Atraso no 5G: "Empresas portuguesas vão ver o futuro mais tarde do que as outras"

Manuel Ricardo, diretor do INESC TEC, explica que o 6G já está a ser preparado e irá abrir um mundo novo (hologramas e sensações incluídas). Para já 5G "é 4G vitaminado" para os utilizadores", mas atraso prejudica a inovação das empresas em Portugal".

Um futuro onde os carros robô e veículos voadores sem condutor andam por toda a parte, as comunicações são feitas por hologramas em tempo real e até as sensações e os cheiros podem-se sentir do outro lado do mundo - como se o teletransporte fosse uma realidade e a "Força" tão mencionada na saga de Star Wars fosse uma tecnologia ao alcance de todos. Manuel Ricardo, o diretor do INESC TEC (instituto internacional do Porto), ajudou a organizar em formato remoto a 3ª edição do 6G Summit (que integrou também a Conferência Europeia de Redes e Comunicações), onde dois mil especialistas mundiais começaram a preparar o que será o 6G, com data de chegada em 2030 - falamos sobre isso no final do texto.

Em entrevista ao podcast Made in Tech (disponível aqui em formato aúdio), o doutor, professor e especialista em redes e sistemas inteligentes explica-nos também que nos primeiros tempos o 5G para o utilizador normal não será mais do que "4G de banda larga, vitaminado", com 1 Gbps de velocidade, não muito diferente "do que temos em casa com fibra ótica de qualidade".

"A revolução do 5G será, para já, nas indústrias e empresas, que podem resolver problemas e ganhar novas funcionalidades com a tecnologia", adianta. Daí que esteja "muito preocupado" com o atraso do 5G em Portugal, não só por ser um dos três países europeus que ainda não o tem, mas porque "as empresas portuguesas ficam para trás face aos rivais, especialmente na indústria, onde existem muitas vantagens". Embora o impacto do atraso no 5G no país "seja difícil de quantificar", é importante começar já "a brincar e experimentar" e parece certo que "as empresas vão ver o futuro mais tarde do que os outros".

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Que vantagens pode o 5G trazer?

"Vai permitir dar o salto para a Internet da Coisas na indústria e nas empresas em geral, sem necessidade de fios para ligar máquinas umas às outras, mas permitirá ter sensores e câmaras seja num terreno, no chão de fábrica ou numa cidade, ligadas entre si, sem fios, e de forma mais rápida, privada e segura do que o Wi-Fi permite (daí não ser usado nas fábricas)".

Manuel Ricardo admite que o 5G fará para as empresas o que os telemóveis significaram para as pessoas: "passámos dos telefones antigos ligados por cabo para os telemóveis, a revolução de uma geração que nos deu liberdade". E, tal como aconteceu com os smartphones, "só quando experimentamos as funcionalidades de estarmos conectados e as várias apps disponíveis percebemos como se abre um mundo novo". As empresas passam agora, com o 5G, por revolução semelhante.

Outro atraso português é o facto de ainda não estar a ser pensada a hipótese das empresas terem a sua própria banda dedicada de 5G, "algo que o Reino Unido, Alemanha e França já estão a implementar para que as empresas criem redes internas (ou não públicas, uma espécie de internet privada) sem precisarem dos operadores, redes que são incomparavelmente melhores do que o pouco fiável Wi-Fi, onde há interferências de todo o lado e riscos de segurança". "Há medida que formos capazes de integrar esta tecnologia sem fios e suportar os requisitos das fábricas e das empresas, vamos assistir a uma transformação muito grande em aplicações que ainda não foram pensadas", admite.

E para os consumidores?

Já existem aplicações para o 5G para os consumidores além do mero aumento de velocidade e que já se usam de forma frequente em países como a Coreia do Sul (já com implementação massiva da tecnologia), onde os operadores apostam em jogos ao vivo que se podem ver em realidade virtual sem problemas ou gaming pela cloud muito eficaz. Ainda assim, nos EUA não têm faltado críticas ao facto de serem poucos os sítios, mesmo dentro da cidade, onde é possível ter velocidade digna de 5G.

O especialista do INESC TEC (instituição portuguesa focada em sistemas, computação, tecnologia e ciência) admite que a maior diferença será nas empresas e nas cidades (onde , cada vez mais inteligentes. Algo que se vai sentir daqui a uns anos, "porque há uma melhoria gradual à medida que se coloquem mais antenas".

Hospital da Luz testa 5G

Entretanto, o Hospital da Luz tornou-se esta semana na primeira infraestrutura de saúde do país com 5G, numa parceria com a NOS que inclui formação e um investimento total de mais de 50 mil euros.

Com 17 antenas instaladas que comunicam com vários dispositivos dispersos pelas áreas das consultas externas, salas de cirurgia, centro de formação e auditório, o teste prevê ainda a instalação de retransmissores nas zonas de maior afluência do hospital. Isabel Vaz, diretora executiva da instituição, admite que o projeto irá dar uma capacidade massiva para monitorizar os doentes. Serão ainda utilizadas nos cuidados paliativos do hospital como complemento às terapias habituais tecnologias de realidade virtual e aumentada numa lógica de tranquilização e de estímulo sensorial.

Toda a estrutura de apoio do hospital também irá tentar tirar partido da tecnologia, dado que o 5G vai permitir maiores níveis de produtividade e eficiência operacional e técnica, otimizando custos e tempo e, em última instância, melhorando a qualidade de vida das pessoas, explica o Hospital da Luz.

Numa altura em que o leilão de licenças das redes 5G no país ainda está em curso, a NOS quis fazer mais um teste em ambiente real (são já sete).

5G e as teorias da conspiração

Já sobre as teorias da conspiração em torno dos problemas para a saúde do 5G, Manuel Ricardo explica que os estudos de vários especialistas mostram que a forma como está a ser aplicada é totalmente segura. "Não passa pela cabeça de ninguém colocar tecnologia 5G ou 6G no terreno que possa ser prejudicial até para os próprios investigadores que desenvolvem a tecnologia e para as suas famílias".

A União Europeia explica mesmo que os riscos de exposição para o público em geral face ao 5G que está a ser colocado em prática na Europa são "50 vezes mais baixos do que (de acordo com provas científicas disponíveis) os que poderiam ter impacto na saúde das pessoas". "Se não houve forma de ter 5G sem por em causa bem-estar ou saúde das pessoas, ele seria banido da Europa", indica o Parlamento Europeu ao Dinheiro Vivo.

6G permite criar a Internet dos Sentidos

Já sobre o 6G, que ainda está a ser imaginado (só dentro de um ano e meio começa a ganhar forma definitiva), parece que irá permitir maior capacidade de sonhar com soluções que estávamos mais habituados a ver em filmes de ficção científica. "Aí estamos a falar já de outra loiça, a ambição é ter 100 Gbps de velocidade com atrasos (latência) na transmissão que serão um décimo do que se fala para o 5G". Ou seja, "será a rede perfeita, de rapidez supersónica em que comandos que damos e os dados que enviamos para a Ásia chegam ao mesmo tempo ao outro local, quase como o teletransporte", diz Manuel Ricardo.

A explicação que se segue faz lembrar a "Força" mencionada nas sagas de Star Wars. "A sua energia está à nossa volta, liga-nos, deves sentir a Força a circular à nossa volta, entre nós os dois, na árvore, na rocha", uma citação adaptada da personagem Yoda parece não estar muito longe do que o especialista imagina, embora sem o poder mágico visto em Star Wars.

"Vamos assistir a um contínuo entre o digital e o físico, tudo vai parecer juntar-se e misturar mais do que nunca entre os dois mundos", diz. O especialista explica ainda que para o 6G imaginado ser realidade a rede terá de trabalhar a frequências muito elevadas, a mais de 1000 GHz, o que poderá dar quase funcionalidades de radar a um telemóvel, "com precisões de poucos centímetros para saber onde está e capacidade de percecionar bem o que está à nossa volta e potenciando classes de aplicações que ainda não são concebíveis hoje".

Para o utilizador comum a nova tecnologia de rede "vai permitir comunicações holográficas", capturando de forma instantânea a informação de uma pessoa e os seus movimentos para o mundo virtual, numa espécie de avatares". Além das comunicações de áudio e vídeo que conhecemos hoje, "será possível ter o tato e o cheiro presente nestas aplicações, no que será a Internet dos Sentidos".

O 6G vai permitir, depois, expandir a comunicação entre máquinas: "Dentro de 10 anos vamos ver carros robô e veículos voadores sem condutor por todo o lado e o 6G será fulcral porque lhes dá o que precisam para perceberem tudo o que está à sua volta e comunicarem em tempo real uns com os outros, algo com o potencial de quase acabar com os acidentes e tornar as viagens mais eficientes". A massificação dos robôs e sistemas robotizados (incluindo os humanoides como nós) "será desbloqueada e, em vez de termos apenas 10 mil milhões de pessoas conectadas, vamos ter muitos mais robôs ligados e com necessidades de comunicação pelas redes superiores às nossas porque terão mais tecnologia".

O diretor do INESC TEC admite que a comunicação entre pessoas e robôs ou máquinas "vai passar a ter outra dimensão pela possibilidade de nos podermos transportar para mundos virtuais não só para jogos com avatares, mas para fazer operações cirúrgicas a grande distância ou fazer a manutenção de máquinas em que o técnico em Portugal consegue operar uma máquina no Brasil, conseguindo inclusive sentir os movimentos em tempo real".

O novo paradigma que o 6G promete trazer "irá tornar todos os equipamentos na periferia de uma rede como telemóveis, sensores ou máquinas em cérebros digitais parecidos com redes neuronais em que o que um aprende todos aprendem". Ou seja, cada vez mais próximo do que o ser humano consegue fazer, mas com partilha de dados, experiência e conhecimento disseminada de forma imediata por milhões de robôs pelo mundo.

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