Nem só de música se faz um festival. NOS instala no Alive rede capaz de servir Coimbra

Fomos ver as comunicações que suportam o festival da Everything Is New. É a NOS que assegura tráfego móvel, videovigilância e transmissão televisiva da RTP. Há 500 km de fibra ótica e o 5G já deverá suportar 40% do tráfego.

José Varela Rodrigues
 © Paulo Spranger/Global Imagens

Nem só de música se faz um grande festival de verão. E a 14.ª edição do NOS Alive, que arranca esta quarta-feira e se prolonga até sábado, é paradigmática. Na era do digital, as comunicações assumem um papel relevante na hora de planear um grande evento, para que nada falhe na hora de partilhar um vídeo ou fotografia numa rede social e de concretizar o pagamento de uma bebida ou produto merchandising num terminal multibanco. Ou para quando estiver a realizar uma atividade digital para ganhar um brinde de um dos muitos patrocinadores do festival, a usar um ponto de acesso à internet, ou a ver um concerto na televisão. A "autoestrada" para o tráfego das comunicações do principal evento da Everything Is New é assegurada pela NOS, parceiro tecnológico e principal patrocinador do Alive. O Dinheiro Vivo (DV) foi conhecer a infraestrutura criada e conta-lhe tudo.

A NOS dá o suporte tecnológico ao Alive desde a primeira edição, em 2007. Nessa altura, passaram pelo festival cerca de 100 mil pessoas em três dias. Em 2022, são esperados até 210 mil festivaleiros em quatro dias. Quinze anos volvidos, o que mudou na hora de planear o festival? "A importância das telecomunicações. O grau de exigência quase que duplica a cada ano, porque o consumo de dados tem aumentado à séria. E, por isso, a criticidade da conectividade cresce e é cada vez mais complexa para o sucesso de um festival como este", explica Jorge Graça, chief technology and information officer (CTIO) da NOS.

Jorge Graça é o principal rosto de uma equipa de mais de cem pessoas (engenheiros e técnicos) que está desde 9 de maio a implementar uma rede privada de telecomunicações para o Alive - estes profissionais continuarão a acompanhar o festival até sábado, pois, agora, é preciso monitorizar e dar suporte.

É o próprio Jorge Graça quem nos recebe no Passeio Marítimo de Algés, em vésperas do primeiro dia do evento. O CTIO faz-se acompanhar por uma pequena entourage pronta a explicar à equipa do DV todo o trabalho feito.

Ainda com camiões e carrinhas em movimento no recinto, e com o som de fortes marteladas como pano de fundo, somos conduzidos num buggy ao primeiro local de interesse: a principal antena de rede do Alive, localizada por detrás da área de convidados do festival, estrategicamente virada para o palco NOS (palco principal). Trata-se de uma super antena de alta densidade.

Jorge Graça, administrador e CTIO da NOS © Paulo Spranger/Global Imagens

O administrador para a tecnologia da telecom diz que "foi criada uma minicidade", cuja capacidade de rede instalada é "equivalente" à de uma cidade como "Leiria ou Coimbra" - ou seja, tem potencial para servir até 150 mil pessoas nos 11 hectares do Passeio Marítimo de Algés. Mas a capacidade máxima não deverá ser atingida. Os cálculos da NOS apontam para "quatro a cinco pessoas por metro quadrado a usar a rede e dados móveis". Só em dados móveis, antevê-se um consumo entre 20 a 30 terabytes em quatro dias. Espera-se uma utilização intensiva da rede. Num cenário extremo, com todos os festivaleiros a usar a máxima qualidade da rede, a infraestrutura só pode "aguentar, em simultâneo cinco mil utilizadores" - um cenário irrealista, segundo o gestor, que assevera ao DV que a rede criada tem robustez e resiliência suficientes.

Ora, como é que foi pensada a arquitetura da rede? "Como haverá no festival uma densidade tão grande de pessoas, tivemos de olhar para o recinto com base em quadrículas. O que fizemos foi apontar o sinal de rede para cada uma dessas quadrículas", explica Jorge Graça.

A rede privada do NOS Alive é servida por 50 antenas, posicionadas em pontos estratégicos do recinto, mas esta que nos apresentam é a mais relevante. Junto à antena, Pedro Claro, ​​​​​head of dedicated coverage and special events da NOS, detalha por que motivo aquela infraestrutura é tão importante. "Esta antena é única no país. Ninguém a usa cá, a não ser a NOS. Pesa 300 quilos e tem esta forma esférica que se vê", diz. Esta supera antena opera com efeito lente, o que torna o sinal de rede menos suscetível a interferências, multiplica a capacidade da antena por 12, aumentando a velocidade da transmissão de dados.

"É diferente dos outros tipos de soluções e é usada para grandes aglomerações de pessoas, está focada para o palco principal por ser aí o epicentro do festival", acrescenta. O responsável adianta que o equipamento é o mesmo que as telecom norte-americanas usam em eventos como o Superbowl ou o festival Coachella.

A escassos metros ao lado estão outras duas antenas - uma da Altice e outra da Vodafone -, também para reforçar o sinal de rede entre os festivaleiros clientes das duas concorrentes. Mas não têm uma estrutura idêntica a esta antena da NOS. A antena em causa foi entregue à NOS pela Matsing, fornecedora especialista em tecnologia de rede móvel 4G e 5G.

A antena principal será determinante - segundo os responsáveis da NOS - para que todos os visitantes do recinto retirem o melhor proveito da rede, num espaço que contará com mais de 50 mil pessoas por dia.

Pedro Claro, responsável pela equipa de rede dedicada a eventos especiais da NOS, junto à antena principal do festival. © Paulo Spranger/Global Imagens

A necessidade de criar uma rede privada para o NOS Alive justifica-se porque é preciso garantir que quem está fora do festival, sobretudo nas casas das imediações do Passeio Marítimo de Algés, não sente disrupções nas comunicações. Naquela zona, junto ao rio Tejo, haverá milhares de pessoas a aceder à rede em simultâneo até sábado. Logo, seria inevitável perturbações na rede caso não fosse construído um circuito de comunicações fechado.

Não obstante, de acordo com Pedro Claro, a NOS teve de ajustar "entre seis a oito" estações base de rede na zona de Algés, "num raio de cinco quilómetros". Tudo para que a rede do festival não interfira com a rede exterior do operador.

<strong>5G usado por 25% deverá representar 40% do tráfego</strong>

E quanto ao 5G? Na última edição do festival, a NOS utilizou o Alive para testar a nova tecnologia, mas desta vez será a valer. Das 50 antenas móveis, dez fornecem sinal de rede 5G. O 5G já está disponível e a telecom liderada por Miguel Almeida tem repetido a ideia de que quer liderar a nova vaga. Aliás, a NOS foi o operador que mais investiu no leilão do 5G, empregando mais de 165 milhões de euros.

"Estamos à espera que 25% dos festivaleiros já usem 5G", afirma o CTIO da NOS. Pedro Claro, por sua vez, adianta que as estimativas da empresa apontam para que "40% do tráfego de rede móvel já seja em 5G" na edição de 2022 do festival.

Os equipamentos 5G também estão na antena principal. Dão "mais capacidade de rede" na hora de segmentar o recinto e direcionar cada antena, segundo Pedro Claro, que garante que quem já tem um telemóvel preparado para a nova geração móvel terá "mais velocidade, acesso a conteúdos de forma instantânea e poderá partilhar conteúdos muito mais rapidamente". "A meio de um concerto, quando quiser partilhar uma foto ou um vídeo, acaba por ser muito mais rápido com 5G do que com 4G", atira.

Nos momentos de maior tráfego de rede móvel, acrescenta o ​​​​​head of dedicated coverage and special events da NOS, "tipicamente só entre 20% a 25% das pessoas usam o telemóvel". Por isso, os técnicos não antecipam ao DV constrangimentos difíceis de superar.

"É um desafio grande servir as pessoas todas que vêm ao festival. Esperamos picos absolutamente gigantescos de cada vez que entre um artista novo em palco. Mas, é para estes momentos que nós precisamos deste tipo de soluções, caso contrário degradamos a experiência de todos. Por isso é que precisamos disto para suportar", argumenta Jorge Graça ainda junto à antena principal, que também tem uma série de equipamentos preparados para emitir 5G.

 © Paulo Spranger/Global Imagens

Desde a antena principal caminhamos poucos metros em direção a um pequeno contentor, onde estão os bastidores de rede daquela antena. O pequeno espaço reúne dois armários com material associado à rede do Alive, no que respeita à fonte de energia e ao processamento do tráfego de dados.

A passagem por aquele espaço é breve e serve para revelar que os bastidores de energia são fornecidos pela chinesa Huawei e os bastidores de tráfego são da Nokia. Ponto curioso: como os bastidores sobreaquecem facilmente, uma vez que estão a operar sem parar, o pequeno contentor está equipado com dois aparelhos de ar condicionado para evitar que qualquer componente arda.

<strong>500 km de fibra, o equivalente a servir 240 casas residências</strong>

Seguimos mais uns metros para uma sala técnica portátil, onde dezenas de técnicos acompanham o comportamento de outro conjunto de bastidores. Nesta sala há a particularidade de estarem bastidores dedicados à fibra ótica. Nem só de rede móvel é feita a infraestrutura de telecomunicações do NOS Alive, também houve necessidade de munir o festival de fibra ótica. A NOS teve de transportar muita da cablagem para o recinto, mas também aproveitou parte das condutas que existem no Passeio Marítimo de Algés.

Pedro Claro no espaço dos bastidores que se localizam perto da antena principal da rede do NOS Alive. © Paulo Spranger/Global Imagens

A sala técnica portátil é-nos apresentada pelo CTIO da NOS e por António Bento, senior project manager da empresa. "Temos aqui cerca de 500 quilómetros

de fibra ótica, é aqui que todos os pontos de ligação da rede se agregam. Ou seja, toda a cablagem desta minicidade vem dar aqui

e é daqui que se faz a distribuição do sinal de rede para fora. Se isto for abaixo, a minicidade vai abaixo", salienta Jorge Graça.

António Bento acrescenta que os bastidores, que são "alimentados por gerador", agregam "ponto a ponto as conexões entre as ligações principais e as ligações de redundância

com diferentes salas técnicas ", dedicadas a diferentes especificidades da rede. No caso da rede privada que suporta o Alive, o sinal de rede faz ligação com as máquinas que o operador tem em Algés e em Sete Rios, segundo o senior project manager.

António Bento refere que a fibra ótica instalada "tem capacidade para servir 240 casas", notando que essa parte da infraestrutura está preparada para servir "todo o e qualquer ponto do recinto". Um dos pontos a servir mais relevantes pela fibra da NOS é a RTP, que é parceira do Alive e assegura a emissão televisiva dos concertos no canal público.

"É desta sala que o sinal é enviado para a Marechal Gomes da Costa ", repara Jorge Graça. A RTP tem preparado emissões em direto do NOS Alive, a transmitir na RTP1, RTP2 e na RTP Play.

Além da RTP, a rede da NOS também suporta as câmaras de videovigilância instaladas no recinto do festival, que darão suporte às autoridades em caso de incidentes.

<strong>Rede da NOS suporta emissões da RTP</strong>

Da sala técnica portátil, Jorge Graça leva a equipa do DV até ao espaço onde a RTP tem uma régie improvisada para lançar as emissões. Ali, num stand de dois pisos com uma vista privilegiada para o palco principal do Alive, encontramos Marco Neves, responsável por operações TV e broadcast da NOS.

 © Paulo Spranger/Global Imagens

No primeiro piso, há uma sala que junta um espaço reservado a bastidores da NOS a uma régie improvisada da RTP. Nessa sala, segundo Marco Neves, está "montada" uma área que serve para fazer "a ponte" entre "os vários palcos e a régie da RTP, distribuindo a emissão do canal pelos vários espaços da NOS". Tudo servido pela rede da NOS.

"Basicamente, os câmaras da RTP estarão a captar vídeo e todas as imagens enviadas para a régie da RTP, onde compõem o material, são transportadas pela NOS", traduz Jorge Graça. Ou seja, a emissão televisiva sobre o NOS Alive da RTP será suportada e assegurada pela rede privada de telecomunicações do festival. "Asseguramos todo o transporte , a componente de conectividade é assegurada pela NOS", reitera o CTIO da telecom.

A RTP vai ter no NOS Alive uma equipa total de cerca de 160 pessoas (70 são técnicos produção), ao longo dos quatro dias de festival. Além do espaço criado no recinto para a estação pública, a RTP terá um carro de exteriores junto ao palco principal, capaz de assegurar a realização televisiva de dois palcos em simultâneo, e um conjunto de régies portáteis noutros cinco palcos do festival.

A RTP faz este trabalho no festival desde 2015. Este ano, em conjunto com a NOS, vai incluir momentos nas transmissões televisivas suportadas em 5G, proporcionando planos inéditos - através de um drone, por exemplo. Além disso, as emissões da estação pública terão uma componente mais imersiva, graças ao 5G. Haverá no recinto "um reporter especial" a capturar imagens em tempo real do backstage, da subida de artistas a palco ou da abertura de portas. Tudo com um smartphone 5G. Acresce, ainda, uma câmara de filmar 5G também no palco principal.

Jorge Graça no estúdio improvisado da RTP, de onde serão lançadas as emissões televisivas a partir do NOS Alive. © Paulo Spranger/ Global Imagens

<b>Encomendas chegam em 52 semanas, mas Alive não sofreu com isso</b>

Uma área reservada ao pessoal técnico da NOS, onde supervisionam o desempenho da rede e dos equipamentos que a suportam, é o último ponto de paragem. Esta área localiza-se numa zona vedada aos festivaleiros, não muito longe do famoso Coreto do Alive.

O principal foco deste centro de monitorização improvisado é um ecrã com um painel que regista todos os equipamentos ativos e sinaliza eventuais problemas. À passagem do DV pelo local, aquele dashboard nada de errado assinalava.

Gisela Silva, technical delivery da NOS, cuja função se foca mais na supervisão dos serviços do operador, explica como tudo funciona: "Aqui recebemos alertas sempre que cai um equipamento. Além de ser sinalizado no quadro, recebemos um alerta via SMS a identificar o equipamento, onde se localiza e qual é a sua capacidade de rede".

O tempo de resposta dependerá do incidente, que "habitualmente" tem origem "em falha humana". Gisela Silva refere mesmo que os incidentes, geralmente, são de energia. "Acontece mesmo muitas vezes nos stands, alguém que quer carregar o telemóvel desligar uma ficha da tomada e isso ser suficiente para mandar abaixo um equipamento", nota. "Agora, do nosso lado, não temos tido incidentes ".

O CTIO da NOS acrescenta que este "centro de supervisão" demonstra a "criticidade das telecomunicações" num evento como o Alive. "Qualquer um dos stands e bancas de vendas aqui presentes, por mais pequenos que sejam, assume que tem de ter conectividade. Para assegurar que nada falha, a rede que montamos é cada vez mais resiliente. A grande diferença para edições anteriores é que temos de ser cada vez mais cuidadosos na montagem do que chamamos redundâncias e resiliência. Os problemas vão acontecer sempre, temos é de estar preparados para isso e, aqui, temos múltiplas redundâncias de rede e uma força de resposta rápida disponível", explica.

"Temos aqui não só uma minicidade como uma mini NOS montada. Temos quase todas as áreas representadas, desde equipas de rede fixa, de rede móvel, e um pouco de suporte a clientes", realça ainda Jorge Graça.

Gisela Silva, technical delivery da NOS, mostra o dashboard de reporte de incidentes a Jorge Graça, CTIO da NOS. © Paulo Spranger/ Global Imagens

A terminar a visita guiada, restam duas questões por esclarecer. Tendo em conta as 50 antenas, os ajustes necessários a quase dez estações base nas imediações do Passeio Marítimo de Algés e os 500 km de fibra ótica no local, além dos mais de cem técnicos alocados, quanto custa montar a rede privada do Alive? O administrador e CTIO não revela valores, mas fala em "dezenas de milhares de euros", só na parte de montagem da rede.

"Não consigo dar um valor, porque temos de olhar para isto de diferentes maneiras. Há a parte de suporte ao evento e a parte de suporte à rede. No que respeita à rede, estas bancas também são clientes, ou seja, há custos mas também há receitas", indica o gestor da NOS.

Outra questão é a dificuldade em ter todos os materiais e componentes de rede a tempo e horas. A escassez de chips mantém-se, bem como os constrangimentos nas cadeias de abastecimento. No caso da NOS, sublinha Jorge Graça, apesar do contexto difícil, não surgiram problemas na construção da rede privada do festival. A equipa da telecom conhecia as datas do evento "há mais de um ano" e, por isso, houve tempo para planeamento.

"Num evento como este, desde que haja antecedência, conseguimos resolver", assevera o CTIO da NOS.

Não obstante, Jorge Graça admite que há desafios em diante, visto que "não se consegue trazer as coisas de barco, porque não há barcos suficientes e não há garantias de produção ".

Quais são as consequências disso? "As nossas cadeias de abastecimento esticaram para 52 semanas, estamos a trabalhar quase com um horizonte de um ano", responde. Jorge Graça garante que a empresa não precisa de se antecipar mais. Assim, quando a NOS encomenda equipamentos ou componentes, a perspetiva é que os receba em pouco mais de onze meses.

Este é um problema transversal a vários setores. Nas telecomunicações, Altice, NOS e Vodafone deverão pedir ao governo mais tempo para cumprir as metas de cobertura no 5G. A Vodafone já fez um pedido e, recentemente, a NOS defendeu que o governo deveria flexibilizar prazos. Um dos argumentos usados passa, precisamente, pelas disrupções nas cadeias de abastecimento, que estão a pressionar os calendários das telecom.

Mais Notícias

Veja Também

Outros Conteúdos GMG