A magia da tecnologia (europeia) juntou 104 mil online

Com a Europa e Portugal em peso, a Web Summit online foi o palco para cativar talento estrangeiro, encontrar investidores e mostrar como a tecnologia "vai guiar uma nova economia sustentável".

A 10.ª edição da Web Summit, 5.ª em Lisboa, foi pela primeira vez totalmente online mas voltou a ser o habitual frenesim de oradores, investidores, startups, conversas, mesmo sem ter 70 mil participantes em Lisboa. Na verdade, foram mais de 104 mil pessoas, de 168 países, ligadas naquela que se julga ter sido a maior conferência digital do mundo - as rivais mais próximas, neste ano, foram eventos da Microsoft e do Financial Times, com 50 mil.

Da lista de participantes - onde não faltou a dupla de atores de Breaking Bad, a atriz Gwyneth Palthrow ou o diretor da Organização Mundial da Saúde - estavam também 50 mil estudantes portugueses. Todos receberam bilhetes sem custos (que nos últimos dias estavam a custar 219€), numa "regalia" que foi apontada por Paddy Cosgrave, em entrevista ao Dinheiro Vivo, como uma forma de recompensar Portugal pela ausência, neste ano de pandemia, de receitas nas viagens, hotelaria e restauração.

Além disso, o evento, apresentado por Filomena Cautela, teve mais oradores portugueses (políticos, empresas e empreendedores) do que nunca e um canal (nome dos palcos) só dedicado a Portugal. Aí, políticos e pessoas do ecossistema de inovação português puderem mostrar o que o país vale, sempre a falar inglês, a pensar em cativar os investidores e empreendedores presentes no evento.

Esse mesmo convite já tinha sido feito por António Costa e Fernando Medina na abertura do evento, quarta-feira, mas também por governantes de outros países. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchéz, convidou os "talentosos participantes da Web Summit" a virem para Espanha "para criarem empresas e desenvolverem tecnologias e projetos", e sustentou a recuperação económica do país "na evolução tecnológica e no empreendedorismo".

O mesmo convite fez já nesta sexta-feira o primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis, admitindo que a pandemia está a tirar de Silicon Valley e de grandes metrópoles talentos "que devem vir para a Europa".

Perspectiva semelhante foi passada no Canal Portugal, incluindo por Carlos Moedas. O ex-comissário europeu e atual administrador da Gulbenkian admitiu que foi desafiado pela CEO da DefinedCrowd, Daniela Braga, e vai tentar criar em Portugal um Hub de Inteligência Artificial, "aproveitando a experiência de grandes empresas portuguesas na área e o talento nacional e estrangeiro".

Dentro dos anúncios no evento, que teve mais de mil oradores - com forte presença dos principais responsáveis políticos da Comissão Europeia -, houve uma clara aposta em tornar a Europa no sítio para se estar para inovar. E se José Mourinho recebeu o prémio de inovação do desporto, o seu primo, Ricardo Mourinho Félix, vice-presidente do Banco Europeu de Investimento, anunciou um fundo europeu para inteligência artificial de 150 milhões de euros e convidou as startups a apresentarem propostas.

E o que tirou Portugal do evento online?
Ricardo Marvão, cofundador da Beta-i e habituado a percorrer várias conferências mundiais e a ajudar empreendedores a inovar, explica-nos (numa conversa que pode ouvir no nosso podcast Inside Web Summit) que a existência de tanta exposição sobre o país na Web Summit "faz a diferença", "mesmo online".

"Portugal nunca teria um palco tão relevante de exposição para trazer talento para o país e ter tecnológicas relevantes a investir como temos visto nos últimos anos sem a Web Summit", admite. O especialista diz que o cenário atual de pandemia tirou a parte ideal, do evento presencial, "mas o online, nesta modalidade mais interativa, foi uma boa solução arranjada".

Daí que uma das estrelas do evento tenha sido a ferramenta Mingle, que permitiu que os 104 mil participantes pudessem durante três minutos falar com outra pessoa do evento, numa espécie de speed dating profissional. Depois de dois dias de evento já havia dois empreendedores americanos com mais de 500 Mingles, um total de 33h20 em encontros na plataforma. "Os empreendedores vão às conferências para essa interação, não propriamente pelos oradores", diz Marvão.

Apesar da alternativa online, o próprio Paddy Cosgrave já admitiu que a Web Summit é para ser presencial - embora no próximo ano vá ser híbrida. Já sobre se o evento online vale os 11 milhões de euros pagos pelo Estado português: "Tal como o WhatsApp saiu barato ao Zuckerberg, a Web Summit sai barata a Portugal". O consultor explica que outros países querem ter o evento e que há "vantagens para o país que só podem ser sentidas dentro de uns anos e não de forma imediata".

À espera de Biden e de impostos digitais
Joe Biden não esteve presente mas foi um dos nomes mais referidos ao longo dos três dias. Se na primeira edição da Web Summit em Portugal, em 2016, Donald Trump tinha acabado de vencer as eleições dos EUA, a transição para a administração de Biden deixa notas de esperança, tanto a dirigentes europeus como aos líderes de algumas empresas.

Do lado da Comissão Europeia, os vice-presidentes Valdis Dombrovskis e Margrethe Vestager deixaram transparecer a esperança: "Esperamos um novo começo na cooperação transatlântica", disse Dombrovskis, recordando que Biden já demonstrou ser um "forte apoiante do multilateralismo e de alianças entre países." Já Vestager detalhou que a UE já abordou os EUA "para perceber se pode colaborar", com a esperança de que uma boa relação transatlântica "seja o ponto de partida para uma aliança global".

Quem também espera que o tom de conversa seja diferente com a Casa Branca é o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire. França tem insistido na temática dos impostos digitais - tema controverso com Trump, que até ameaçou com sanções. "Trump não quis participar na criação destes impostos digitais, mas acreditamos que com Biden pode haver o acordo que falta em sede da OCDE para construir um novo sistema de impostos digitais internacional que será mais favorável e importante para todos."

2021 promete trazer desenvolvimentos nos impostos digitais, tema que mereceu largos minutos dos responsáveis europeus. Mas, alertou Dombrovskis, a UE prefere uma solução internacional no acordo dos impostos, esperando um consenso com a OCDE até meados de 2021. No entanto, "na ausência de solução internacional, a Europa está preparada para avançar com uma solução a nível europeu", afirmou.

Do lado da OCDE, Pascal Saint-Amans reconheceu que "é preciso um acordo alargado" no tema dos impostos, referindo que "a covid é uma razão para a falha" nas negociações, "mas não é a única".

Web Summit abre-se (mais) ao mundo
Há 10 anos a Web Summit começava em Dublin com pouco mais de 100 pessoas numa sala de conferências. Foi a partir da capital irlandesa que a cimeira tecnológica fez crescer a sua rede de eventos para todo o mundo. Nenhum continente vai ficar de fora: nos próximos três anos, vão nascer pelo menos mais quatro cimeiras regionais organizadas pela equipa liderada por Paddy Cosgrave.

Em 2022, vai haver a Web Summit Tóquio, que servirá para explorar todo o mercado tecnológico japonês. No mesmo ano, o acontecimento tecnológico vai chegar ao Brasil, Rio de Janeiro ou Porto Alegre vão ser a capital do empreendedorismo na América do Sul. No meio disto, a conferência para o mercado asiático (RISE) passará a decorrer em Kuala Lumpur (Malásia) durante três anos, em vez de Hong Kong.

Em 2023, Paddy Cosgrave conta explorar mais duas regiões. África e Médio Oriente serão a sede de eventos locais da Web Summit. Desta forma, as startups e empresas daquelas regiões poderão sentir a vibração de novidades que prometem transformar todo o mundo. Mas só a partir do próximo ano é que vão começar a ser dados mais detalhes.

Com tantas ramificações, Lisboa continua acolher o principal evento da Web Summit - Paddy diz mesmo que o objetivo dos outros eventos é alimentar o evento-mãe em Lisboa. Até 2028 está assinado que a capital portuguesa será o ponto de encontro da tecnologia durante uma semana.

De dia, são esperadas as sessões com menos de meia hora, a presença de expositores e ainda as apresentações de startups a um ritmo frenético. De noite, haverá entrevistas de fundo com oradores específicos em salas de espetáculos de Lisboa. O objetivo é expandir a importância do evento a nível global e trazer mais pessoas relevantes dessas zonas para a casa mãe, a Web Summit em Lisboa, em novembro.

Mas o formato remoto não vai desaparecer depois desta edição. No próximo ano, Paddy Cosgrave conta ter um total de 140 mil pessoas na Web Summit, metade delas a participarem via online. Só em 2022, com a FIL duplicada, é que o centro de exposições poderá acolher tanta gente.

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