Inside Web Summit: tudo o que quer saber e vai marcar o futuro

O online pode ter substituído as viagens até à sunny Lisbon na Web Summit, mas em 2020 manteve-se a vontade de fazer 'futurologia' e abordar o que pode mudar em breve. Num ano marcado pela incerteza, ficam ideias concretas: o futuro do trabalho vai passar por um modelo híbrido, a sustentabilidade continuará a estar na lista das prioridades e os dados vão continuar a dar cartas em várias indústrias.

O formato pode ter sido diferente mas a edição deste ano da Web Summit continuou de olhos postos no futuro, mas com um pé no presente, assente nas lições (possíveis) da pandemia. A forma de trabalhar já não será igual: empresas como a Slack ou o Zoom mencionam um modelo híbrido, combinando trabalho remoto com alguns dias de presença no escritório. Há que repensar modelos de negócio das plataformas, como aconselha o fundador da Wikipédia, e existe ainda muito trabalho para fazer na área da sustentabilidade.

Jane Goodall apelou mesmo à ação, temendo que os humanos já tenham prejudicado demasiado o planeta. Na mobilidade, centenários como a Aston Martin querem manter o fascínio, piscando o olho aos modelos autónomos.

Até espaço houve para conselhos de empreendedorismo de celebridades como Gwyneth Paltrow ou do multimilionário Mark Cuban. "Não vivam à grande, não se endividem demasiado e poupem o que consigam para investir no seu negócio", pediu Cuban. Já Paltrow, dona da marca de lifestyle Goop, aconselha os empreendedores a serem criativos em "formas de chegar de forma orgânica aos seus clientes com conteúdo".

Futuro de Internet: Wales e Berners-Lee

Jimmy Wales fundou a Wikipédia, a enciclopédia de acesso livre. Na intervenção feita na Web Summit, Wales considera que a Internet atravessa um momento que tem tanto de desafiante quanto de entusiasmante. Para o pai da Wikipédia, esta é uma "oportunidade para repensar como será a Internet dos próximos 20 anos".

Um crítico de plataformas como o Facebook ou Twitter, Wales diz que "os modelos de negócio precisam de ser repensados" no panorama digital. A propósito do tema da desinformação, que tem afetado muita da confiança dos utilizadores na Internet, Wales considera que a Wikipédia "tem sido bastante imune" a este fenómeno.

Nos próximos cinco anos, vê a Wikipédia como algo que terá mudado pouco, mas que certamente terá crescido, especialmente na forma como a informação está disponível num maior número de idiomas.

Já Tim Berners-Lee, conhecido como o pai da Web, aproveitou a Web Summit para falar sobre a Inrupt e o projeto Solid, a visão que tem para uma internet aberta, contra aquilo que considera serem "os abusos" da Internet como hoje a conhecemos.

Sustentabilidade: Impossible Food e Goodall

A sustentabilidade foi um dos temas que encontrou eco em políticos, desde responsáveis europeus aos dos vários estados representados, passando pelos CEO das maiores empresas. Mas houve negócios que têm como base precisamente a sustentabilidade a destacar-se. Um deles é o da americana Impossible Food. Acabar com o consumo de carne animal (e a pecuária em geral) é o sonho de vida de Patrick Brown, o bioquímico e professor da Universidade de Stanford que em 2009 tirou uma licença sabática e criou aquela que é hoje uma das empresas mais cobiçadas nos EUA.

E o que diferencia a sua marca das outras que tentaram já imitar carne com plantas? "Não somos uma empresa de comida, mas sim de ciência e tecnologia e conseguimos um ingrediente quase mágico que faz com que a carne de plantas saiba mesmo a carne". Este apaixonado ambientalista e gestor tem já os seus produtos em 15 mil lojas nos EUA, milhares de dinners, Startubucks e Burger King. "Já estamos no Canadá e em 2021 vamos entrar na Europa, incluindo Portugal, e também na China".

O bioquímico cita depois estudos que indicam que sem pecuária e com a ocupação desses terrenos pela natureza "íamos conseguir ter níveis de 2015 de gases na atmosfera nos próximos 20 anos".

A famosa antropóloga Jane Goodall não tem dúvidas que a tecnologia fará a diferença para preservar o mundo natural e esteve ao lado de um dos parceiros da sua fundação, Pieter Van Midwoud, que lidera um motor de busca chamado Ecosia que gasta todos os anos 10 milhões de euros para plantar (e manter árvores) usando tecnologia para escolher locais e espécies a plantar e ajudar as populações locais a não terem de recorrer ao abate dessas mesmas árvores. "As novas gerações dão-me esperança porque percebem o que está em causa: somos parte do mundo natural e os recursos não são ilimitados, devemos usar a tecnologia para gastar menos e salvar a natureza, os animais e a nós próprios".

Já a plataforma de moda de luxo Farfetch, do português José Neves anunciou um algoritmo ecológico que "permite enviar produtos de boutiques locais" e evitar assim encomendas os gastos para o ambiente de receber encomendas de centros de logística distantes. O gestor também tem projetos de reflorestação a decorrer, como a gigante Salesforce.

Saúde: Partilha da ciência ajuda a humanidade

A abertura na partilha de ciência e informação entre os países dos vários continentes "acelera a inovação e deve ser o caminho da humanidade" foi um dos mantras em que mais responsáveis de tecnológicas, farmacêuticas e cientistas e inovadores concordaram.

Os responsáveis de empresas ligadas à Saúde como a Novartis, Johnson & Johnson ou Roche admitem mesmo que essa partilha global e a evolução tecnológica que está a acontecer durante a pandemia pode ajudar a encontrar outro tipo de curas, incluindo para o cancro.

Nem de propósito, a maioria também não quis excluir a China da evolução tecnológica europeia ou americana, apesar de haver objetivo de celebrar acordos globais para regras éticas em temas como a inteligência artificial e biologia, que estão cada vez mais ligados entre si - "o desafio é encontrar talento que perceba das duas coisas", diz o líder da Novartis.

Redes sociais: Facebook "em mudança"
A rede social "está numa jornada de mudança", disse Nick Clegg, vice-presidente de Global Affairs do Facebook. O antigo político britânico reconheceu que a empresa está no centro de vários debates éticos, sociais e culturais", mas sublinhou a "transformação completa da forma como o Facebook atuou nas eleições de novembro em comparação com as eleições de 2016".

Num debate sobre eleições e o Facebook, fez uma analogia com um pêndulo, que neste momento pende para um lado menos favorável para as tecnológicas. "Antes de o tech clash se instalar tudo aquilo que os engenheiros faziam era aplaudido e ovacionado", "quase como se Silicon Valley fosse resolver todos os problemas".

Para o futuro, Clegg receia que este pêndulo possa ter-se virado "tanto para o outro lado", receando que se possa "cair num estado em que deixaremos de usar os dados de uma forma inovadora."

Também o CTO do Facebook passou pela Web Summit. Mike Schroepfer admitiu numa mesa redonda com a imprensa que o lado mau do Facebook existe e que chega a ser horrível ver o que aparece na plataforma".

Em relação às críticas ao modelo de negócio da plataforma, Schroepfer explica que só desta forma "é possível dar gratuitamente às pessoas os serviços do Facebook, incluindo os serviços de mensagens e videochamadas do WhatsApp ao Messenger, bem como ter desenvolver a melhor tecnologia do mundo, inclusive para eliminar conteúdo malicioso". Sobre a possibilidade de uma alternativa à publicidade é claro: "é o Facebook passar a ser pago e ninguém quer isso".


Trabalho híbrid: Slack e Salesforce
Cal Henderson, o CEO da Slack teceu algumas considerações sobre o futuro do trabalho na sua palestra. Henderson admite que com o trabalho remoto se perderam as relações casuais no escritório durante a pandemia (diz que o Slack está a tentar soluções para o substituir também), mas garante que a tecnologia tem permitido ultrapassar questões que pareciam impossíveis antes e "o escritório como o conhecemos vai mudar e deverá singrar de forma ampla a flexibilidade do trabalho, além do trabalho remoto e híbrido, que veio para ficar para sempre".

O responsável cita mesmo um estudo global que indica que só 22% dos trabalhadores em escritórios preferem voltar a tempo inteiro para o escritório após a pandemia, os restantes 78% prefere um modelo híbrido.

"A natureza do escritório vai mudar e começará a ser o espaço para colaborarmos, vão existir cada vez menos postos individuais fixos nos escritórios e as pessoas vão poder ficar em casa a fazer o trabalho mais focado e isolado", explica o responsável da empresa americana. Daí que acredite que: "a sensação de ir para o trabalho vai mudar para sempre após este período".
Cal Henderson admite que haverá empresas que não vão querer mudar, mesmo depois da maioria ter visto que a flexibilidade do trabalho resulta e motiva os funcionários, "mas essas terão menos tendência a evoluir numa era moderna".

"Faz sentido dar mais flexibilidade de horários às pessoas em casa e fomentar colaboração conjunta no escritório, as empresas devem-se focar em resultados e não em horários se não querem ficar para trás", explica o responsável, acrescentando: "a pandemia permitiu perceber que o trabalho híbrido e flexível tem tudo para resultar, mesmo em empresas que nunca o admitiriam antes".

De fora da intervenção do líder da Slack na Web Summit ficou a aquisição da empresa pela Salesforce, que também esteve presente na conferência. Também o responsável da Salesforce aponta que o modelo de trabalho já não será o mesmo depois da pandemia. Mas, numa altura em que o teletrabalho impera, Bret Taylor explica que há também uma vontade de os trabalhadores terem algum tipo de normalidade.

Taylor não antevê um regresso por completo ao trabalho, que implique estar fisicamente no escritório cinco dias por semana, mas reconhece as vantagens da socialização no local de trabalho. "Em vez de termos uma sexta-feira em trabalho remoto, podemos ter por exemplo uma terça em que todos estão no escritório", exemplifica.

Reis da pandemia: As chamadas do futuro

Num único trimestre a plataforma de videoconferência Zoom ultrapassou as receitas de todo o ano de 2019. "Antes da pandemia nunca tínhamos pensado num crescimento deste género", assumiu Eric Yuan, fundador e CEO do Zoom.

"Por um lado estávamos muito entusiasmados a ver todo o trabalho a compensar", explicou Yuan, mas também reconhece os desafios do crescimento exponencial da plataforma, que no ano passado tinha somente 10 milhões de utilizadores. Este ano são já mais de 300 milhões os participantes em reuniões.

Yuan, que saiu da Cisco para fundar a Zoom, partilhou ainda qual a visão para as videochamadas daqui a "dez ou quinze anos". "Será possível sentir um aperto de mão, o cheiro de um café ou ter tradução simultânea graças à inteligência artificial, quase como se as pessoas estivessem no mesmo espaço", vaticina.


Mobilidade: Autónomos dão "pica"

Mesmo sem condutor, um automóvel autónomo pode ser ainda mais entusiasmante para todos. Conhecida há 107 anos pelo fabrico de carros de luxo desportivos, a Aston Martin quer manter o efeito "uau" junto do público graças a esta tecnologia. Não chega ter um desenho icónico ou aparecer em filmes como o 007.

O responsável criativo, Marek Reichman (na foto), prevê que "o carro, em modo autónomo, possa circular mais depressa do que um condutor humano. Se for usada da forma certa, esta tecnologia "poderá proporcionar ainda melhores sensações para todos dentro de um automóvel". A marca britânica antecipa que esta solução poderá começar a chegar "nos próximos 18 a 24 meses" aos seus automóveis.

Este sistema conta com "o melhor dos dois mundos", no entender da empresa Mobileye. A condução autónoma mistura estes produtos: tem pouca probabilidade de falhar e recorre a soluções muito sofisticadas", entende Ammon Shashua, líder da tecnológica israelita.

Só que os carros sem condutor ainda enfrentam vários obstáculos até se generalizarem um pouco por todo o mundo. "São necessários mapas de alta precisão, com informações provenientes dos utilizadores; a regulação tem de ser estável e necessita de um consenso; também é necessário rentabilizar esta tecnologia, que exige investimento intensivo", assinalou Ammon Shashua.​​​​​​​

Inovação portuguesa: Aposta nos dados
Algumas tecnológicas fundadas por portugueses aproveitaram a Web Summit para anunciar novas apostas. Farfetch, DefinedCrowd e Barkyn são exemplo disso.

A plataforma de moda de luxo Farfetch criou um algoritmo ecológico. É possível comprar roupa na internet à venda em boutiques locais, o que não é habitual em plataformas de e-commerce, que habitualmente têm os produtos a concentrados em centros de logística

A DefinedCrowd, liderada por Daniela Braga (na foto), é uma plataforma que fornece dados de alta qualidade para dispositivos por reconhecimento por voz. A partir do próximo ano, vai lançar pacotes de dados em idiomas europeus para que as empresas possam acelerar o desenvolvimento de novas soluções de comunicação. O português de Portugal será o primeiro idioma a ser disponibilizado, seguindo-se, por exemplo, o inglês e o espanhol.
A Barkyn criou alimentos com ingredientes que previnem o cancro nos cães e que começarão a ser fornecidos em breve. A startup com pacotes para os donos destes animais também criou a caixa Barkyn Home: este dispositivo consegue controlar qual a quantidade de ração disponível e encomendar automaticamente mais comida.

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