1,7 milhões já instalaram a app da discórdia, mas só 179 infetados enviaram alertas. Saiba porquê

Obrigatória ou não, a app Stayaway Covid "é fulcral para combater o vírus", diz virologista Pedro Simas. Mas há um problema atual: poucos infetados (cerca de 1,2%) dos novos casos estão a colocar o código na app. Ministério da Saúde criou webinar para tentar dar resposta ao problema.

A app Stayaway Covid foi lançada oficialmente em Portugal a 1 de setembro, já teve 1.683.042 downloads entre Android e iPhone, mas tornou-se em alvo de polémica generalizada esta semana com o anúncio do Governo que pretende torná-la obrigatória nos locais de trabalho e escolas.

Apesar de teoricamente já chegar a cerca de 16% da população portuguesa - 19% se contarmos com a população que tem smartphone, cerca de 8,3 milhões, de acordo com dados da IDC - a app ainda não tem uma grande taxa de utilização a nível dos infetados. Para que a Stayaway Covid funcione, ou seja, envie alertas para os telemóveis de quem esteve perto de uma pessoa infetada (a menos de 2 metros de distância, durante mais de 15 minutos) nos últimos 14 dias, é fundamental que se use os tais códigos.

Até esta manhã, apenas 179 pessoas infetadas tinham colocado o código que receberam no teste feito pelo SNS na app, indica-nos o INESC TEC, que acrescenta que só foram gerados até agora pouco mais de 430 códigos pelo SNS. Ora, desde 1 de setembro já se registaram mais de 35 mil casos de covid-19 em Portugal. Além disso, apenas 152 pessoas ligaram para a Saúde24 a indicar que receberam pela app a notificação de proximidade com pessoa infetada.

Luís Goes Pinheiro, presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, admite-nos não ter explicação clara para o motivo, mas estão já em marcha algumas medidas e abordagens para alterar essa situação. A aposta, para já, passa "pela formação dos médicos que geram os códigos (são cerca 30 mil os médicos credenciados, a maioria do SNS), daí que já para esta sexta-feira esteja marcado um webinar para garantir que todos sabem mesmo executar os códigos".

Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, lembra ao Dinheiro Vivo que a pouca taxa de códigos gerados (pouco mais de 1% dos infetados é que recebe códigos) "deve estar relacionada com a fraca adesão das pessoas, já que os médicos só geram os códigos se a pessoa tiver a app instalada ou o desejar", embora admita que "possa haver médicos que não tomam a iniciativa de perguntar se a pessoa quer".

Já sobre a questão de apenas um quarto dos códigos gerados ser colocado na app (gerando as notificações necessárias para tudo funcionar), o especialista não tem explicação concreta.

Relativamente à obrigatoriedade da app, o investigador do Instituto Ricardo Jorge acredita que "não vai passar". Mexia explica: "Não faz de facto sentido que seja obrigatória e ainda menos nas escolas e nos locais de trabalho. Se há sítio onde sabemos que são os contactos se houver um caso é precisamente nesses contextos controlados."

Rui Oliveira, do INESC TEC, indicava-nos há umas semanas que a app usa tão poucos dados e é de tal forma anónima - cumprindo todos os requisitos possíveis da Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) - que é impossível saber com exatidão a sua eficácia.

"O que sabemos é que cada pessoa que coloca o código na app e, assim, avisa outras a terem precauções (e a ligaram para a Saúde24) já é uma vitória e uma possível cadeia de transmissão que pode ser travada", explica. Sobre a sua obrigatoriedade, o INESC TEC, que construiu a app integrada no consórcio europeu D3PT, não tem posição oficial, mas lembra (tal como aparece nos termos e condições da app e é prática nos outros países europeus) que foi pensada para ser voluntária.

CIP a favor da app, contra a sua obrigatoriedade

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal, CIP, explicou esta tarde ao Dinheiro Vivo, durante um debate sobre saúde mental no trabalho, promovido pela Ordem dos Psicólogos que a app é bem-vinda, a sua obrigatoriedade não.

António Saraiva não acredita que o projeto de lei do Governo chegue a bom porto. "Fui dos primeiros a instalar a app, acho que é um dever cívico instalar esta ferramenta, mas nunca pode ser obrigatória, não só porque nem todos têm telemóveis compatíveis, mas porque não faz sentido em geral".

Já Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses, concorda e admite que em países como Portugal é possível que a obrigatoriedade não cumpra o efeito desejado.

"Julgo que o objetivo é bem mais ser um alerta para a instalação do que querer mesmo que seja obrigatório, mas às vezes pode-se ficar com a ideia que a app não requer os mesmos cuidados de máscara e distanciamento, o que não é verdade", explica o psicólogo que admite que com a máscara aconteceu algo semelhante. "Uma coisa é recomendar o uso, outra era as pessoas ficarem com a ideia que com a máscara já não precisam de distanciamento social, o que não é verdade e psicologicamente pode ter esse efeito perverso".

App pode ser muito útil

O virologista e investigador Pedro Simas admite que a app "pode ser muito útil e usá-la é um dever de cidadania, tal como o uso de máscara (que, já se viu a nível mundial, especialmente na Ásia, faz toda a diferença e nos dá a liberdade de não precisarmos de confinar, embora se deva manter o distanciamento)".

No entanto, admite que é fulcral que os tais códigos sejam gerados e as cadeias de transmissão sejam, assim, quebradas. "Tem de ser um sistema simples e rápido e que funcione quase em tempo real para se gerar os códigos e todos os médicos devem estar cientes da importância de os usar e sugerir às pessoas infetadas".

Embora não seja uma solução milagrosa, Simas explica que o uso de app de rastreio "já deu provas em vários países de ser eficaz e uma ferramenta imprescindível".

Sobre a sua obrigatoriedade, não tem opinião formada. "Deixo isso para políticos, empresas e sociedade em geral, mas claro que vejo com bons olhos que muita gente use a app".

Recapitulamos, de seguida, algumas das informações já recolhidas antes sobre as apps de rastreio:

O que se passa noutros países

A Austrália um dos países com maior taxa de adopção no mundo, perto do 30% - Singapura, China ou Coreia do Sul usam mais dados pessoais e georeferenciação e não têm divulgados os números oficiais. A app australiana pede, ainda assim, mais dados do que as europeias (telefone, idade, código postal) e já chegou no final de agosto a 25 milhões de utilizadores, 28% da população.

A Nova Zelândia tem 2,1 milhões de utilizadores, ou seja, 42% da sua população de 5 milhões, enquanto Espanha tinha 7,2% da população (3,4 milhões) no início do mês (a app foi lançada a meio de agosto).

A nível europeu é a Irlanda que comanda, com cerca de 37% de taxa de adopção, com a Alemanha a estar nos 20% e a Islândia a conseguir 40%. Na Turquia ou no Qatar, por exemplo, a app é obrigatória.

App reduz o contágio?

Ao contrário do que se pensava em abril, a app de rastreio pode ter bons resultados com valores de implementação bem mais baixos do que se pensava, de acordo com estudos recentes. Em Espanha, uma análise após alguns testes com a sua app Radar Covid, demonstrava em agosto que se 20% da população aderir e participar, as infeções podem ser reduzidas até 30% face ao que aconteceria sem a app.

O mês passado um estudo da Universidade de Oxford e da Google, no Reino Unido, indica que se 15% da população aderir à app (e ela funcionar bem, a nível de códigos gerados e usados), as infeções podem ser reduzidas em 15% (com uma redução prevista de 11% das mortes por covid-19).

Convém lembrar que o uso da app só é eficaz, além da questão dos códigos gerados e utilizados, se o Bluetooth do telefone estiver ligado quando está perto de outras pessoas (também convém, por questões técnicas, abrir a app diariamente ou perto disso).

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