Pode um espectáculo online vender 6250 bilhetes? Mágico do Porto surpreende Hollywood e o mundo

Com dois ​​​​​​​óscares da magia no currículo e fãs absolutos vindos de Hollywood - de JJ Abrams a Helen Mirren, passando por Neil Patrick Harris, Ryan Gosling e Woody Allen -, Hélder Guimarães concluiu esta madrugada o espectáculo The Present, que criou para tempos de pandemia, com mais de 6250 pessoas a assistir e interagir ao vivo, em direto e online.

O que é que podemos aprender com a pandemia e com a quarentena e distanciamento social que tem sido necessário? O espectáculo de Hélder Guimarães, o mágico do Porto que tem espantado Hollywood e os EUA em geral há alguns anos, dá várias respostas, mas surge também como prova que os espectáculos (de teatro, magia e companhia) podem sobreviver, reinventar-se e distinguir-se também no formato online. Basta um pouco de criatividade, um público atento e sedento por algo que o surpreenda e, claro, várias pitadas de magia.

Como já chegámos a noticiar - inclusive com entrevista (por Zoom) -, o mágico português criou em abril - e tendo a pandemia e a quarentena como ponto de partida-, o espectáculo online The Present. Inicialmente era feito a pensar no público da Califórnia, onde reside e trabalha há já alguns anos - já fez inclusive consultoria em magia para séries de TV e filmes (ensinou alguns 'truques' a Sandra Bullock e Cate Blanchett em Oceans 8). Depois alargou para o resto dos EUA e, mais tarde, em mais uma extensão de datas, para o resto do mundo.

O espectáculo, para ser interativo (com participação do público) e íntimo, costuma ter só 25 participantes que recebem inclusive, por correio, uma caixa com artigos para eles próprios fazerem magia nas suas casas. Depois de mais de 250 espectáculos feitos online, a partir da sua casa em Los Angeles e de centenas de elogios de críticos reputados dos principais jornais dos EUA e de atores e realizadores famosos em Hollywood, The Present teve o seu último espectáculo este sábado - madrugada de domingo em Portugal.

E o Grand Finale teve uma novidade também ela criativa. Para além dos 25 participantes por Zoom, foram vendidos bilhetes para uma versão com transmissão de streaming em direto com duas modalidade: os que receberam também no correio uma versão mais pequena da caixa mágica, para fazerem magia nas suas casas (preços a rondar os 50 dólares/43 euros), e aqueles que compraram bilhete já em cima da hora só para ver o espetáculo sem adereços incluídos (bilhetes a 25 dólares/21,3 euros, neste caso).

Resultado? Mais de 6250 casas de família (já que em cada casa/janela de Zoom víamos casais e famílias inteiras a assistir) espalhadas por todo o mundo - o espectáculo é em inglês - estiveram "sintonizadas" online a ver e participar (quem tinha o kit). Isto além dos 25 que puderam interagir e tentar influenciar a magia de Helder Guimarães (alguns dos participantes nesta última sessão eram atores e argumentistas de séries da moda nos EUA).

O Los Angeles Times, que já em abril tinha deixado críticas repletas de elogios ao espectáculo, noticiou agora: "É assim que o teatro é salvo: Espetáculo de magia mostra mina de ouro em bilheteira virtual"; "Podem as receitas de bilheteira ser mágicas mesmo durante a pandemia de coronavírus? Podem quando um espectáculo é protagonizado por um mestre das cartas que consegue executar truques de deixar o queixo caído, apagar a sensação de isolamento para audiências com fome de teatro - e vender mais de 6 mil bilhetes para uma única noite em Zoom".

A atriz 'dona' de um Óscar Helen Mirren foi uma das últimas a ver o espectáculo e a deixar uma recomendação:

Da magia a uma espécie de stand up

O portuense, que se considera um mágico alternativo, até porque a sua área de especialidade são as cartas (ganhou dois Óscares da magia nessa categoria), dá um espectáculo bem mais amplo do que golpes de mestre de magia que surpreendem e deixam atónitos, de boca aberta e, em alguns casos com as mãos na cabeça, o seu público. Hélder mistura stand up comedy, com introspeções pessoais que acertam em cheio no bizarro presente que todos vivemos em pandemia - é dirigido pelo famoso produtor e realizador Frank Marshall - parceiro de Steven Spielberg em várias produções.

O performer português toma como ponto de partida a sua vida, quando aos 11 anos ficou em isolamento após um acidente que o deixou uns dias em coma e, confinado em casa por ordem do médico, acabou por se relacionar como nunca com o seu peculiar avô. É assim que começamos a perceber que este não é só um espetáculo de magia surpreendente e incrível, é também um espaço que nos deixa várias reflexões humanas pertinentes sobre o momento pandémico que vivemos e o que podemos tirar dele.

A lição final talvez seja mesmo que devemos usar o distanciamento físico necessário e a quarentena para expandir os nossos horizontes, ligarmo-nos a quem nunca nos tínhamos ligado e aprender algo que nos será útil para o resto da vida. Uma espécie de carpe diem, do Clube dos Poetas Mortos, versão mágica e de tempos de pandemia.

O lado mágico é mais difícil de descrever por palavras, já que tantas vezes são as emoções e entusiasmo que acaba por surgir. Em primeiro lugar há as interações com os 25 participantes por Zoom, que tentam tomar decisões para ver se dificultam as várias tarefas mágicas de Hélder - cujas reações vamos vendo e também enriquecem o espectáculo (um bom trabalho de realização, mesmo por Zoom, da organização - que é do famoso Geffen Playhouse, de Los Angeles).

Depois, mesmo os restantes 6250 que veem tudo em streaming em direto - neste caso, os que têm o kit enviado por correio - também têm o seu espaço para ver magia acontecer nas suas próprias mãos, nomeadamente com algumas cartas que foram enviadas e acabam rasgadas por um motivo 'mágico' (só custa é no início rasgar cartas bem bonitas por sinal).

No final, com o The Present (o presente) entregue e finalizado - mais de 250 espectáculos esgotados depois e três extensões de datas -, sobrou tempo para anunciar o The Future (o future), o próximo espectáculo por Zoom de Hélder Guimarães, com data marcada já para 4 de dezembro. E que promete, sem surpresa, abordar o futuro - as surpresas, como sempre, ficam para a performance.

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