidade de infeção, e a ansiedade relacionada com aspectos da relação com colegas ou com a avaliação por parte dos outros que pode ser sentida como ameaçadora."

"É importante percebermos que quando falamos em ansiedade nos estamos a referir a uma perceção de ameaça perante um estímulo que não constitui fonte de perigo. Quando falamos em stress referimo-nos à necessidade de adaptação e capacidade de resposta a uma carga (emocional ou de contexto) excessiva ou imprevista", explica Nuno Mendes Duarte. "Muitas pessoas, sentiram durante este tempo esta experiência de stress (que pode ou não ter agravado a presença de ansiedade). Um dos impactos sentidos é, naturalmente, na motivação dos colaboradores e no seu bem-estar psicológico. Nesta fase, além da gestão dos objectivos ambiciosos (mas alcançáveis) é fundamental a presença e apoio por parte dos managers."

Quando recorrer a apoio por causa da ansiedade?

O psicólogo clínico Nuno Mendes Duarte explica que para saber quando recorrer a apoio por parte de um profissional de saúde, convém avaliar algumas características da forma como a ansiedade se manifesta e é sentida, nomeadamente:

Intensidade: "Quando a ansiedade que se manifesta em determinadas situações é exagerada. As pessoas concordam que as sensações de ansiedade não são adequadas à situação e a maioria das pessoas sentem pouca ou nenhuma ansiedade na mesma situação", explica o diretor da Oficina da Psicologia.

Duração: "Observa-se uma duração persistente da ansiedade, tipicamente de 6 meses ou mais. Assim, sabemos que não é apenas uma ocorrência específica, como acontece a qualquer pessoa. Reconhecemos a ansiedade a aparecer repetidamente nas situações que a desencadeiam."

Interferência: "O conjunto de todos os sintomas da ansiedade interferem significativamente nas suas actividades diárias. Pode ter dificuldade em sentir calma e segurança ao longo do seu dia, sentir que tem dificuldade em concentrar-se nas suas tarefas, notar que o seu pensamento se perde nas ameaças catastróficas até o seu sono pode estar perturbado."

Regresso ao trabalho sem stress

Ainda segundo o psicólogo Nuno Mendes Duarte, autor do livro " Superar a Ansiedade - Um Manual para Conquistar uma Vida Calma", da Manuscrito, neste regresso ao trabalho presencial para melhor prevenir e gerir alguns efeitos do stress e ansiedade, poderá:

- Ser gentil consigo e com os outros: estamos todos a atravessar um período difícil e nem sempre os resultados vão corresponder ao plano inicial. É natural que sinta incerteza e desconforto.

- Planear e preparar o trabalho: precisa de se adaptar a novas rotinas, à mudança de algumas metodologias e ritmos horários. Tome um passo seguro de cada vez. Procura planear com tranquilidade um plano realista de tarefas e lembre-se que outras pessoas estarão a sentir o mesmo.

- Falar e fortalecer a ligação com os colegas: privilegiar os momentos de pausa e convívio, são fundamentais para se sentir menos isolado.

- Avaliar com frequência como se sente: note como está a lidar com o dia de trabalho: questione-se sobre o que poderia estar a fazer para se manter mais saudável mentalmente.

- Aprender estratégias positivas para lidar com a ansiedade: quando se sente mais ansioso é natural que possa sentir o coração a bater mais depressa e a respiração mais superficial. Aprender respiração abdominal (presente no livro Superar a Ansiedade), durante breves minutos, pode ajudá-lo a relaxar, recuperar o foco e acalmar o fluxo de pensamentos.

- Construir tolerância à incerteza: tente realizar uma tarefa que o desafie todos os dias

- Adoptar uma rotina frequente de actividade física: o exercício físico é um dos pilares fundamentais para uma boa regulação dos seus níveis de stress e ansiedade.

- Praticar meditação mindfulness: para modifica a relação com os seus pensamentos, aumentar o seu foco no presente e diminuir a sua auto-crítica.

- Ter uma alimentação cuidada: A qualidade com que se alimenta é fundamental para o equilíbrio do seu metabolismo e para regular as suas emoções, nomeadamente a ansiedade.

- Cuidar da higiene do sono: aprenda os princípios fundamentais para equilibrar o ciclo de sono (dicas específicas presentes no livro Superar a Ansiedade)

- Apoiar-se nas relações familiares e sociais: usufrua dos benefícios da ligação aos outros, como forma de diminuir os impactos negativos do stress.

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