Redes sociais. “São a natureza humana alimentada a esteróides”

Investigador Lee Rainie admite futuro com algoritmos a incentivar a cooperação e não a divisão e explica que Facebook “é um adolescente turbulento”

É um dos autores e investigadores mais reputados nos EUA e diretor da área de internet e tecnologia do Pew Research Center, em Washington DC, e falámos com ele durante a conferência Collision From Home. Lee Rainie estuda o fenómeno da internet há mais de 20 anos, desde que quando tudo o que havia era “a esperança de que ia melhorar a democracia, a saúde, o ensino e tornar-nos melhores cidadãos”.

“Nos últimos 10 anos essa narrativa foi desafiada, com a era das redes sociais a mostrar que as ferramentas usadas para o bem também podem ser usadas para as pessoas serem miseráveis umas para as outras e dar novo poder às forças mais turbulentas da sociedade”, explica o ex-jornalista, que coordenou mais de 650 estudos de análise aos hábitos online e ao papel da internet na vida das pessoas.

E isso leva-nos à origem dos problemas atuais na internet e rede sociais. Quais são? “Temos visto que nas redes sociais há falta de empatia nos comentários, as pessoas têm tendência em discutir mais porque estão a escrever e a comunicar com o ecrã, não vêm a outra pessoa do outro lado e dizem coisas que nunca diriam cara a cara”.

É o que chama de distanciamento da conexão humana e dá o exemplo dos protestos após a morte de George Floyd nos EUA. “As pessoas sentem que as redes sociais deram-lhes novas ferramentas para terem uma voz, de se organizarem e de conectarem-se com amigos, mas são uma força de divisão na cultura porque o discurso fica mais intenso e dividido - temem que a sociedade fique pior”.

Algoritmos a favor da cooperação e não da divisão

Muitas pessoas, diz, estão mais interessadas num modelo “onde os algoritmos não assumem que os conteúdos que têm mais likes, comentários e partilhas devam ser os privilegiados na plataforma”, porque isso “consegue-se mais facilmente com discussão inflamada e extremada que mantém uma interação constante, o que ajuda a vender publicidade” (98% das receitas do Facebook). Querer um sistema “que dá força à empatia e cooperação humana não é nada fácil, porque o cenário atual das redes sociais é o da natureza humana a esteróides”.

O Facebook,“com tudo de bom e mau que tem”, é para o investigador “como um adolescente turbulento” em busca de educação e que deve aprender com os erros - “eles próprios pedem regulação, embora não queiram ceder controlo”. “Ainda estamos no início desta nova revolução na comunicação e precisamos de tempo para as entender e gerir”, admite, ou seja, há esperança.

Nos EUA há mesmo uma tensão clara, entre quem quer mais controlo no discurso na internet (democratas) e quem queira liberdade total nos discurso online (republicanos). “Acredito que a maioria dos americanos quer regulação para evitar dar força à desinformação, faker news ou assédio online e garantir que os algoritmos não alimentam pessoas com pontos de vista mais intensos, mas é duro fazer uma lei e criar esse hábito”, daí que considere que será a Europa a chegar lá primeiro.

Uma das ideias - do World Wide Web Consortium - é criar ferramentas simples para dar bem controlo total logo à partida aos utilizadores sobre como os seus dados são usados e como querem fazer uso da rede social - recentemente a Google começou a usar algo desse tipo, que inclui a eliminação automática dos dados registados de cada utilizador a cada 18 meses.

Ao ponto de “poder haver novos modelos económicos nas redes sociais atuais ou noutras com subscrição paga e maior controlo (o LinkedIn é já um exemplo e o Twitter deverá começar a testar essa solução)”. “Ou seja, é usar melhor as ferramentas de inteligência artificial que já existem, inclusive para dar ao algoritmo incentivos para destacar os melhores conteúdos, mais cooperativos, e tirar protagonismo aos outros, que desinformam e só se preocupam em dividir”.

Pandemia trouxe mais altruísmo à internet (por voz e vídeo)

E o que trouxe a pandemia? “Tornou a internet ainda mais essencial para mais pessoas”. Um estudo atual nos EUA diz que 53% dos adultos dizem que a internet se tornou central nas suas vidas durante a pandemia e outros 34% dizem que se tornou importante, mas não essencial”. Lee explica que a pandemia também dividiu mais as desigualdades na sociedade, entre os que estão na internet com condições e os que não estão, inclusive no ensino remoto. Uma das coisas positivas foi “o aumento da necessidade de ter encontros humanos significativos, mais ricos, através das conversas de áudio e de vídeo e não só do texto, onde podemos ver os olhos e ouvir a voz dos que são mais importantes para nós” - “houve mais altruísmo”.

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