JP Sá Couto. 47% dos computadores da Escola Digital entregues são Magalhães 3.0 (ou Classmate)

O Classmate (que serviu de base ao Magalhães), não foi pensado para ensino remoto mas volta a servir os alunos portugueses. Nos últimos cinco anos, contratos da JP Sá Couto fora de portas ultrapassam os 500 milhões de euros. Contamos a história do computador, da empresa e de um negócio que continua a crescer - este ano terá crescimento de 30%, graças à pandemia e ao ensino remoto.

É uma empresa portuguesa, nascida no Porto em 1989, que se internacionalizou durante a governação Sócrates com o projeto Magalhães, altura em que também se viu envolvida em alguma polémica "de forma inadvertida". A JP Sá Couto viu de 2008 para 2021, o Magalhães perder em Portugal o nome e a projeção, mas ganhar dimensão lá fora (com outro nome).

Nos últimos cinco anos, a empresa portuguesa acumula contratos para computadores (e não só) de mais de 500 milhões de euros, entre o Quénia e a América Latina (trabalham com 30 a 50 países, dependendo dos anos). Em 2011 e depois de 700 mil computadores entregues, com a crise financeira e a mudança de Governo, o programa e-escolinhas terminou - os contratos com as operadoras nesses quatro anos ascenderam a 237 milhões de euros. Ainda assim, a base do Magalhães continua viva e voltou agora a servir as escolas portuguesas durante a pandemia.

Jorge Sá Couto, presidente e cofundador (em conjunto com o irmão, João) da empresa, admite-nos que o Magalhães "permitiu a internacionalização", mas "Paulo Portas, no governo depois de 2011 também ajudou não só a JP Sá Couto mas também várias outras empresas nessa internacionalização".

Já em 2020, com a pandemia e o primeiro confinamento, decretado há quase um ano, o Governo de António Costa anunciou em abril o "acesso universal à rede e aos equipamentos para todos os alunos do básico e secundário", num projeto "muito melhor do que o do Magalhães", que teve duas gerações de modelos distribuídos nas escolas até há 10 anos.

140 mil unidades para os alunos são da JP Sá Couto

O objetivo inicial para ter tudo no início do ano letivo (setembro) falhou, com as entregas a começar só em outubro, mas já foram distribuídos até à semana passada 115 mil portáteis com acesso à internet (com hotspot, também incluem mochila e auscultadores), 47% deles (39 mil entregues no final do ano e 15 mil no final de fevereiro) são o modelo mais básico da jp.ik, a área de educação do grupo português.

A empresa serve os clientes Meo e Inforlândia, que foram quem assinou contratos de 38,6 e 36,5 milhões de euros, respetivamente, com o Ministério da Educação para fornecer 450 mil computadores (têm 730 dias para o fazer) para a Escola Digital. À JP compete 31,1%, num total de 140 mil unidades, todos para os alunos com menos de 10 anos (faltam 85 mil, que serão entregues até abril). Existem três categorias de computadores, dependendo do nível de ensino, e a JP fornece unidades para o nível mais básico. "Não participamos em concursos públicos porque somos fabricantes e isso seria concorrência desleal para os nossos clientes", esclarece Sá Couto.

Já no início do ano a Lenovo (que irá fornecer os computadores com maior capacidade já para o ensino secundário - existem três categorias de computador, por nível de escolaridade) dizia ao Dinheiro Vivo que o Governo fez os contratos para computadores já tarde (final do ano) e, com os atrasos por excesso de procura, Portugal não foi dos primeiros a receber unidades da marca chinesa.

(Pode ouvir a entrevista completa no podcast Made in Tech)

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Classmate/Magalhães. Que computador é este?

O Classmate PC, da Intel - a base do Magalhães, em 2008 e 2010 -, foi criado a pensar nos países em vias de desenvolvimento e como parte do projeto One Laptop Per Child (considerado um dos flops da década como produto pela TechCrunch, em 2009). Custava de 100 a 200 dólares, era simples, de ecrã pequeno (formato netbook) e com os materiais mais baratos disponíveis.

Era o básico e para quem não tinha forma de ter acesso a um computador. "É pensado para crianças com menos de 12 anos e continua a ser esse o nosso core business. Em parceria com a Intel conseguimos colocar vários milhões de computadores nas mãos de miúdos que nunca tinham tido esse acesso e isso faz a diferença para estas crianças", diz-nos Jorge Sá Couto, presidente e cofundador da empresa portuguesa.

Em 2016 chegou a acordo (pela sua área de educação, a jp.ik) com a Intel - que tinha deixado o projeto cair - para ficar com os direitos mundiais sobre o tal modelo, o Classmate. "Agora recebemos royalties sempre que alguém quiser usar o conceito do Classmate", é disso exemplo a marca japonesa NEC.

A empresa "foi sempre melhorando o conceito inicial, com materiais mais recentes e até uma variante modular" que permite substituir mais facilmente peças, mas Sá Couto admite que a escolha para os contratos para a Escola Digital são o modelo básico, com custo a rondar os 150 euros.

Chama-se Leap Connect T304 (o nome Magalhães ficou para trás) e "não foi pensado para ensino remoto, mas para complemento nas aulas e para ser um apoio em casa". Embora não tenha pré-instalado o Teams, da Microsoft, "consegue corrê-lo".

O modelo tem ecrã de 11,6", conexão LTE, pesa 1,18 kg, tem 4Gb de memória RAM, um processador (Adreno 618) tipicamente mais usado em smartphones e tablets, mas que já inclui Windows 10 para educação - há uma parceria com a Microsoft. O armazenamento é apenas de 64GB eMMC (memória menos eficaz que a mais cara SSD, que funciona como uma pen ou cartão de memória embutido). Os computadores em Portugal têm garantia de dois anos e a assistência técnica é feita por parceiros, com a recolha e entrega a ser da responsabilidade do utilizador. "São unidades com tempo de vida prevista de quatro anos, mas há Magalhães que ainda funcionam, por exemplo", admite.

Software educativo fora do caderno de encargos

O software colaborativo (como o Teams, Webex ou Zoom) tem de ser colocado pelas escolas, já que do "caderno de encargos não faz parte essa instalação, nem outros programas de apoio educativo que temos disponíveis", nem tão pouco tutoriais de apoio à utilização. Isso mesmo já tinha sido referido antes pelo Governo, apesar da Associação de Diretores de Escolas admitir que há várias sem essa capacidade para fazer instalações para ajudar os alunos.

O software educativo que a empresa tem disponível e usa em vários países também não foi incluído, por não figurar no tal caderno de encargos.

O modelo de negócio da JP Sá Couto evoluiu ao longo dos anos, desde a reparação dos ZX Spectrum em 1989, para a marca própria em 1994 (Tsunami), até à internacionalização com o Magalhães em 2009. A partir daí, criaram um "método de abordagem a projetos educativos de grande escala" que começa com o fornecimento dos Classmate mais recentes, inclui apoio na criação de fábrica local para finalizar os computadores e ligação aos fornecedores na China: "para que possam produzir sozinhos de forma autónoma sem nós". Criaram linhas de assemblagem na Bolívia, Venezuela, Argentina, El Salvador e Quénia - no Brasil o projeto correu mal por compromissos falhados. É o que Jorge Sá Couto chama o trio "Tecnologia, Pedagogia e Engenharia".

Projeto ambicioso no Quénia valeu 300 milhões

O projeto mais completo foi no Quénia, entre 2016 e 2019, num contrato de 300 milhões de dólares, mas só 50% do valor foram para os 450 mil computadores. "O resto foi para criação de infraestrutura local, em que tivemos mesmo arranjar formas de ter energia em alguns locais, dar formação a professores, foi algo complexo".

Para isso contrataram mais 500 pessoas, além das habituais 250 da empresa. Têm agora novo contrato semelhante com o Quénia, de 180 a 200 milhões de dólares para três anos, "mas os gastos com a pandemia no país estão a complicar até porque falta dinheiro para vacinas nestes países, quanto mais para computadores".

Uma das surpresas durante a pandemia foi o interesse do mercado europeu, daí que já vendam (em escala pequena) através de parceiros locais para Alemanha, Espanha e Itália.

Falta de componentes preocupa

A fábrica da Perafita, em Matosinhos, tem cerca de 100 pessoas na área de produção, que finalizam os Classmate fabricados na China, na parte mais estética e que inclui a impressão dos teclados para a língua dos vários países que fornecem.

Jorge Sá Couto admite preocupação com a falta de componentes para os computadores, não só chips mas também ecrãs. "Podem fazer aumentar em 20% o preço dos computadores e se houvesse mais poderíamos estar a vender quase o dobro das unidades", admite. A pandemia começou por ser má para o negócio, "com seis meses quase parados", mas o final do ano e contratos como o da Escola Digital permitiram manter a faturação global a níveis anteriores. "Mas em 2021 vamos crescer 30% e não é mais por falta de componentes", admite.

"Nos últimos anos, temos trabalhado ativamente em Portugal, o qual já representa uma percentagem de vendas de dois dígitos, pelo que continuaremos a atuar no nosso país", admite. Outro dos países que sobressaem, "até pela forma competente como integra os nossos produtos num ecossistema educativo que faz a diferença" é o Uruguai.

Têm delegações na África do Sul, Bolívia e Brasil porque são países onde também prestam muita consultadoria e a ideia passa por expandir o conceito a mais países e aumentar o número de parceiros no futuro.

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