MIT europeu quer ajudar a inovação portuguesa. E traz 3 mil milhões no "sapatinho"

Instituto europeu de inovação e tecnologia, EIT, vai ter orçamento 25% maior nos próximos anos - 3 mil milhões de euros - e quer ter mais parceiros portugueses. Até agora já apoiou 52 parceiros e 86 startups nacionais e em 2019 investiu 6,8 milhões de euros no país. O seu líder, Martin Kern, explica em entrevista ao DV o que as instituições e empresas nacionais podem tirar da sua organização que depende da Comissão Europeia.

O alemão Martin Kern lidera há seis anos o instituto de inovação e tecnologia europeu EIT, que pretende ser uma espécie de MIT da Europa, e não podia estar mais satisfeito com a estabilidade obtida nos últimos anos e os resultados, inclusive em Portugal. O país em 2019 recebeu 6,8 milhões de euros de verbas da instituição, um aumento anual de 32% - o total ascende já a 22,8 milhões. Portugal foi assim o 14º país a receber mais fundos do EIT em 2019 (lidera a Alemanha), embora per capita desça para 17º (aí o líder foi a Suécia).

Nesse período (2013-2020), a instituição que depende do orçamento do programa europeu Horizonte, tem a sua sede na Hungria e pertence à Comissão Europeia teve 2,4 mil milhões de euros para gastar.

Já em 2020 o EIT está a ajudar 52 parceiros portugueses (mais 33,3% do que em 2018), a maior parte integrados nos seus hubs de Energia (onde dominam as PME) e Saúde (onde dominam as universidades). Na área da educação foram distribuídos 4,76 milhões de euros em 2019, com o Instituto Superior Técnico a ser quem recebeu mais - 2 milhões para a área de Energia -, seguido da Universidade de Coimbra com 1,3 milhões na área da Saúde e da Universidade Nova de Lisboa, 400 mil para a área do Clima e 500 mil para Matérias Primas. Desde 2017 já financiaram a criação de uma startup portuguesa e apoiaram outras 86.

Pandemia "acelerou cooperação europeia"

Ao Dinheiro Vivo, Kern admite que a pandemia está a trazer talentos europeus (e não só) de volta para a Europa, inclusive vindos de Silicon Valley, e que acelerou a "nem sempre fácil" cooperação entre estados europeus, "com bons resultados para lidar com a crise". Além disso, espera que o aumento de 25% no orçamento da sua instituição sirva para trazer áreas criativas como a cultura para o ecossistema de inovação do EIT e deixa um convite para "português aproveitar".

"Convido desde já mais instituições de ensino, empresas, estudantes e empreendedores portugueses a aproveitarem o ecossistema criado pelo EIT para se expandirem". Para isso apresenta como aliciante os dois mil parceiros europeus da comunidade da EIT, que envolve investidores, instituições de ensino e empresas europeias, mas também cidades naquele que é "o maior ecossistema europeu de inovação". O papel do EIT envolve não só poder financiar projetos, como ligar boas ideias aos melhores parceiros e ajudar no seu crescimento e expansão.

Kern acredita que o novo orçamento proposto pela Comissão Europeia para os próximos sete anos do EIT "é um reconhecimento do bom trabalho feito" e será aprovado já no início de 2021 pelo Parlamento Europeu. O aumento de 25% eleva para os 3 mil milhões de euros o orçamento da instituição - cerca de 3% do valor total do programa Horizonte (até 2027).

E o que é que podem fazer com esse dinheiro? "Vamos expandir o nosso ecossistema, apoiando mais instituições e startups do que as que já apoiámos (3200 mil), trazendo mais produtos e serviços inovadores para o mercado europeu (já apoiámos mais de 1170) e criando novas áreas da atuação". Além do Clima, Digital, Energia, Alimentação, Saúde, Energia, Indústria, Raw Materials (matérias primas) ou Mobilidade Urbana, querem adicionar novas áreas, a primeira será a de Cultura e indústrias criativas. "Queremos apostar num setor que tem tudo a ganhar com a inovação e que também pode trazer muito valor ao nosso ecossistema", explica.

Nas tendências principais para os próximos tempos, o EIT está alinhado com a União Europeia e quer ajudar a tornar a Europa num dos principais polos de inovação em soluções sustentáveis para uma economia verde, mas também desenvolver a área de educação digital e tecnológica (incluindo literacia digital) - já tiveram 5 mil estudantes a passar pelos seus programas de mestrados e muitos criaram startups depois disso.

Martin Kern destaca ainda a área da saúde e a própria pandemia, bem como algumas soluções conseguidas por inovadores europeus que aproveitaram o fundo de 60 milhões criado em abril para dar uma resposta tecnológica à crise pandémica. "Tivemos inclusive três startups portuguesas a participar nesse programa e vimos soluções interessantes, algumas que já fizeram a diferença e salvaram vidas em Barcelona e esperamos expandir para mais cidades".

Esta última ferramenta, o Digital Control Centre for Covid-19 é um software baseado em inteligência artificial que serve para personalizar tratamentos a doentes com covid-19 com dificuldades respiratórias que, de acordo com um estudo recente (com 786 pacientes), reduziu em 50% a mortalidade. Teve financiamento do EIT Health em abril e foi implementado num hospital de Barcelona.

Água e inteligência artificial são tendências

Kern destaca ainda os prémios do instituto, que premiaram projetos europeus em cinco categorias no início do mês. Tiveram três startups portuguesas nomeadas, mas sem triunfos este ano - o ano passado Portugal a Trigger.System venceu na categoria de EIT Woman, com uma solução que torna os sistemas de irrigação mais eficientes. "Vimos muita inovação com soluções de inteligência artificial e curiosamente várias ligadas à água, desde produtos sustentáveis para água potável ou para redução da pegada energética ligada a projetos no mar.

Dos projetos de que mais se orgulha que o EIT ajudou a lançar e expandir, o responsável destaca o agora unicórnio norueguês, Northvolt, "que é já um líder de inovação em baterias para veículos elétricos e irá ajudar a Europa a ser autosuficiente até 2025" e a startup de aviões elétricos a jacto que descolam e aterram na vertical, a alemã Lilium, "muito perto de ser mais um unicórnio europeu".

Há outros números que o responsável evidencia, incluindo os 13 mil postos de trabalho criados por parceiros apoiados pelo EIT que angariaram 3,3 mil milhões de euros em investimento.

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