Anchorage, o novo unicórnio a falar português? "Queremos é abrir as criptomoedas ao mundo"

"Estamos na base da revolução que as criptomoedas podem trazer aos negócios". Português Diogo Mónica cofundou e lidera a Anchorage, o 1º banco de cripto regulado dos EUA, depois de ter ajudado a expandir com Jack Dorsey (CEO e cofundador do Twitter e um dos seus mentores) a gigante de pagamentos Square. Tudo começou com um desafio de criptomoedas que rendeu 300 mil dólares

Métricas como o chamado estatuto de unicórnio (quando as empresas chegam à avaliação de mil milhões de dólares) são "de pouco ou nenhum valor" para o português Diogo Mónica, que nasceu na Califórnia (filho de pai capitão de mar e guerra na Marinha Portuguesa) mas cresceu em Lisboa. A empresa que cofundou e da qual é presidente, Anchorage, parece ter já investidores prontos para colocar a sua avaliação acima desse valor mas, aos 34 anos, a sua missão com uma base tecnológica está apenas a começar, no que chama de "revolução mundial que as criptomoedas e a tecnologia da blockchain estão a desencadear e que não vai parar".

O valor da startup disparou desde que foi criada em São Francisco, em 2017. Só em 2019 levantou duas rondas de investimento num total de 57 milhões de dólares e que incluíam investidores como a Visa e a famosa empresa de capital de risco de Silicon Valley, Andreessen Horowitz, com avaliação de 139 milhões de dólares. Já em fevereiro angariou 80 milhões (avaliação desconhecida) já de série C, num total de 137 milhões.

A equipa já conta com mais de 120 pessoas no total (quase metade engenheiros), continuam a contratar e já são mais de 20 em Portugal - o resto está nos EUA. Têm a sede em São Francisco - curiosamente mudou-se durante a pandemia para Seattle, mais a norte, pelos problemas criminais e sociais na cidade - e escritório no Porto.

Estão agora a ponderar abrir outro espaço em Portugal, onde contam ter até ao final do ano mais de 40 pessoas (nesta altura até têm colaboradores a trabalhar de Lisboa e Braga) e abrir um escritório em Singapura, até porque um dos principais investidores da última ronda (GIC) é da cidade-estado do sudeste asiático. Os 'novos' milhões levantados vão servir para "escalar rapidamente para dar conta da procura enorme de empresas e instituições financeiras tradicionais para terem bens digitais".

"É incrível a rapidez com que a Anchorage tem valorizado tanto e esta sim é uma verdadeira startup por definição por ter esse crescimento rápido (nem sempre é o que vemos em Portugal). Isto só é possível porque nasceu e se distinguiu num mercado digital em que tudo é acelerado", explica-nos Cristina Fonseca, que lidera o fundo português Indico, que também investiu na última ronda.

Pode ouvir a entrevista completa no podcast Made in Tech:


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Tecnologia com segurança a toda a prova

E o que é que distingue a luso-americana Anchorage e que a faz ter como clientes grandes bancos? "A tecnologia desenvolvida que resolve um problema complexo recente criada por dois engenheiros de segurança e o facto de nos termos tornado no primeiro e único banco federal de criptomoedas nos EUA (ou seja, somos regulados pela OCC)". Diogo Mónica conta-nos (em entrevista no podcast do DV Made in Tech) que este tem sido um percurso lado a lado com o seu cofundador, o americano Nathan McCauley.

A aventura americana começou em 2010, quando foi convidado para ir a um evento nos EUA, em São José, para apresentar a sua tese de doutoramento que fazia no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, na área de circuitos distribuídos ("há 15 anos ninguém dava nada por ela, hoje é popular").

Por lá convenceu os presentes ao ponto de receber convites para trabalhar para Google e Facebook. Recusou para não ser apenas mais um entre muitos e foi a partir de sua casa, em Lisboa, que acabou nesse mesmo ano por ser entrevistado por videoconferência por Jack Dorsey - cofundador do Twitter e que estava a criar o seu novo projeto na altura. Acabou por aceitar o desafio de estar na equipa inicial que criou o agora gigante de pagamentos mundial, Square.

"Entrei na mesma semana que o Nathan na Square, no início de 2011, e desde então que tem sido um mentor e parceiro", admite. Depois de quatro anos "incríveis de aprendizagem" ao lado de Dorsey - "viu-o crescer muito como CEO e isso influenciou-me" -, foi com Nathan gerir a segurança online da plataforma para programadores Docker, "que hoje é usada por mais de metade da internet". "Fui para os EUA já com a ideia de criar a minha empresa, mas percebi rapidamente que sem experiência não ia a lado nenhum", revela ao DV.

Um hack 'bom' que rendeu 300 mil dólares

Na base da Anchorage está um desafio feito em 2017. "Um cliente [da Docker] tinha perdido a password de uma carteira de bitcoin que valia 1,5 milhões de dólares e ofereceu-me 20% se eu a conseguisse quebrar". Resultado? Conseguiu resolver e ganhou 300 mil dólares. "Foi essa a introdução ao negócio: um investidor sofisticado mas sem a capacidade técnica de fazer custódia de chaves privadas de forma adequada, tornou-se num grande incentivo para construir algo para desbloquear essa necessidade de ter passwords numa área com margens muito grandes", admite.

O sistema de segurança de blockchain criado na empresa não usa passwords, mas sim verificação de identidade com dados biométricos e tem permitido à Anchorage crescer. "De plataforma técnica de proteção de chaves privadas - fundamental para a tecnologia de blockchain que alimenta as criptomoedas -, criámos uma plataforma regulada para a custódia de criptomoedas".

Depois ouviram os pedidos dos clientes, todos empresariais (não trabalham com pessoas em nome individual), e foram adicionando áreas: compra e venda de cripto (brockage), empréstimos colateralizados por cripto ou mesmo empréstimos de criptomoedas para criação de mais retorno (yield). Seguiu-se a participação em mecanismos diretos das blockchains que permitem votações ou entrar nas áreas de governança.

Como as empresas usam as criptomoedas

Os dois serviços com maior crescimento na empresa que só trabalha com o mercado corporativo nesta altura "são os que estão a mudar o mundo e a mostrar a importância das criptomoedas", garante o jovem que acredita que as críticas pelo consumo de energia provocado pela mineração das moedas "não fazem sentido". "A área que mais cresce é a forma como criamos retorno em oportunidades com criptomoedas". Como? Numa altura em que "os depósitos geram zero de retorno", com criptomoedas "é fácil ter yields (taxa de retorno de investimento) de 7% a 9% ao ano".

Os empréstimos de fiat, em dólares e euros, colateralizados por criptomoedas como bitcoin e ethereum também estão em ascensão. "O cliente vem à Anchorage com mil milhões em criptomoedas e quer obter um empréstimo com o colateral a serem as criptomoedas - tal como quem pede empréstimo para comprar casa, recebe o dinheiro do banco e o colateral é a casa em si". Qual a vantagem para as instituições? "Permite-lhes ter liquidez e fazer com os seus ativos sejam mais produtivos mesmo sem venderem, portanto, não têm de pagar impostos - as mais-valias de longo prazo nos EUA pagam menos".

Diogo Mónica, que entretanto foi eleito um dos jovens mais promissores no mundo financeiro pela revista Fortune e a 53ª pessoa mais influente do mundo da criptografia pela Modern Consensus, viu a empresa ganhar a confiança e credibilidade no mercado para garantir outros voos, inclusive "servir os maiores bancos do mundo". Tudo porque conseguiram tornar-se no único banco federal nos EUA de criptomoedas, ou seja, são regulados e auditados o que trouxe mais custos e a necessidade de mais contratações em áreas diversas, mas que "que traz uma confiança notável".

"Estamos agora no mesmo patamar da JP Morgan por cá em termos de categoria federal - que é a mais desejada - e temos já como clientes as maiores fintechs e bancos". A eles cedem a base para criarem produtos financeiros baseados em criptomoedas, algo que considera "fundamental porque os millenials estão a preferir cada vez essa tecnologia e modo descentralizado de gerir o dinheiro". "Vamos ver uma transferência de riqueza de valor brutal de vários biliões de dólares da geração dos babyboomers para os millennials que têm aversão aos bancos e a comissões e afinidade com as cripto", garante.

Sobre a bitcoin e a sua oscilação enorme de valor, garante que "as criptomoedas já não são só a bitcoin, que vale agora menos de 40% do mercado" e tudo graças "ao que vimos em 2020 e 2021". "Há agora moedas estáveis (já é um mercado de mais de 20 mil milhões e a crescer quase 1000% ao ano) e diretamente ligadas ao euro e dólar que não oscilam".

Porque são uma aposta cada vez maior? Tem tudo a ver com PME e startups criarem os seus próprios mecanismos de pagamento sem entraves. "Com o euro ou o dólar, se criar uma empresa que tem um jogo online só vou conseguir ter o meu próprio método de pagamento se investir muito e tenho de esperar uns três anos e ficar na mão de intermediários e reguladores".

Diogo Mónica explica que "agora em três meses consegue-se criar um produto financeiro baseado em criptomoedas em 10 a 20 vezes menos tempo e com menos investimento do que no mercado tradicional", no que chama "um acelerador para as startups e para os empreendedores". "O mundo ganha mais com isto", admite.

"Regulação é bem-vinda"

Já sobre a regulação nesta área que começa a ser cada vez maior, garante que "é bem-vinda, porque ajuda a legitimar a tecnologia e as suas vantagens". Sobre El Salvador, que passou a aceitar bitcoins no país como moeda de troca, espera "que mais países façam o mesmo e aproveitam as vantagens das criptomoedas, que podem ser diferentes para cada situação".

Também apoia a entrada dos próprios países na área das moedas digitais, com a sua própria moeda, como a China e a Rússia estão a fazer. "Quantos mais nesta área melhor por legitimam todo o ecossistema digital", indica.

Portugal com uma vantagem a prazo

O jovem empreendedor e doutorado em engenharia de redes admite que um dos motivos porque estão a expandir a presença em Portugal é porque quer "dar algo de volta" ao seu país, que até tem uma vantagem para os indivíduos (não tanto as empresas) que negociam e amealham criptomoedas, "ainda não cobra impostos na compra e venda pessoal".

No entanto, admite: "infelizmente penso que essa que poderia ser uma vantagem competitiva para trazer pessoas influentes nesta área para o país, deve durar pouco tempo até porque a Europa quer normalizar os impostos na área por todos os países".

A presença do país que irá chegar a mais de 40 pessoas até final do ano "permite também trazer o conhecimento nesta área de criptomoedas e ajudar a formar o talento português que é bom tecnicamente, mas em Portugal não tem como ganhar experiência nesta área". Diogo Mónica mantém uma relação próxima com o Instituto Superior Técnico e tem sido business angel e consultor para algumas startups, incluindo a portuguesa JScrambler (já com presença nos EUA), uma empresa de cibersegurança que evita ataques para sites que usam JavaScript. "Tenho-os ajudado a abrir portas de investidores relevantes na Califórnia", admite.

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