“Vamos quintuplicar faturação e profissionais nos próximos dois anos”

Líder da Outfit elogia engenheiros e tecnologia portuguesa. E diz que temos de procurar investidores lá fora em vez de ficar à espera de web summits.

Aos cinco anos de vida, a Outfit, consultora especializada na plataforma de desenvolvimento de aplicações Outsystems, está a explodir. Durante a pandemia, anunciou a expansão aos 17 mercados da região EMEA (Europa, Médio Oriente e África) onde o grupo Devoteam, que agora integra, está implantado. João Caldas, cofundador e líder da empresa do universo Bold fala ao Dinheiro Vivo sobre objetivos ambiciosos e o que está a mudar no setor.

A Outfit conta já com 50 consultores (no universo Bold são perto de 800) e vai reforçar. A integração com a Devoteam criou mais necessidades?

A estratégia de crescimento sustentado vem de trás, mas esta integração vai impulsionar esse movimento. A ideia é multiplicar por cinco os nossos resultados em dois anos.

Seis meses depois de abrir, em 2015, a Outfit apontava faturar 1 milhão, 40% vindos de mercados externos, e estar no top de parceiros da Outsystems. Cumpriu?

Conseguimos a faturação, pela evolução tecnológica, mas nos mercados externos ficámos pelos 30%.

E como foi este ano?

Neste ano atípico, vamos atingir um crescimento de 30%.

É uma área muito específica, o que lhe permitiu crescer em tempo de pandemia…

E que traz oportunidades, porque é uma área de grande evolução, e desafios, porque somos muito focados. A Outfit nasceu com o objetivo de criar uma equipa de elite que pudesse ser referência mundial na sua capacidade de entrega dos serviços na qualidade e fosse exclusivamente focada numa tecnologia portuguesa que é a Outsystems. Foi nesse sentido que lançámos este projeto, baseado na convicção de que a tecnologia liderasse no mercado mundial – convicção vencedora que nos permitiu implementar esta estratégia com sucesso.

E esta tecnologia consiste em exatamente o quê?

A tecnologia Outsystems existe no quadrante de low code, plataformas de desenvolvimento rápido de aplicações, e é algo que a consultora Gartner diz que vai ser o mainstream no que respeita a desenvolvimento de software. É uma tecnologia que permite reduzir o time to market no desenvolvimento de software e na prestação de serviços a grandes empresas que pretendem sustentar a sua estratégia com base neste tipo de tecnologias.

Voltando à meta de resultados...

No horizonte 2023, queremos multiplicar por cinco a nossa faturação e número de colaboradores. Sempre na perspetiva Devoteam e na região EMEA, que é onde queremos atuar. Este palco, utilizando as empresas do grupo como veículo de transporte para o que fazemos, vai permitir-nos mostrar o valor dos nossos serviços nos diferentes países. A tecnologia é a ferramenta, os serviços a sua utilização ao melhor nível.

E a que países quer chegar?

O nosso projeto foi pensado assim – e não foi inocente a integração na Bold, porque tem um forte espírito de internacionalização. Agora, a entrada na Devoteam veio potenciar oportunidades e esses países serão o veículo para a nossa oferta penetrar. Já temos alguma componente de negócio via França (casa-mãe) com referências importantes e um nível de faturação relevante, mas os nossos principais clientes foram sempre portugueses. Também no Médio Oriente já estamos a prestar serviços com colegas locais. Os próximos países a entrar a bordo em 2021 são Bélgica, Inglaterra, Noruega e Holanda. Serão o nosso foco e acreditamos que em 2022 já teremos dez países do grupo a trabalhar connosco intensivamente nesta área.

E que faturação prevê atingir?

A Outfit vai fechar este ano a faturar 2,5 milhões. Queremos chegar a 2023 com cinco vezes mais. E atingir os cerca de 250 trabalhadores.

As contratações vão acompanhar esse crescimento?

Garantidamente. Se a ambição é ter no mínimo dez países, precisamos dessa capacitação, porque estamos a atuar como centro de excelência. Obviamente vamos apoiar-nos no conhecimento local e proximidade dos nossos colegas, mas um centro de excelência tem de ter capacidade e conhecimento. Mais de 90% dos nossos engenheiros são certificados pelo fabricante e na parte do conhecimento temos tido o desempenho reconhecido, tal como na capacidade, em todo o mundo. Para escalar, temos de apoiar isso em contratação e formação. Uma coisa muito boa que temos é darmos a formação, termos experiência suficiente para transformar profissionais que trabalham outras tecnologias, fazer um completo revamp da sua carreira. Como temos também capacidade de ir buscar licenciados, dar formação, prepará-los para os exames.

Qual é a idade média na Outfit?

Cerca de 34 anos – e temos 16 mulheres connosco (a oferta está a crescer a cada ano de formação).

Portugal é reconhecido pela qualidade dos seus profissionais – o que também leva a que venham aqui recrutar engenheiros para todo o mundo. Sente dificuldade em recrutar?

Sim, alguma. Até porque também fazemos uma seleção criteriosa – e procuramos muito mais um certo mindset, porque o conhecimento podemos nós dar. Eu estou no mercado de IT há mais de 20 anos e garanto que os nossos profissionais estão até acima da média – esse feedback é-me dado por clientes internacionais e até pelos próprios engenheiros, que quando estão em equipas mistas têm a noção de ter mais capacidade, e até estranham.

O trabalho remoto e a possibilidade de se trabalhar de onde se estiver é uma mais-valia ou ainda prevalece o sentimento de pertença, de estar fisicamente?

O sentimento de pertença nunca vai desaparecer, mas surgiu aqui uma oportunidade. Há o desafio de tentar conviver com modelos híbridos não estudados, mas há oportunidades – e uma é que jovens formados na UBI, no Minho, etc., que sentem sempre algum desconforto por terem de vir para Lisboa, para o Porto, deixam de ter essa necessidade; podem ficar nas suas aldeias, com qualidade de vida, com as famílias e em simultâneo desenvolver essas regiões. A nossa equipa está a agarrar essa oportunidade e há muitos jovens a responder bem.

A pandemia veio paralisar os eventos, incluindo Web Summit (WS). É uma grande perda?

Vejo a WS como um evento mais ligado ao turismo e por aí pode haver perda. Mas do ponto de vista do IT não acho que haja grande impacto – até pelo contrário: a ausência desse evento pode criar oportunidades para empreendedores com projetos inovadores procurarem investidores e plataformas virtualmente, para procurar investimento sem os estrangeiros terem de cá vir. Não podemos fazer depender de um evento a captação de investimento estrangeiro para a nossa tecnologia. Não podemos pôr na cabeça dos empreendedores que só na WS é que encontram o príncipe encantado.

Nós temos pessoas com vontade de fazer projetos inovadores e há risco de abandonarem a empresa, mas por uma boa razão. E não é no WS que encontram projeção. É um evento importante, mas mais na parte do turismo. Dos relatórios que li, que não são diretamente focados nisso, nota-se até um decréscimo de investimento em tecnologia em Portugal nos anos de WS… devia ser o oposto. Temos de ver estas coisas com maior rigor.

O que é que o faria analisar um projeto?

Os empreendedores têm de apostar em tecnologia portuguesa têm de ser projetos que criem o seu mercado, que sejam relevantes no mercado e não sejam apenas uma boa ideia. Têm de ter sustento numa relação causa-efeito que se perceba a real utilidade. Porque inovar não é ter uma boa ideia, é algo que cria valor – e essa separação é determinante para decidir se invisto ou não. É de evitar entrar em modo brainstorming e ter ideias malucas. O importante é focarmo-nos em resolver problemas, com algo novo ou melhorando o que existe, criando valor.

Hoje somos vistos como produto de qualidade, mas até há uns anos os sapatos portugueses tinham de ter marca italiana ou inglesa para serem devidamente valorizados. Isso ainda acontece com a tecnologia portuguesa?

A tecnologia portuguesa tem muito valor, sobretudo quando estamos a procurar valor real e não a competir por cortar custos. E é reconhecido. Mas não há uma aposta. Nós temos sempre de ter uma Gartner a dizer que o produto é bom ou uma etiqueta estrangeira... Ainda estamos aí, sim, é uma observação que faço. Muitas vezes, colegas estrangeiros dizem: não sabia que era português, com um ar de surpresa que me diz que não têm noção do que se faz cá, não conhecem. Ou seja, não é pudor em relação aos portugueses, os europeus gostam imenso de nós, é desconhecimento. Temos de dar-nos mais visibilidade.

Como? Com políticas públicas ou por iniciativa das empresas?

É um misto. É um foco que é preciso ter: perceber em que somos bons e apostar em termos de políticas públicas – e faz-se alguma coisa mas muito mais podia ser feito, identificar áreas de aposta e investir nelas. E da parte das empresas não esperar iniciativas e investimento público para avançar. Porque acredito que se a iniciativa privada for focada para fazer valer os seus achievments aos agentes públicos as coisas encaixam e estes acabam por valorizar e investir. É preciso foco e ação de ambas as partes para as coisas se desenrolarem e fazermos depois operações de marketing do país.

E teríamos vantagem em criar escala juntando várias empresas para mostrar o Portugal tecnológico e moderno?

Sim, e na tecnologia é raro isso acontecer. Fala-se muito em parcerias mas não se oficializa, não há um grande consórcio nacional que permita que respondamos quando é preciso escala. Tem de haver estímulos para se criarem essas importantes parcerias, porque acho que há projetos que não vêm para cá por questão de escala.

Qual será o próximo passo da Outfit?

Temos na Outfit uma estratégia muito interessante de escala: queremos liderar o mercado low code. Obviamente, no barco Devoteam, mas queremos liderar como centro de excelência: é aqui que se vai juntar o conhecimento, a escalabilidade, a prática. E o interessante é a missão de levar serviços portugueses, baseados numa tecnologia portuguesa, numa extensão EMEA. Os saltos que queremos dar são muito significativos e motivo de orgulho se os conseguirmos atingir e levar o que fazemos de bom ao palco internacional.

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