Ricardo Martinho: "IBM vê Portugal como uma área de grande potencial de crescimento"

Novo presidente da IBM Portugal conta os planos da multinacional tecnológica para Portugal, após cisão com área de serviços de infraestruturas. Há planos para recrutar e captar novos parceiros e clientes para negócio tecnológico crescer.

José Varela Rodrigues
Ricardo Martinho, presidente da IBM Portugal © Gerardo Santos/Global Imagens

Ricardo Martinho é o presidente da IBM Portugal há três meses, desde que se concluiu a cisão dos serviços de infraestruturas da tecnológica para a empresa spin-off Kyndryl (liderada pelo seu antecessor José Manuel Paraíso). Em Entrevista ao Dinheiro Vivo, o novo gestor máximo da IBM Portugal explica o ponto de situação da subsidiária que está no país há oito décadas. Reforçar a equipa da IBM, duplicar o volume de negócios com base na captação de novos parceiros e clientes e trabalhar para que um dia a empresa venha a abrir mais um centro tecnológico no país são objetivos. Ricardo Martinho é o "produto 100% IBM", uma vez que todo o percurso profissional de mais de duas décadas foi desenvolvido nesta multinacional, que quer fazer crescer a subsidiária portuguesa já em 2022.

A IBM Portugal diz que vai "voltar às origens". Que momento é este e que desafios a sua liderança vai ter de dar resposta?
O desafio que vivemos é o da transformação, uma transformação importante. É uma reinvenção da própria empresa. Somos hoje uma empresa diferente, a nível global e em Portugal. Estamos focados na cloud híbrida e na inteligência artificial, esse é o nosso principal foco. Obviamente, com uma área de consultoria que é a chave na transformação de projetos dos nossos clientes. Ou seja, refocamos a nossa estratégia nas áreas mais tecnológicas...

... Porque a IBM até à cisão que originou a Kyndryl estava muito centrada na área de serviços.
Tínhamos uma componente muito grande nas áreas de serviços. Apostámos muito nas áreas de strategical outsourcing e essa foi outra das mudanças ao longo de 110 anos de história - e que foi muito relevante na altura e que deu muitos resultados -, mas o mercado já não estava a olhar para isso. Portanto, tivemos que nos reposicionar e a aposta na tecnologia tem sido, e é, o grande desafio, especialmente nestas áreas de cloud híbrida e de inteligência artificial. Em Portugal,

passam por passar esta mensagem, com conhecimento de causa e com experiência. Não é com marketing que empresas desta natureza conseguem vencer. É com demonstração. A aposta na cloud híbrida e a aquisição da Red Hat veio mudar o paradigma e são peças fundamentais naquilo que é o nosso dia-a-dia...

Vamos por aí, tentar perceber a cloud híbrida, que diz ser o foco da operação da IBM. O que é isso em concreto?
Se perguntar que clouds é que os nossos clientes estão a usar, provavelmente, todas menos da IBM - até porque não tinham esse conhecimento e muitas das clouds que usavam eram privadas. A cloud híbrida é a única forma que as empresas têm de tirar todo o valor do que querem de uma cloud. A cloud híbrida liga as clouds públicas a clouds privadas e a nossa é totalmente independente das infraestruturas onde corre. O mote é a plataforma, que veio da aquisição da Red Hat, que nos trouxe a plataforma e une todas as componentes de infraestruturas existentes. Se uma empresa tem já as suas infraestruturas, que utiliza diversas clouds - da IBM ou de outros fornecedores, edge computing etc.. Tudo isso tem dados e tem aplicações para integrá-las e para isso é precisa uma plataforma que seja heterogénea a todas essas componentes. A nossa cloud híbrida responde a essa necessidade.

Então, se uma empresa utiliza clouds de outros fornecedores a vossa plataforma consegue suportar na mesma as necessidades dessa empresa nessas clouds?
Sim, temos o melhor de vários mundos. Aliás, não queremos ser monolíticos. Obviamente que somos uma empresa comercial e queremos vender os nossos produtos, mas achamos que as empresas tiram mais valor se tiverem ambientes com mais do que uma cloud, porque têm diferentes estados, diferentes áreas, mais segurança e resiliência e, por isso, podem e devem usar este tipo de sistemas. A nossa plataforma garante isso e, como está baseada em plataformas abertas, permite e usa o que são as referências do mercado, como Kuburnetes, para construir todo o tipo de aplicações verticalmente integráveis nesta plataforma. Outra grande vantagem é que se hoje fizermos uma aplicação para uma cloud da IBM amanhã podemos lançar essa mesma aplicação numa outra cloud sem fazer nenhuma alteração. Isso é uma grande vantagem competitiva. Outro ponto muito importante são os frameworks específicos da indústria, nomeadamente a componente de serviços financeiros

O que significa isso?
Vai abrir um data center em Madrid , com o alto patrocínio do CaixaBank - que é detentor do BPI -, com funções de multi-regional zone. Na realidade, são três centros de processamento de dados em cloud com uma ligação à rede nevrálgica de internet e, em Portugal, temos que tirar o máximo proveito disso, até porque estamos muito próximos de Madrid.

Vão abrir também um novo centro em Portugal?
Haverá uma ligação. Não haverá um centro, porque não precisamos, mas teremos uma ligação com uma latência muito inferior a todas as outras ligações que existem no mercado, por causa desta proximidade. Vamos poder usar esse centro

com as nossas empresas portuguesas, da mesma forma que qualquer outra - neste caso o CaixaBank - está já a utilizar. Esta cloud para serviços financeiros tem a particularidade de ter um framework já predefinido, o que permite ultrapassar todas as barreiras de segurança, de regulação, de proteção de dados, de latência... Pela primeira vez, vamos poder passar cargas críticas - neste caso da banca - para uma cloud.

É um grande desafio, sobretudo pela sensibilidade dos dados de banca.
É um grande desafio, sim, por essa sensibilidade dos dados e pela disponibilidade que aquele banco terá, mas temos uma oportunidade única. Somos os únicos a ter este tipo de centro e este tipo de framework.

Que tipo de papel vai ter a IBM Portugal nessa operação com o CaixaBank?
A importância que Portugal tem para esse centro é a de conseguirmos levar clientes portugueses para lá. Se isso acontecer - a gestão é, obviamente, centralizada lá - teremos uma palavra a dizer fazendo a ligação direta com esse centro.

Já há clientes portugueses da IBM em vista?
Há alguns pretendentes ainda numa fase de estudo. Esta é uma oportunidade única de demonstrarmos à área financeira portuguesa, em especial, as vantagens de usarem cloud.

Esses pretendentes são apenas da área financeira ou há outros de outras áreas?
Há vários de outras áreas que estão interessados nestes serviços financeiros, até porque a área financeira mudou radicalmente e não são só os bancos a integrar a área financeira. Há startups e outro tipo de empresas que querem entrar neste mundo.

Os serviços financeiros são um dos frameworks. Que outro tipo de frameworks tem a IBM e que prevê que venham a ser mais requisitados?
A área governamental e de administração central é um dos pontos em que estamos a apostar. Falo dessa porque está mais regulada e tem outras exigências. Mas, a partir da área financeira, que é uma das áreas fortemente reguladas, a adaptação a outro tipo de indústrias será muito mais fácil.

Sente que as empresas portuguesas têm apetência para este tipo de soluções, pensando na transição digital?
É um sentimento misto. Há empresas que sabem muito bem para onde querem ir, conhecem muito bem o caminho a fazer e as vantagens que este tipo de tecnologias leva para o seu negócio. Mas há outras que nem pensavam nisso e, nesse ponto, a pandemia acelerou a adoção de novas tecnologias remotas, principalmente nesta área de plataformas de cloud. Este tipo de soluções é uma realidade obrigatória para que os negócios se mantenham vivos, transformando-os. Muitos dos que não se conseguem transformar - e há exemplos disso - têm uma tendência a desaparecer. Obviamente que há empresas que têm mais capacidade para investir nestas áreas, e outras nem tanto. E aí a consultoria para definir passos a dar - que a IBM também pode dar - pode fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso nesta transformação. Não defendemos uma transformação 'Big Bang' - acabou tudo o que se fez até hoje e passa tudo para a cloud -, mas há determinados processos, em determinadas áreas, que fazem todo o sentido e que dão retorno às empresas relativamente ao investimento que tem de ser feito. Muitas vezes isso não acontece por falta de visão das empresas, porque nunca pensaram ou dedicaram-se a isso. Por isso, há um sentimento misto. Mas há também uma tendência para que as empresas estejam cada vez mais sensíveis a estas plataformas de cloud - que ajudam a reduzir alguns custos operacionais e geram agilidade e flexibilidade ao negócio.

Quais são as áreas que estão melhor preparadas e as que estão menos preparadas para a transição digital?
Mais do que o setor depende muito da liderança, porque vejo empresas do mesmo setor em diferentes graus de preparação para a mudança. Obviamente que todas as empresas que têm um grau tecnológico mais avançado têm uma predisposição maior para o fazer. Todas aquelas que têm processos muito rotineiros são, tipicamente, as que conseguem retirar mais valor deste tipo de transformação digital. Automatizar parte desses processos e libertando recursos para áreas de maior valor acrescentado são tipicamente as que têm mais a ganhar com isso. Não há um padrão, mas há uma predisposição e tem de haver conhecimento para onde é que se quer ir que objetivos se querem alcançar.

Além da cloud, por onde passará também o futuro da IBM Portugal?
Inteligência artificial e a área de consultoria transformacional. Estas são as três grandes apostas , apostando na tecnologia e também no nosso ecossistema de parceiros. Nós queremos alargar a nossa rede de parceiros, agora que nos separamos da parte de serviços de infraestrutura. Queremos usar esse ecossistema, porque acrescenta valor a tudo aquilo que é a nossa tecnologia.

Que metas há para os parceiros?
Mais do que um número, interessa-nos a qualidade dos parceiros que temos e o negócio que conseguem produzir. Uma das metas é duplicar o negócio que temos com este ecossistema num prazo máximo de quatro anos. Por isso, temos de trazer novos parceiros. Sejam de áreas tecnológicas ou outros que, tipicamente, tinham um pouco mais de receio de trabalhar connosco nas áreas de suporte de infraestruturas, como uma Accenture, uma Deloitte, uma DXC ou Axians. Queremos trabalhar com essas integradoras. Ou seja, trazer para o mundo da tecnologia todas as empresas que se disponham a acrescentar valor a esta tecnologia. Não procuramos um número, mas sim um volume de negócios que esses parceiros consigam trazer.

Reformulando, então: qual é o volume de negócios que ambicionam?
Neste trimestre, 98% do nosso negócio de tecnologia transacional veio desta área de ecossistema de parceiros. Queremos chegar aos 100%, esse seria um objetivo atingido.

Este novo momento nasceu da cisão com a Kyndryl. Como fica a relação da IBM com a antiga área de negócio?
Neste momento, são duas empresas independentes. Em termos globais, acho que a IBM ainda tem cerca de 19,9% das ações por uma questão interna mas vai desfazer-se delas. A relação é de parceria. A partir do momento em que a Kybdryl foi lançada transformou-se no nosso maior parceiro - porque é quem tem mais tecnologia IBM - e também no nosso maior cliente - porque é quem vai comprar mais tecnologia para conseguir dar o serviço aos seus clientes. Nós queremos manter uma relação de proximidade e de parceria com a Kyndryl, mas tudo depende também dos objetivos e postura da Kyndryl. Nós não vamos entrar nessas áreas, nem desenvolver, para já, uma nova área de serviços de infraestrutura, embora continuamos com uma área muito importante de suporte tecnológico a esse tipo de serviços . Essa área de suporte técnico foi integrada na nossa área tecnológica.

Como ficou a dimensão da IBM com essa cisão dos serviços de infraestrutura, em termos de recursos humanos?
Foi um processo de excelência, em Portugal. Acho que fomos uma das melhores regiões do mundo a fazer esta transição. Conseguimos uma separação o mais suave possível, sem problemas com as pessoas e com os contratos existentes... As empresas nossas clientes também perceberam bem essa transição. Em termos de números, foi uma divisão 55%-45% por causa de outras empresas que detemos, como a Softinsa que é detida a 100% pela IBM e que sofreu também um processo de separação. Criou-se também a Kyntech que está com a Kyndryl e nós ficamos com a Softinsa. Ao todo, foram cerca de 1.100 pessoas que passaram para a Kyndryl e entre 900 a 1000 mil ficaram com a IBM.

A IBM vai, agora, procurar reforçar-se em recursos humanos?
Sim. Esse é o nosso objetivo. Não vamos substituir as pessoas que saíram para a Kyndryl, até porque tinham funções distintas e skills muito específicos ao que faziam, mas como o nosso objetivo é crescer nos próximos anos, especialmente nas áreas tecnológicas, queremos ter uma equipa técnica e tecnológica que ajude as empresas nossas clientes a perceberem a nossa tecnologia e ajudá-las a ultrapassar desafios.

Há um objetivo concreto para recrutamentos?
Não temos um número fixo, até porque quero crescer o máximo que conseguir. Enquanto presidente da IBM vou usar todos os meios que tenho ao meu alcance e capacidade de persuasão com a casa-mãe para crescer o máximo que consiga. Mas, esta transformação da IBM ainda está em curso e o primeiro dia de janeiro de 2022 é que vai marcar o início de um novo ciclo, apesar de já estarmos a trabalhar nele. Janeiro vai ser o início da nova IBM e, a partir do dia 1, já queremos ter uma visão mais clara. Vamos crescer com certeza. Estamos já a crescer nas áreas de consultoria tecnológica, mas queremos mais.

Já mencionou a Softinsa, que controla centros de excelência para a IBM. Como ficam esses centros em relação à Kyndryl
Ainda estamos a estudar parte dessas separações... Os data centers da IBM passaram todos para a Kyndryl. Fizemos uma capitalização da Kyndryl para poder comprar esses ativos, mas a Softinsa continua com os centros de Viseu, Tomar, Fundão e Portalegre. A Kyntech utiliza, para já, parte desses centros, porque já fazia trabalho em serviços de infraestruturas até para fora de Portugal, mas vamos tentar mantê-los porque são ativos não só de criação de emprego, mas de criação de talentos. Para já, vamos manter esta estrutura, veremos em 2022 se a mantemos mas esse é o nosso desejo.

Apesar dessa análise que ainda está a ser feita, haverá planos para novos centros da IBM em Portugal?
Gostava que isso acontecesse. Depois de assentarmos a poeira de todo este processo, acho que há espaço para esse tipo de centros e o acolhimento é sempre bom, podendo-se criar emprego e mão de obra qualificada muito competente, e é uma ajuda importantíssima no desenvolvimento de algumas regiões. Acho que há espaço, assim o negócio indique, mas não temos um

planeado. Havia uma promessa feita

por um antecessor meu

ao Presidente da República, de abrir um nas ilhas mas não sabemos ainda se isso será uma realidade ou não. Houve essa promessa, mas agora temos de analisar as coisas porque mudou tudo nestes dois últimos anos. Vamos reequacionar, mas sem dúvida que queremos continuar a crescer nesta área e queremos apostar nestes centros.

Como é que a casa-mãe olha para Portugal, que feedback tem?
Olha para Portugal como uma área de grande potencial de crescimento. Se éramos um caso de estudo na área de strategical outsourcing - Portugal era uma das maiores regiões do mundo dentro da IBM -, agora, feita a cisão há esta aliciante jornada de podermos passar a mensagem da nossa tecnologia para todo o mercado. A casa-mãe olha para nós com uma grande expectativa e a própria região Europa olha para o potencial de crescimento que Portugal tem. Todos esperam que nós tenhamos um índice de crescimento acima do que é pedido pelo nosso CEO, que é um solid single digit. Acho que um solid single digit já era bastante bom para nós aqui em Portugal.

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