"A pandemia trouxe mais desinformação e teorias da conspiração para Portugal vindas de fora"

Depois de falarmos sobre deepfakes nesta parte do 21º episódio do podcast Made in Tech o investigador do ISCTE, Miguel Crespo, ajuda-nos a navegar pela desinformação e teorias da conspiração (mesmo em pandemia) na era digital. Como a literacia mediática faz a diferença.

Miguel Crespo é professor e investigador do ISCTE e do OberCom, em Lisboa, tendo-se especializado em jornalismo, informação e desinformação na era digital e é autor de vários trabalhos académicos e estudos sobre o tema, incluindo já em tempos de pandemia.

Nesta conversa falamos sobre a era digital, redes sociais e apps de mensagens, o seu impacto na sociedade como a conhecemos, bem como a essência humana já propícia à divisão e conflito que pode estar a ser incentivado e propagado de forma mais ampla pelos algoritmos.

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Alguns destaques da conversa

- "Portugal não é um país com problemas grandes na desinformação do ponto de vista político, mas a pandemia - muito por cópia de outros países - trouxe muitas teorias da conspiração a mais pessoas. Os grupos "pela Verdade" só criam desconfiança até porque ninguém é detentor da verdade e não são originais, mas sim cópias de movimentos de outros países, muitas vezes ligados a movimentos de extrema direita noutros países. Temos uma politização de questões de saúde pública e isso é um grande problema em pandemia. Isto não é um combate político. Tivemos muita desinformação sobre a pandemia, publicámos o primeiro estudo logo em março de 2020 e continuamos a fazê-lo. Exemplo: Covidcheck.pt

- Já temos menos negacionistas da pandemia agora do que há um ano, mas ainda há e agora são mais os que negam as vacinas. O exagero é grande quando as coisas chegam online e muitos não leem sequer os artigos completos - o erro é incentivado em certa medida.

- "Ser-se humano não é procurar respostas para as nossas perguntas, mas é muitas vezes procurar respostas que confirmam aquilo que já pensamos saber. Se virmos um título que parece dar força à teoria partilha-se, mesmo que o texto não confirme totalmente essa ideia, o que interessa é que o título deixe essa hipótese em aberto."

- Como se desconstrói a desinformação? Em primeiro lugar é ler (ver ou ouvir) bem os artigos e a informação e perceber qual a fonte, depois então partilhar em consciência.

- As redes sociais não levaram as pessoas para o Donald Trump, vierem legitimar mais aqueles que já tinham tendência para querer votar nele porque viam outros como eles e ficavam.

- As presidenciais em Portugal foram um exemplo do discurso inflamado e que provoca divisões e discórdia é premiado e voa nas redes sociais - como se viu com o impacto brutal de André Ventura, especialmente no Facebook.

- Falso plano de desconfinamento partilhado há umas semanas mostra como há cada vez mais utilizadores a perceberem o que é ou não credível online, o que vem de fontes fiáveis ou não - e avisavam a quem partilhava que estava a partilhar desinformação. Temos assistido a uma viragem nos últimos tempos em Portugal neste sentido. Isto é literacia mediática e digital.

- Estudos indicam que as redes sociais incentivam em alguns casos a desinformação, até porque a desinformação é mais atractiva do que a informação e tem mais alcance. É porque a ficção não tem limites e é mais difícil pegar nos factos e torná-los apetecíveis.

- O ser humano é levado pelo conflito e isso leva as pessoas ao Facebook. Pessoas com visões antagónicas é algo bom para as plataformas porque as leva a estar lá mais tempo e reagir mais, embora as empresas não possam dizer isso.

- WhatsApp é uma rede onde também prolifera a desinformação e já houve muitas limitações para conter essa mesma desinformação que foi eficaz para Bolsonaro, no Brasil. A reação das plataformas acontece especialmente porque a pressão dos utilizadores contra a desinformação foi maior do que as vantagens de a manter. Começamos a ver algo semelhante agora com o Facebook, com as novas medidas para limitar comentários e ter mais escolha do que ver no Mural.

- Há cada vez mais pessoas a desincentivar a desinformação e avisar quem a partilha e aí vemos as redes sociais a moldarem a rede pela maioria contra a desinformação e que quer que elas funcionem melhor e estão preocupados com a sociedade.

- As empresas têm vários problemas: se limitarem o conflito, limitam a sua audiência e o interesse e isso tem efeitos nas receitas - isto parece, nesta altura, claro. As redes sociais existem, acima de tudo, para gerar lucro.

- Um dos principais problemas é a opacidade dos algoritmos, não sabemos como eles funcionam. Daí que transparência possa ser importante para perceber os verdadeiros efeitos na sociedade e os Estados começam a perceber isso - pode-se ter mais acesso às consequências dos algortimos mesmo sem revelar segredos de negócio.

Literacia mediática: o exemplo finlandês

- Todos os dias estamos a aprender novas formas de lidar e trabalhar com as novas ferramentas online. O exemplo na Finlândia ao ensinar-se os jovens logo no primeiro ciclo para lidar com literacia mediática e digital, mostra que eles ficam mais atentos e percebem melhor como as coisas online funcionam e quando podem estar a ser enganados. Essa informação chega aos pais e daí ser o país com menos fraudes na Europa.

- O melhor exemplo em Portugal no género foi a campanha da reciclagem, em que os miúdos eram incentivados a levar a informação para os pais e assim muda-se mais a sociedade.

- Legislação europeia e nos Estados para desincentivar a desinformação e limitar anúncios fraudulentos.

- Regras para anúncios para notícias falsas com esquemas fraudulentos de criptomoedas da Google e Facebook e a sua influência.

- "Temos investido para criar ferramentas tecnológicas com inteligência artificial para ajudar na investigação e correr as redes sociais e detetar a desinformação e como a informação de dissemina e como passa de país para país. Ainda há muito para fazer e há grandes projetos internacionais e nacionais que incluem a disseminação das mensagens."

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