"Viver na bolha das redes sociais tira-nos outras perspetivas". Vestager quer algoritmos revelados

Nesta segunda parte da entrevista a Margrethe Vestager, a vice-presidente da Comissão Europeia aborda como quer que os gigantes tech sejam mais transparentes com os seus algoritmos. Aborda a identidade digital, que os cidadãos vão poder levar de serviço em serviço, fala sobre impostos digitais e a sustentabilidade dos média.

Uma das principais preocupações nas sociedades atuais diz respeito à forma como o discurso divisivo, inflamado e radical tem ganho dimensão nas redes sociais, graças aos algoritmos (de Facebook, Twitter ou YouTube) preocupados em manter os níveis de interatividade e atenção elevados - o que está ligado ao modelo de negócio focado na publicidade direcionada.

Magrethe Vestager admite que "é algo muito prejudicial" e daí que o Digital Services Act "ponha o foco nos algoritmos, exigindo às empresas transparência sobre a forma como eles funcionam".

"Precisamos que pessoas como investigadores e jornalistas vejam como isto funciona, não vamos tomar o passo de proibir a microssegmentação [que permite a publicidade direccionada, mas também as sugestões personalizadas de novos vídeos no YouTube, entre outras valências], porque também há benefícios nisso", admite.

As consequências atuais "são óbvias". "Se vivemos na bolha das redes sociais, na nossa realidade privada, alimentada por algoritmos só preocupados em nos fechar em círculos e nos fazer reagir, a dar-nos só mais do que gostamos, como podemos falar uns com os outros e perceber as outras perspetivas?"

A responsável dá o exemplo dos EUA, onde milhões de pessoas "estão totalmente convencidas que houve fraude eleitoral massiva, enquanto outros, bem como as autoridades e tribunais (61 processos judiciais de Trump não deram em nada) dizem que foi a eleição mais justa da história". E aí o que "muitos veem quando olham para o seu mural é um grande problema".

Vestager dá o exemplo dos jornais. "Se eu leio o meu jornal de manhã em papel ou no iPad, consigo ver muitas coisas que não me interessam particularmente, incluindo futebol (não sou fã), vejo opiniões diferentes e tenho uma noção do que se passa em geral e isso é muito importante até para o sentimento de comunidade", alerta a política dinamarquesa, que quer "trazer de volta essa sensação de comunidade, que é parte da luta por uma democracia vibrante".

Identidade digital favorece utilizadores e negócios

Outra melhoria prevista é a da identidade digital, que "passará a estar nas mãos do utilizador, que pode levar consigo para outro serviço os seus dados", algo que "serve para dar mais oportunidades aos pequenos negócios europeus de forma a ganharem escala e ligação aos seus clientes".

Aí também será útil as novas restrições e proibições para que "os gigantes tech, verdadeiros gatekeepers com poder para gerir boa parte do mundo online, com milhões de utilizadores, não possam priveligiar os seus produtos em relação aos dos rivais".

(Entrevista completa disponível no nosso podcast, Made in Tech, que pode ouvir e seguir no Spotify, Apple Podcasts, Google Podcasts ou no nosso site)

Separar gigante tech, possível, pouco provável

Separar estes gigantes "é possível mas é o último recurso". É possível que isso aconteça primeiro nos EUA, "onde a legislação é mais contrária aos monopólios".

Vestager espera que as multas para os gigantes tech incumpridores que podem ir até aos 10% de receitas globais anuais evitem as infrações e quer "evitar entrar no território desconhecido de separar empresas".

Já sobre os impostos digitais, "é uma questão clara de justiça", porque "a maioria dos negócios tem de se esforçar por ter lucro e pagar os seus impostos, depois olham para os gigantes tech com capacidade de monopolizar clientes e capital e sem contribuir ao mesmo nível".

Com Joe Biden a liderar os EUA, a ideia passa por uma concordância em novos impostos digitais à escala global - com Trump, os EUA estavam contra - e se isso não for possível, espera avançar a uma escala europeia. A responsável vê mesmo as iniciativas de França e Alemanha nesse domínio como incentivos para se chegar a um acordo paneuropeu - "as gigantes tech, mesmo contrariados em relação às novas obrigações, também vão preferir coerência".

"Essas novas receitas podem ser usadas e fazer a diferença de várias formas, claro que uma é ajudar os média, para que consigam manter um notícias locais em jornais com perspetivas variadas", admite.

O que a preocupa mais é que os atrasos em aprovar e implementar estas iniciativas podem dar força aos lobbys das gigantes tech - que investem cada vez mais em advogados e em obstáculos às mudanças.

Sustentabilidade da imprensa

Vestager admite que "as pessoas habituaram-se a não pagar pelas notícias", porque os jornais têm tido por base a publicidade, mas "em alguns países esse dinheiro online em mais de dois terços vai para o Facebook ou Google e isso torna mais difícil ter uma presença de média robusta".

Daí que espera que a implementação plena da lei dos direitos de autor e os novos impostos digitais que se espera que cheguem entretanto "podem dar esta sensação de uma situação mais balanceada e um novo grau de justiça fiscal".

Ainda assim, sobre os média, admite que é melhor não esperar por isso, dando o exemplo do trabalho estatal que tem procurado dar: "devemos ter portas abertas para apoiar os média, porque a pluralidade dos meios de comunicação é muito importante para termos visões diferentes do mundo e tirarmos as nossas conclusões".

Subscrições, alternativa ao modelo de publicidade

As subscrições mensais de serviços para ter acesso a espaço na cloud, música ou vídeo (por streaming), notícias (jornais), mas também a pacotes de mobilidade ou de exercícios continua a expandir-se e a entrar em cada vez mais áreas. Os gigantes tecnológicos conseguem com facilidade criar os bundles com vários serviços associados e preços mais baixos.

Como pode a Europa navegar nesta era de subscrições como alternativa ao modelo económico da publicidade onde lideram Google (já com serviços de subscrições robustos também) e Facebook?

"As subscrições em si são uma coisa boa e ainda estamos no processo de perceber quais são as desvantagens com que podemos ter de lidar". Vestager admite que para muitas pessoas compensa entrar em bundles para subscrever várias coisas ao mesmo tempo. "O que se tentou pôr em prática com as proibições e obrigações dos grandes gatekeepers, é que eles permitam que se descubram as várias soluções mesmo rivais para que não estejam a servir só os gigantes", adianta.

Inteligência artificial levou às vacinas

Já quando nos despedíamos da vice-presidente da Comissão Europeia, no CCB, onde esteve para marca o arranque da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, ela deixou ainda uma mensagem de esperança sobre a pandemia e sobre as transformações que a era digital está a trazer.

"Para muitos este ainda é um novo mundo que não percebem bem, devemos explicar que estes temas estão a fazer toda a diferença na sociedade e a transformá-la", diz a responsável, que se refere não só às empresas, mas também à literacia digital das populações.

"Se não fosse a inteligência artificial, não teríamos este entendimento do vírus que já temos, nem as vacinas para lidar com a pandemia em tempo recorde, isso é garantido". E aí a Europa também teve um papel importante, até porque na base da vacina da Pfizer/BioNTech está a tecnologia desenvolvida pelo laboratório alemão BioNTech.

"O trabalho e ensino remoto também permitiu manter atividades e aprendizagens intactas mesmo nos confinamentos, graças a melhorias tecnológicas constantes impensáveis há uns anos", conclui Vestager.

(Pode ver a primeira parte desta entrevista sobre as novas oportunidades digitais para a Europa e Portugal, o discurso online e as novas ferramentas para regular e restringir a ação das gigantes tecnológicas aqui:)

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