Relógio inteligente do Facebook vai enfrentar "grande barreira" da privacidade

De acordo com o analista da IDC Francisco Jerónimo, os receios dos utilizadores quanto à sua privacidade serão um obstáculo para a novidade de Mark Zuckerberg

A entrada do gigante das redes sociais Facebook no mercado dos relógios inteligentes, que deverá acontecer em 2022, irá enfrentar a desconfiança dos utilizadores devido às polémicas da empresa com a recolha de dados e políticas de privacidade. Foi isto que explicou ao Dinheiro Vivo o vice-presidente associado da divisão de dispositivos na IDC EMEA, Francisco Jerónimo.

"A questão da privacidade é a grande barreira que vão ter de ultrapassar", afirmou o analista. "A Facebook nos últimos anos tem estado envolta em tanta controvérsia que leva a que as pessoas tenham algum medo em ainda ter mais um aparelho a fazer a monitorização da sua vida, dos seus dados biométricos, de saúde e de toda uma série de informações de localização e atividade permanente."

Devido aos sucessivos incidentes nesta área protagonizados pelo Facebook, os utilizadores sabem que as suas atividades na rede (e fora dela) são monitorizadas. "Há esta consciência de que tudo o que fazemos enquanto usamos a rede - a Facebook está a recolher esses dados."

Francisco Jerónimo sublinhou ainda que há uma diferença importante no controlo sobre a monitorização que é feita pelo smartphone e pelo relógio inteligente. "Enquanto um smartphone também recolhe os dados de localização, muitas pessoas ou não usam frequentemente a app ou bloqueiam o acesso se não estiverem a usar", frisou. "Há uma possibilidade de limitar o acesso a determinados dados", algo que "normalmente não acontece" no relógio inteligente.

De acordo com os dados avançados pelo site especializado The Information, o relógio inteligente da empresa de Mark Zuckerberg irá focar-se nas áreas do exercício físico, saúde e mensagens, o que significa que terá vários tipos de sensores com recolha constante de dados.

Esta aposta faz sentido porque é aí que os consumidores veem os valores dos smartwatches - não apenas ler notificações e usar apps, mas ter um aparelho que faz a monitorização da atividade física e dos indicadores de saúde e pode dar aconselhamento e alertas, lendo desde o ritmo cardíaco ao nível de oxigénio.

No entanto, dar acesso a estes dados à empresa liderada por Zuckerberg levantará dúvidas. "Vai haver um receio muito grande", considerou Francisco Jerónimo. O analista citou o exemplo de outro dispositivo lançado pelo Facebook que não foi bem aceite pelos consumidores, Portal, por motivos semelhantes.

"O Portal teve um sucesso extraordinariamente reduzido", disse, indicando que as vendas deste aparelho de videochamadas são muito pequenas face a qualquer outra marca no mercado.

Na opinião do analista, este desempenho está ligado às mesmas questões de privacidade. "Existe aqui algum receio de ter um aparelho em casa que poderá estar a filmar e a ver o que está a acontecer dentro da habitação de cada utilizador", afirmou. "Por muitas campanhas que tenham feito de descontos, bastante agressivas e competitivas, as vendas nunca dispararam." O Portal foi lançado em novembro de 2018 e os preços atuais situam-se entre os 129 e os 279 dólares.

Conectividade e sistema operativo próprio

O relógio inteligente deverá ter um preço próximo do custo de fabrico, uma vez que "o objetivo da Facebook não é ganhar dinheiro no hardware." O dispositivo virá com conectividade celular, algo que lhe permitirá ser independente do smartphone e faz sentido para atrair mais utilizadores.

"Têm de lançar com conectividade, porque se não o fizerem estarão a abdicar de um canal importante, o canal operador", explicou Francisco Jerónimo, referindo a possibilidade de que o modelo de negócio passe por parcerias com os operadores para vender o smartwatch.

É também para aí que caminha o mercado: "Cada vez mais a tendência de crescimento está a ser nos produtos conectados, porque a independência do telefone é essencial quando o utilizador quer ir correr, por exemplo, e poder receber chamadas no relógio."

Por outro lado, as indicações é que o Facebook irá desenvolver o seu próprio sistema operativo para o relógio, em vez de usar o Wear OS da Google. Francisco Jerónimo disse acreditar que tal está relacionado com a recolha dos dados.

"Se usarem o Wear OS, a Google é que tem acesso a todos os dados e não necessariamente a Facebook", sublinhou. "A Facebook tem interesse em recolher e ter acesso a esses dados e não ficar dependente da Google, que não os vai partilhar."

Tudo isto está relacionado com o modelo de negócio que será pensado para o relógio e que ainda não é claro neste momento, mas não passará pela rentabilização do hardware, à semelhança do que outras empresas (como a Amazon) já fizeram.

"A lógica é ou recolher dados para os vender ou vender algum serviço ou subscrições através do hardware", explicou Jerónimo. Uma possibilidade é recolher mais dados sobre os utilizadores e usá-los em conjunção com aquilo que já têm para construir um perfil mais detalhado que será útil para apelar a novas indústrias. A indústria farmacêutica, por exemplo, dificilmente usa o Facebook para promover medicamentos. "Mas se calhar quando conhecerem melhor o perfil de saúde de um grupo de utilizadores vão poder fazer o "targeting" de medicamentos para esse grupo."

Enquanto isso, a marca que lidera o mercado de relógios inteligentes, Apple, está a focar-se na mensagem de que não recolhe nem lucra com os dados dos utilizadores.

"A Apple está a apostar nessa mensagem porque sabe que lhe vai trazer mais utilizadores", frisou Francisco Jerónimo, referindo que um dos objetivos é criar a dúvida nas pessoas sobre os gadgets que utilizam.

"Sabem que não é na venda dos dados que a Apple vai fazer as suas receitas. Vão obtê-las com o hardware. Como não estão dependentes de venderem publicidade nem dados, podem focar-se nessa mensagem."

Mercado de smartwatches em alta

A IDC prevê um crescimento de 27% nas vendas em 2021, para 96 milhões de unidades, com o Apple Watch a manter-se na liderança. No entanto, são esperadas mais entradas no segmento, tanto de fabricantes chinesas como marcas de eletrónica de consumo que vão interessar-se pelos relógios inteligentes. Francisco Jerónimo disse que a maioria das marcas se irá posicionar num nível de preço mais baixo que a Apple, destacando a explosão de vendas dos relógios Huawei na Europa e a entrada de marcas como Oppo e Xiaomi.

"O acesso à tecnologia é relativamente barato e simples. Vai acontecer com os smartwatches aquilo que aconteceu com os smartphones."

Ainda assim, as pulseiras mais simples de fitness vão continuar a ter sucesso porque o preço é muito baixo. "Vão continuar a ter uma expressão forte porque a taxa de penetração dos wearables na população ainda é bastante reduzida", explicou o analista.

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