Portugal integra projeto de telescópios inéditos para a exploração espacial (e industrial)

O país investe 30 milhões de euros até 2030 e é um dos sete signatários iniciais (que inclui Austrália e China) para criar "as duas maiores e mais complexas redes de radiotelescópios já construídas" pelo ser humano que tiveram agora luz verde para a sua construção. Projeto inclui "várias oportunidades para as empresas portuguesas", incluindo no setor industrial.

Chama-se Observatório SKA (ou SKAO), tem a participação (para já) de Portugal e de Austrália, China, Itália, Holanda, África do Sul e Reino Unido e, depois de muitos anos de intenções, teve finalmente a luz verde esperada para a construção de dois telescópios SKA na Austrália e na África do Sul. O objetivo mais ambicioso? "Desvendar alguns dos segredos mais fascinantes do nosso Universo".

Quem o diz é Philip Diamond, diretor geral do projeto que viu nos últimos dias os membros do recentemente formado Observatório SKA (ou The Square Kilometre Array, já que em cada local irá incluir milhares de antenas espalhadas) aprovarem o início da construção dos tais telescópios. O SKA-Low e o SKA-Mid, nomes que descrevem a faixa de radiofrequência que cada um cobre, serão "as duas maiores e mais complexas redes de radiotelescópios já construídas" e irão ajudar a dar respostas sobre planetas habitáveis, buracos negros e matéria escura.

Em comunicado, o britânico professor de física e astronomia na Universidade de Manchester admite: "Estou em êxtase". Admitindo que "este é um momento que demorou 30 anos a chegar" - o projeto inicial é de 1991. A humanidade está, assim, "a dar outro salto gigante ao se comprometer a construir o que será a maior instalação científica deste tipo no planeta; não apenas uma, mas as duas maiores e mais complexas redes de radiotelescópios", adianta.

O Observatório criado oficialmente há uns meses é, assim, uma organização intergovernamental que aprovou agora a construção complexa depois de sete anos de trabalho de design e engenharia que passou por 500 especialistas de 20 países. A construção dos telescópios arranca no início do próximo ano e deverá ficar concluída em 2028 (pelo menos um dos telescópios), com uma estimativa de observações científicas relevantes para mais de 50 anos.

O que Portugal tem a ganhar

E qual a participação portuguesa? Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa (Portugal Space) explica ao Dinheiro Vivo que a contribuição portuguesa para o projeto que 2 mil milhões de euros é de 1,5% do custo total do Observatório, ou seja, 30 milhões de euros até 2030. "Portugal está envolvido neste projeto há vários anos, é um dos membros fundadores da organização".

O Observatório segue, assim, "uma política de retorno do investimento, em que as contribuições dos países membro são devolvidas na forma de contratos industriais atribuídos às empresas de cada um desses estados, havendo o potencial de cada país obter um retorno de 70% do seu investimento feito".

O responsável admite que espera agora ver as empresas portuguesas envolvidas nos vários pacotes de trabalho. Quais? "No desenvolvimento do software, na instalação da rede necessária para o funcionamento das antenas do SKA na África do Sul e no processo de montagem, verificação, validação e integração de componentes".

Ricardo Conde admite que as empresas portuguesas também se podem "posicionar para o fornecimento de subsistemas durante a fase de construção".

Objetivos ambiciosos ajudam "ciência e indústria"

Embora seja um projeto "essencialmente de ciência", terá outras aplicações relevantes para as empresas e a indústria na Terra. Por um lado traz "uma enorme inovação tecnológica que tem como objetivo produzir conhecimento na área da radioastronomia, a capacitação de astrónomos e engenheiros em problemas relacionados com Big Data e computação de alta performance". Há o outro objetivo mais incerto de trazer maior conhecimento do Universo "através da exploração científica dos dados provenientes do SKA", mas também ajudar "na divulgação científica aos jovens e público em geral".

Do ponto de vista empresarial já houve ganhos conseguidos antes da construção dos telescópios estar aprovada e ter data marcada. Conde garante que "o envolvimento das empresas e da comunidade científica, através do projeto ENGAGE SKA Portugal, já garantiu o desenvolvimento de competências científicas e técnicas". Tudo isso, adianta, será agora "fundamental para o envolvimento industrial na construção e para o envolvimento científico na fase de operação do observatório, quando este começar a gerar dados".

Colaboração intergovernamental

Além dos sete países signatários do projeto inicial (Portugal incluído), devem juntar-se em breve França e Espanha e já foi assinado um acordo de cooperação com a Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne, que será o primeiro passo para a Suíça também aderir ao Observatório SKA.

Outros países, incluindo os que também participaram da fase de projeto dos telescópios SKA (Canadá, Alemanha, Índia e Suécia), e outros interessados mais recentes como Japão e Coreia do Sul, completam a lista selecionada de observadores no Conselho do projeto.

Certo é que este é já um projeto internacional, com 11 consórcios internacionais representando mais de 100 instituições, incluindo laboratórios de pesquisa, universidades e empresas de todo o mundo a terem um papel na projetação das antenas, redes, computação, software e infraestrutura necessária para o funcionamento dos telescópios.

Em comunicado, Catherine Cesarsky, Presidente do Conselho do SKAO agradece aos países membros por "darem luz verde para iniciar a construção dos telescópios, o que mostra a sua confiança no trabalho profissional que está a ser feito e no plano" que antevê "um futuro brilhante para este inovador centro de pesquisa".

Como Ricardo Conde mencionou, além da questão científica, o projeto está delineado para produzir benefícios sociais e económicos tangíveis para os países envolvidos, o que inlcluirá "novos empregos em tecnologia de ponta e a expansão da capacidade industrial, entre outros". O lado de oportunidades para as empresas de cada país "é uma parte fundamental do projeto".

Números fundamentais do projeto

· Custo total de 2 mil milhões de euros, incluindo 1,3 mil milhões de euros para a construção (a partir de 2020) e 700 milhões para os primeiros 10 anos de operação (após 2021)

· Dois telescópios:

197 pratos na África do Sul, incluindo os 64 pratos MeerKAT existentes

131.072 antenas na Austrália Ocidental

710 PB (ou petabytes, cada PB são 1024 Terabytes) de dados científicos entregues a utilizadores científicos por ano quando totalmente operacional

· 7 membros fundadores do Observatório SKA, incluindo Austrália, China, Itália, Holanda, Portugal, África do Sul e Reino Unido

· 9 outros países atualmente observadores no Conselho SKAO, incluindo os que participaram da fase de design dos telescópios SKA (Canadá, França, Alemanha, Índia, Espanha, Suécia e Suíça), e outros membros mais recentes, como Japão e Coreia do Sul

· 500 engenheiros de 100 instituições em 20 países envolvidos no projeto dos telescópios SKA

· Mais de 1.000 cientistas de 40 países envolvidos no desenvolvimento da utilização científica dos telescópios SKA

· Fase de construção: 2021-2029

· Início das atividades de construção: 1 de julho de 2021

· Início das operações do Observatório no terreno: 2024

· Mais de 50 anos de ciência transformacional prevista

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