Bosch inaugura fábrica de chips futurista "para trazer soberania à Europa", diz Merkel

Considerada uma das fábricas de chips mais modernas do mundo e a maior da Europa, a nova instalação de 72 mil m2 inaugurada hoje dependerá de automação e para Angela Merkel vai ajudar a Europa "a aproximar-se da Ásia e dos EUA na tecnologia que desbloqueia todas as tecnologias". Objetivo? Por Europa a produzir 20% dos chips de topo mundiais até 2030. Fábrica de Braga pode ser beneficiada e evitar mais lay-offs.

Apesar de ser mais conhecida como empresa que produz equipamentos como frigoríficos ou componentes para automóveis, a Bosch está a expandir do seu negócio crescente em semicondutores (ou chips) que começou há 50 anos com a inauguração do seu maior investimento de sempre desde a criação (em 1886). A nova fábrica de Dresden inaugurada agora, num evento a que o Dinheiro Vivo assistiu, é uma "fábrica inteligente e pioneira na Indústria 4.0", que espera que o seu modelo seja um exemplo mundial para a automação. Com 72 mil m2 de área de fábrica (100 mil m2 de área total), tem só 250 funcionários, continua a contratar e terá um máximo de 700.

A fábrica de Dresden esta segunda-feira (7 de junho) inaugurada é um investimento de mil milhões de euros (200 milhões têm o apoio do governo federal da Saxónia e da Europa, que define esta área como prioritária) e vai tornar esta a maior fábrica europeia de chips (e de circuitos integrados) e uma das mais modernas do mundo numa área onde há excesso de procura e crise na produção e onde os investimentos são enormes.

A produção já começou na fábrica considerada a mais moderna e futurista da empresa, "uma referência a nível mundial, naquela que é a nossa primeira fábrica de AIoT [que junta Internet das Coisas com Inteligência Artificial] totalmente conectada, orientada por dados e auto-otimizada desde o início", diz-nos Volkmar Denner, presidente do conselho de administração da Bosch.

A presença constante de realidade aumentada e óculos virtuais para os trabalhadores da fábrica será uma constante, mas esses métodos também foram usados para apressar os processos de construção com a contribuição de alguns dos maiores especialistas mundiais em semicondutores para a construção da fábrica graças à tal realidade aumentada - contributos remotos, portanto.

Merkel: "os chips ficam mais pequenos, mas a sua importância cresce"

A inauguração, que foi remota - só a equipa da Bosch esteve presente -, contou com presença virtual da chanceler Angela Merkel e da vice-presidente da Comissão da UE, Margrethe Vestager. Merkel foi clara ao explicar que "os chips são cada vez mais pequenos, mas a sua importância é cada vez maior" e, com a nova fábrica, "o futuro torna-se mais tangível", numa altura em que "dependemos cada vez mais dos semicondutores e é inconcebível não os termos para todo o tipo de equipamentos à nossa volta".

Daí que a chanceler espere que a produção ajude não só a limitar a escassez atual (pela pandemia e aumento da procura), mas também "a colocar a Alemanha e a Europa no centro da tecnologia que desbloqueia todas as outras".

Merkel lembra ainda que há outro grande projeto de semicondutores pensado para a Alemanha - referindo-se provavelmente à nova fábrica de 30 mil m2 anunciada pela Apple para a zona de Munique para desenhar semicondutores, tecnologia wireless e 5G, noutro investimento de mil milhões de euros que deve ser inaugurado em 2022.

Além disso, o governo alemão não se fica pela produção e lançou um novo apoio de 400 milhões de euros para a investigação em microeletrónica no país, "um mercado central para a nossa economia futura".

Europa quer 20% do mercado de semicondutores

Já Vestager lembra que a nova fábrica da Bosch "vai ajudar a fortalecer a competitividade da Europa como berço para inovações de ponta". E irá ajudar ao objetivo para que a Europa produza cerca de 20% dos semicondutores de topo (mais pequenos do que os 5nm) a nível mundial até 2030 - um objetivo para a qual a Europa ainda está muito longe, com menos de 10% (Taiwan e Coreia do Sul têm 40% do mercado e os EUA têm cerca de 10%). "Esta inauguração é um dia histórico para a Europa, o trabalho conjunto ajudou a criar esta fábrica de wafers com 300mm [cada wafer, que parece uma placa, dá para fazer várias centenas de microchips]", explica Vestager.

Merkel admite que "uma maior soberania europeia nesta indústria de microeletrónica tão crucial para a era da Internet das Coisas que vivemos hoje, também é importante em alturas de crise como a de pandemia, para que a Europa não fique para trás em caso de escassez de componentes". "Temos de nos perguntar o que podemos fazer para nos tornar mais resilientes a crises", lembrou ainda a chanceler que quer ver reduzido o atraso nesta área da Europa para a Ásia e para os EUA.

Evitar lay-off em Braga?

A empresa alemã indicou ainda na inauguração que já produziu 15 mil milhões de semicondutores desde 1995 - área onde detém 1500 patentes - e muitos desses chips são hoje importantes para a mobilidade elétrica e semi-autónoma (da General Motors à Mercedes ou Volkswagen) e para várias ferramentas eletrónicas, mas também para sensores para smartphones e até para o primeiro helicóptero em Marte, Ingenuity.

A Bosch, líder mundial em sensores para a indústria automóvel e para a eletrónica de consumo, explica ainda que além de ter conseguido antecipar a inauguração em meio ano (graças ao interesse nesse sentido de todas as partes), também conseguiu antecipar em seis meses a produção de chips para ferramentas eletrónicas (começam a ser distribuídos já em julho) e para a indústria automóvel em três meses (começam a ser distribuídos em setembro). Em tom de brincadeira, Merkel lembrou que "na Alemanha as inaugurações costumam é ser atrasadas, mas o maior uso de tecnologia terá ajudado a tornar a construção mais rápida".

Embora a Bosch produza, para já, quase apenas os seus produtos e clientes na área automotiva como Mercedes e General Motors, esses avanços prometem ajudar a minimizar a crise de produção em semicondutores. A ideia também passa por tentar reduzir as paragens que têm acontecido em fábricas da Bosch por falta de chips, como a que está a acontecer em Braga desde 10 de maio e levou ao lay-off de 2300 trabalhadores (80% do total), que irão receber 85% do salário - esse mesmo lay-off é reavaliado a 9 de junho.

Rivais dão os parabéns

"Precisamos de mais semicondutores a nível mundial com a aceleração da digitalização e são boas notícias esta fábrica, é uma altura entusiasmante para esta área e estamos prontos para continuar parcerias com a Bosch", explicou no evento o CEO da Intel, uma das gigantes de semicondutores e, de alguma forma, também rival da Bosch.

Sem previsões de novas fábricas de semicondutores, a Bosch admite que é hoje 6º maior fabricante mundial em chips e quer passar para o Top 3 numa indústria onde dominam empresas especializadas, como a líder TSMC (de Taiwan), ou outras focadas em diferentes setores dentro dos chips.

Fábrica gémea em formato digital

Outro factor importante na nova fábrica é que foi criada uma versão igual digital, além da versão real, a que se dá o nome de "digital twin". Durante a construção, todas as partes da fábrica e todos os dados de construção relevantes foram registados digitalmente e visualizados num modelo tridimensional, ou seja, existem cerca de meio milhão de objetos 3D, incluindo edifícios e infraestrutura, sistemas de abastecimento e eliminação, condutas de cabos e sistemas de ventilação, máquinas e linhas de produção.

O que é que isso permite? A Bosch consegue simular vários planos de otimização do processo e o trabalho de renovação sem intervir nas operações em andamento, nem abrir máquinas para esse efeito.

A manutenção também será feita de forma remota com óculos de realidade aumentada. Especialistas de empresas de engenharia mecânica na Ásia podem intervir sem ir a Dresden graças a uma câmara embutida nos óculos de um colaborador, cujas imagens são transmitidas para o outro lado do mundo, e dessa forma o especialista pode fazer a manutenção em tempo real.

Indústria 4.0 com realidade aumentada

Com máquinas que pensam por si mesmas fazendo uso de todos os dados possíveis, analisando e melhorando processos em tempo real, a possibilidade de ter trabalhos de manutenção em máquinas com a ajuda de especialistas a 9.000 quilómetros de distância e a inclusão de vidros com câmaras embutidas para acompanhar o processo de fabrico sem erros nem falhar, a fábrica de chips de Dresden "é uma das mais avançadas do mundo", diz a Bosch.

O seu chairman, Volkmar Denner, garante que "a inteligência artificial (IA) é a chave para melhorar ainda mais os processos de fabricação e a qualidade dos semicondutores, bem como para alcançar um alto nível de estabilidade do processo". Para isso os algoritmos de IA podem detetar até mesmo as mais pequenas anomalias nos produtos, permitindo não só produção mais fiável e rápida, como poupam "aos clientes do setor automóvel a necessidade de testes demorados que seriam necessários antes do lançamento da produção".

Porquê a Saxónia?

A Bosch acabou por escolher Dresden, no estado da Saxónia, não só por ser na Alemanha, onde tem a maior parte da sua produção, mas também porque o chamado "Silicon Saxony" é o principal local de microeletrónica na Europa e o quinto maior do mundo, havendo muitos especialistas qualificados e um ambiente académica relevante com experiência na área há várias décadas.

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