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TAP regressou à esfera do Estado mas sem ficar imune a polémicas

Fotografia: Regis Duvignau/Reuters
Fotografia: Regis Duvignau/Reuters

Relação entre acionistas privados e públicos - o Estado não interfere nas decisões executivas - na companhia voltou a ser notícia nas últimas semanas

A TAP, que voltou à esfera do Estado em 2016, após a reversão da privatização, tem vivido períodos por vezes conturbados, marcados por greves, problemas operacionais, mudanças na gestão, uma polémica atribuição de prémios e recentes rumores de alterações acionistas.

A venda da TAP foi fechada em novembro de 2015, pelo governo de Passos Coelho, depois de mais de 15 anos de avanços e recuos na privatização, mas acabou revertida em 2016 pelo executivo de António Costa.

O governo encetou então negociações com o consórcio Atlantic Gateway, de David Neeleman e Humberto Pedrosa, que tinha vencido o concurso para a privatização da companhia aérea e, em agosto de 2016, a Autoridade da Concorrência (AdC) aprovou a operação de concentração na empresa, que ficou assim controlada maioritariamente pelo Estado, detendo 50% da companhia aérea. Até então, a TAP era controlada pelo consórcio Atlantic Gateway, que tinha adquirido 61% do capital.

A relação entre os acionistas privados e públicos – o Estado não interfere nas decisões executivas – na companhia voltou a ser notícia nas últimas semanas.

Segundo o Jornal de Negócios, o empresário David Neeleman estará de saída da TAP no primeiro trimestre do próximo ano, pretendendo o Estado usar esta eventual mudança acionista para negociar alterações na gestão da companhia e nomear um administrador executivo.

Segundo o jornal, que não citou fontes, esta eventual saída está relacionada com “o degradar das relações” entre Neeleman, o Estado e o seu parceiro no consórcio Atlantic Gateway, Humberto Pedrosa, que tem 45% da TAP, bem como com os “resultados negativos”.

Após a publicação desta notícia, Neeleman divulgou um comunicado no qual, sem desmentir ou confirmar a informação, afirmou estar “cada vez mais entusiasmado com o futuro” da companhia aérea.

Depois desta posição, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, assegurou que não estava prevista qualquer alteração acionista na TAP: “Não está prevista nenhuma alteração desta relação entre o Estado e o privado, portanto, tudo o resto, notícias que ouvi e li são notícias, neste momento, não tenho qualquer tipo de confirmação e, por isso, qualquer juízo sobre essa matéria é meramente especulativo e não era correto da minha parte estar a fazê-lo”, declarou.

Na segunda-feira, o administrador não executivo da TAP Diogo Lacerda Machado justificou hoje a “movimentação” à volta da companhia por esta ser “mesmo muito interessante” aos olhos do mercado, recusando, no entanto, comentar possíveis alterações acionistas na empresa.

Os resultados negativos consecutivos não ajudam ao entendimento entre acionistas da TAP, ainda que sejam raros os exercícios em que a companhia aérea registou resultados positivos.

Em 2015, a TAP SGPS obteve um prejuízo de 156 milhões de euros, tendo a TAP S.A. (negócio da aviação) registado 99 milhões de euros negativos, de acordo com o relatório e contas publicado no ‘site’ da empresa.

Este cenário repetiu-se durante os anos seguintes, com exceção de 2017, ano em que a TAP S.A. conseguiu um lucro de mais de 100 milhões de euros, com a SGPS a reportar resultados positivos de 21,2 milhões de euros.

Em 2018, a SGPS regressou ‘ao vermelho’, com prejuízos de 118 milhões de euros (a S.A. atingiu os 58,1 milhões de euros negativos).

Nos primeiros nove meses deste ano, os resultados da TAP S.A. foram negativos em 111 milhões de euros.

Foi no primeiro semestre do ano passado que se agravaram as questões operacionais, com falta de pessoal e protestos dos trabalhadores, que afetaram a pontualidade e geraram uma vaga de cancelamentos que se tornou num assunto em debate pelos poderes políticos.

A companhia aérea apontou ainda o dedo aos constrangimentos de operação no aeroporto de Lisboa, com uma média de 37 voos atrasados por dia, entre 28 de agosto e 11 de setembro do ano passado, segundo o presidente executivo da empresa, Antonoaldo Neves.

A TAP voltou a alertar, no dia 28 de novembro deste ano, que os seis meses de obras previstos, entre janeiro e junho de 2020, no aeroporto de Lisboa, poderão gerar uma perda de 12 milhões de euros em receitas, com a possibilidade de atrasos e cancelamentos.

Antes, no início de 2018, concluiu-se um ciclo na TAP, com a saída de Fernando Pinto da presidência executiva da companhia aérea e a sua substituição por Antonoaldo Neves.

O novo líder levou a cabo uma negociação complexa do acordo de empresa para várias categorias de funcionários, iniciou um programa alargado de contratações e de aquisição de novos aviões para a companhia aérea, com 71 aviões previstos até 2025 e que já começaram a ser entregues.

Os níveis de pontualidade melhoraram e a empresa subiu ao 53.º lugar do ‘ranking’ da pontualidade da empresa de estatísticas OAG em fevereiro deste ano, face à 83.ª posição que registava no mesmo mês de 2018.

Ainda assim, Antonoaldo Neves não ficou imune a polémicas. Em junho deste ano, a Lusa noticiou que a companhia aérea pagou prémios de 1,171 milhões de euros a 180 pessoas, incluindo dois de 110 mil euros atribuídos a dois quadros superiores.

A Comissão Executiva da TAP justificou a atribuição dos prémios com o “programa de mérito” implementado pela companhia, que diz ter sido “fundamental” para os resultados atingidos em 2018, mas o assunto acabou por gerar polémica, não só entre os sindicatos da empresa, mas também com o Governo.

O Ministério das Infraestruturas e da Habitação falou mesmo em “quebra de confiança entre a Comissão Executiva e o maior acionista da TAP, o Estado português”.

Pouco tempo depois, a TAP foi confrontada com relatos de náuseas nas tripulações e passageiros do A330neo, um dos novos aviões que estão a fazer as rotas da companhia aérea.

A Airbus garantiu, numa carta enviada à TAP, que não existe qualquer correlação entre os cheiros estranhos que têm sido detetados nos novos aviões A330 Neo e os sintomas de desconforto na tripulação.

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