Cem milhões em 20 anos. Portugal assume "posição estratégica" na Colt

Após duas década de atividade em Portugal, a britânica Colt quer elevar a fasquia da operação no país. Criação de hub de cabos submarinos no país é o grande chamariz. Empresa está a recrutar: pretende chegar às 140 pessoas até ao fim do ano.

A Colt Technology assinalou esta quarta-feira duas décadas de atividade em Portugal com a promessa de reforçar investimentos no país. Para já, a meta é fazer crescer a equipa portuguesa para 140 trabalhadores até ao final do ano e a grande oportunidade para o futuro está no negócio dos cabos submarinos, onde Portugal é porta de acesso a mais de 750 milhões de potenciais consumidores na Europa.

"Investimos pouco mais de 50 milhões de euros em 20 anos, na componente de tecnológica, entre condutas para instalar a nossa rede e expansão de fibra ótica, entre outras coisas. E investimos mais de 50 milhões de euros em pessoal, ou seja, na contratação e fixação de profissionais. Ao todo, foram mais de cem milhões de euros de investimento da nossa atividade em Portugal", revelou Carlos Jesus, country manager da Colt Portugal e vice-presidente global de service delivery do grupo Colt, num almoço com jornalistas esta quarta-feira. O gestor notou, ainda, que o investimento nos recursos humanos acelerou, sobretudo, "nos últimos seis anos" com a criação de três centros de competências. Só aí a subsidiária portuguesa da Colt empregou 26 milhões de euros.

Atualmente, a Colt gere três centros de competências no país, que servem todas as geografias onde o grupo está presente - o último foi inaugurado no final de 2020, em plena pandemia. Além disso, a Colt controla duas redes de fibra ótica nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto - totalizam 830 quilómetros (km) -, uma rede de telecomunicações de longa distância (1700 km no total), interligando 777 edifícios e 12 centros de dados, incluindo oito parques industriais em Lisboa, Porto, Oeiras, Sintra, Vila Nova de Gaia e Maia.

Portugal assume hoje uma "posição estratégica" para o grupo britânico de operações grossistas em telecomunicações, de acordo com Carlos Jesus. Tanto assim é que, apesar de não revelar valores para investimentos futuros, o gestor garantiu que o grupo está a "reforçar o investimento" no país. E isso notar-se-á no crescimento do quadro de pessoal. Hoje, a Colt tem 115 trabalhadores dedicados ao mercado português, mas a meta é chegar às 140 pessoas no final de 2022.

Contratar mais 25 profissionais até ao fim do ano

Os recrutamentos já estão "em andamento". Segundo o country manager da Colt Portugal, a procura por novos talentos será feita, primeiro, dentro do país, embora nada impeça o recrutamento de profissionais fora de Portugal. Carlos Jesus explicou que o âmbito da Colt é mundial e não há divisões por nacionalidades. Aliás, "há 12 áreas do grupo que são geridas por portugueses, a partir de Portugal, mas fora da operação lusa". No entanto, clarificou que a Colt Portugal procura dentro do país devido proximidade cultural.

A empresa procura perfis experientes, essencialmente, nas áreas de desenvolvimento de software (full stack developers, UI developers, application developers), segurança das redes (network virtualisation & security specialists/ consultants), redes IP (SDWAN and NFVi), e gestão e suporte de clientes.

O objetivo de fazer crescer a equipa justifica-se com a necessidade da empresa reforçar a capacidade de resposta face "ao aumento da procura que está a registar". No entanto, há um desafio pela frente. O gestor português da Colt começou por explicar que a pandemia alterou a perceção do trabalho. "Hoje, a primeira dúvida que nos colocam quando estamos a recrutar é se permitimos o trabalho remoto, isto antes mesmo de nos perguntarem pelo nível salarial", disse.

O que está a fazer a Colt para atrair talento qualificado? Carlos Jesus assumiu que existe que não estão disponíveis recursos humanos em número suficiente para satisfazer todas as necessidades, e que a questão do modelo híbrido veio tornar a solução para escassez de talento mais complexa. "Mesmo para fazer o onboarding [integração] de um novo profissional, em que é necessário estar presente no escritório, há quem às vezes não queira isso". Não obstante, a Colt permite um modelo híbrido em todas as suas operações, embora haja funções onde o trabalho remoto não seja possível., de acordo com o gestor.

"O que se passa em Portugal, neste aspeto, não é diferente do que se passa no Japão, Índia, Espanha ou Reino Unido", afirmou. "Quem não se adaptar [à tendência do trabalho remoto] vai sentir dificuldades [na hora de contratar]", acrescentou

Além de permitir um modelo de trabalho híbrido - realçou Carlos Jesus - a Colt oferece outros benefícios como o acesso a seguros de saúde para o agregado familiar do trabalhador ou fundos de pensões. Outra vantagem é a mobilidade interna, que a Colt não impede e pode levar a atualizações nos vencimentos "entre 15% a 20%". Quanto a salários, o executivo não revelou valores, mas afirmou que os vencimentos "são ajustados à realidade portuguesa", realçando que, neste ponto, a operação lusa "não sai penalizada" face aos salários pagos por filiais de outras geografias.

Indagado sobre as recentes experiências e debate político em torno da semana de quatro dias, o executivo admitiu que esse é um tema que está "a ser debatido internamente" na Colt. "Temos a noção que será difícil implementar esse modelo em todas as áreas. Estamos a avaliar, mas ainda não temos respostas", complementou.

Cabos submarinos, o grande filão para o futuro

Com a procura pelos serviços da Colt a aumentar, o country manager e vice-presidente global de service delivery do grupo Colt sublinhou que o caminho, agora, é aproveitar novas oportunidades de negócio.

"Temos visto o negócio crescer", asseverou. Como o grupo não revela dados regionais desagregados, Carlos Jesus não quantificou esse crescimento, mas garantiu que evoluiu positivamente. E estima continuar nesse ritmo, a crescer a dois dígitos. Pelo menos na área de tráfego de dados, quanto a outros segmentos não asseverou o mesmo.

"Há mais necessidade de comunicações em Portugal, não só pelas empresas que estão a acelerar a transição digital mas também pelo peso crescente de empresas internacionais que se estão a instalar e a criar centros de competências ou a estender plataformas com maiores necessidades de dados, em Portugal", afirmou.

Por isso, a aposta em infraestrutura é estratégica para a Colt, sendo que o reforço de investimento em Portugal passará pelos cabos submarinos nos próximos anos. "Sentimos que Portugal tem uma posição estratégica devido ao hub que está a ser criado em torno dos cabos submarinos", opinou.

Segundo Carlos Jesus, "os cabos submarinos são a espinha dorsal da infraestrutura global de comunicações", sendo que a "capacidade de Portugal vai aumentar significativamente, nos próximos anos", à medida que se concretizam interligações de conectividade entre Europa, África, América do Sul e América do Norte.

Atualmente existem mais de 400 cabos submarinos em serviço em todo o mundo e até 2025 serão 445. Em Portugal, já está a funcionar o cabo Ellalink e, até ao final desta década, chegarão os cabos submarinos Equiano (da Google), o 2Africa (do Facebook) e o Medusa (da AFR-IX e cuja amarração em Portugal é assegurada pela Altice).

"Portugal detém uma posição única no contexto do desenvolvimento das comunicações a nível mundial: beneficia de uma posição geográfica estratégica com os seus cinco centros de amarração de cabos submarinos (Sines, Sesimbra, Seixal, Lisboa e Carcavelos) e possui inúmeras rotas de comunicações terrestres que permitem e potenciam as ligações da Península Ibérica ao norte da Europa", argumentou.

Ou seja, "o país é uma verdadeira porta de entrada para a Europa, uma via direta de acesso das empresas de todo o mundo a um mercado de mais de 750 milhões de potenciais consumidores". "E isso é uma grande oportunidade", garantiu o gestor da Colt.

Ora, este é, agora, o grande argumento do grupo britânico para investir em Portugal. Não significa isto que a Colt vá investir em cabos submarinos, embora controle algumas ligações submarinas de curta distância e pondere investir nas zonas de amarração portuguesas. De acordo com o country manager da Colt Portugal, a existência deste tipo de infraestruturas no país vai permitir também à filial portuguesa reforçar a capacidade dos sistemas de redes terrestres. Esse é o filão para o futuro e a Colt já está estudar alargar o alcance das redes que controla noutras geografias, a partir de Portugal.

Escassez de componentes? Colt antecipa encomendas em 18 meses

A especialidade da Colt é fornecer redes de comunicações de alto débito e com redundância. Atualmente, a empresa consegue duplicar a capacidade de transmissão de dados das redes de fibra ótica, através de tecnologia Ciena e Software Defined Network (SDN). Carlos Jesus revelou que muito do desenvolvimento desta tecnologia, que até tem impacto na operação global do grupo, "foi feita em Portugal", a partir dos centros de competências nacionais. Esse trabalho tem contribuído para fazer face ao aumento do volume de dados gerados e consumidos pelas empresas, sobretudo entre as content providers (como a Google, a Facebook e outras que trabalham em cloud como SAP ou Salesforce).

Para enfrentar os desafios futuros na transmissão de dados, a Colt está a estudar novas ligações de redes a partir de Portugal. Lá está, beneficiando das valências dos novos cabos submarinos. Em solo português, a Colt já tem rotas de redes de fibra ótica de escala internacional: Lisboa - Porto - Bilbao; e Lisboa - Madrid - Toulouse - Marselha (através dos Pirenéus).

"Temos uma malha de rede que já liga os principais pontos em Espanha e em França", reiterou Carlos Jesus, contando que, no último ano, foram concluídas 50 ligações dedicadas a estas redes, representando um acréscimo de mais 600 km à rede da Colt.

Agora, a empresa está a estudar uma nova ligação entre Sines - que vai receber um gigante centro de dados - e a cidade francesa de Bordéus. Além desta, haverá também uma nova ligação entre Lisboa e Madrid, desta vez apenas com a tecnologia Ciena. Carlos Jesus referiu que, no segundo caso, trata-se da primeira rede só suportada em Ciena. Ambas as ligações estão a aguardar aprovação do grupo.

Questionado sobre se o atual contexto macroeconómico - pressão inflacionista nos custos dos materiais e crise nas cadeias de abastecimento - poderá prejudicar os planos de implementação das novas ligações, o gestor da Colt explicou que a empresa acautelou as suas necessidades e, por isso, está com "os níveis mais altos de sempre de stock de materiais".

"Estamos comprar materiais com 18 meses de antecipação em algumas áreas", revelou Carlos Jesus. Isto, porque os problemas na obtenção de equipamentos não surgiram só agora. "Determinados fornecedores deixaram de fazer entregas em 50 semanas para demorar 70 semanas", desabafou.

Outro problema é a especulação que se assiste no mercado dos componentes. Segundo o executivo da Colt, os preços dos materiais encarecem de dia para dia. Ou seja, os materiais estão mais caros e demoram mais tempo a chegar.

Quanto ao risco do material se tornar obsoleto quando for utilizado, tendo em conta a inovação tecnológica, o country manager da Colt garantiu: "Não há esse risco porque, do ponto de vista das componentes, a fibra ótica tem uma vida útil de 20, 25 ou 30 anos. O que pode acontecer é termos de acrescentar features [recursos] no momento da implementação".

Então para quando as novas ligações? A estimativa é que a nova rede de Lisboa a Madrid e a rede de Sines a Bordéus possam estar operacionais entre 2023 e 2024, uma vez que a fase de implementação leva entre 12 a 24 meses.

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